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Miguel, 80 anos, estudante Erasmus

Sociedade

O octogenário valenciano Miguel Castillo faz as malas para se apresentar na Universidade italiana de Verona, na segunda-feira, 19 de fevereiro, onde vai continuar, com uma bolsa do Erasmus, o curso de História que está a tirar. É agora um reformado mediático - involuntariamente

Reprodução elpais.com

Vai já avisando que não contem com ele para "festas do pijama" e farras afins. Não é por nada. Acontece que tem 80 anos e um enfarte no currículo, na sequência do qual foi-lhe implantado um quádruplo bypass. É apenas realista: borgas da pesada já não são para ele nem para a esposa, igualmente idosa e reformada, que o acompanhará.

Mas, no resto, Miguel Castillo procurará "estar à altura" dos estudantes da Universidade de Valência, onde frequenta o curso de História, que o precederam nas idas para outras instituições europeias de ensino superior, com bolsas do Erasmus - diz ao diário espanhol El País. Miguel Castillo é um notário reformado (licenciado em Direito), pai de três filhas, que, depois do enfarte que sofreu, decidiu dar um piparote na vida sedentária de aposentado e voltar a estudar.

Inscreveu-se no curso cuja matéria agora o interessava e, pela assiduidade, tornou-se apenas em mais um aluno de História da Universidade de Valência. Trocava apontamentos com os colegas, pedia auxílio ou oferecia-o. "Fui recebido de forma excelente; a idade não é um problema", afirma ao El País. Só faltava às aulas quando as "obrigações familiares" prevaleciam. Ou seja, quando falavam mais alto os deveres de avô, para ajudar a tomar conta dos seis netos.

Hoje, Miguel Castillo é uma celebridade involuntária. Na sua faculdade, relata o El País, tem de ser diariamente reservada uma sala para o estudante octogenário dar entrevistas a jornalistas, que fazem fila para falar com ele. Nos corredores, os professores felicitam-no. No bar, os jovens colegas dão-lhe os parabéns por ter conseguido uma bolsa do Erasmus para continuar o curso na Universidade italiana de Verona, onde se apresenta na próxima segunda-feira, 19.

Miguel Castillo vai explicando a cada um dos jornalistas que foi um professor que o incitou a pedir a bolsa. E que resolveu avançar animado pelo mesmo espírito com que, após sobreviver ao enfarte, decidiu voltar a estudar. Os netos, esses, "estão orgulhosos" do avô, e a família já planeia a primeira visita a Verona.

Quando o El País pôde falar com Miguel Castillo, o repórter testemunhou a abordagem que um colega de curso, também reformado, lhe fez. "Há uns tempos, pensei em pedir a bolsa", disse-lhe. "Sabes por que não o fiz? Tive vergonha de ir à secretaria perguntar." Castillo despediu-se educadamente do colega. Sem comentários.