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Conheça a história de Ricardinho, o 'mágico' que tudo fintou. Até o destino

Sociedade

Diana Tinoco

Portugal tenta hoje sagrar-se campeão da Europa de futsal, comandado por aquele que foi eleito, pela quinta vez, o melhor jogador do mundo. A VISÃO falou com Ricardinho para conhecer a sua história. Na infância faltou-lhe, por vezes, a comida, mas fintou o destino. Sorte ou muito trabalho?

A história de Ricardinho, 32 anos, tinha tudo para correr mal. Filho do meio de uma família pobre de Gondomar, teve sempre a droga o crime à porta de casa. Mas a sua paixão pelo desporto desviou-o de cair em tentação. E livrou-o do mal. Determinado e sem qualquer tipo de heroísmo ou de autocomiseração, hoje fala das desilusões e dos êxitos com a naturalidade própria dos campeões.

Por duas vezes, aos 13 e aos 22 anos, esteve com um pé no mundo do futebol, mas a baixa estatura (1,67m) e uma fuga para a imprensa sobre a abordagem de um dos “grandes”, estragaram-lhe o sonho. Não nega o quanto isso lhe custou, nem o quanto chorou. Sabe que, eventualmente, vai viver sempre com a dúvida: “E se tivesse ido para o futebol?”.

Obstinado, não quis olhar para o futsal como uma modalidade menor e tornou-se o melhor jogador do mundo, por cinco vezes, recebendo o prémio atribuído pelo site Futsal Planet, com a chancela da FIFA, na mesma altura que as notícias anunciavam a quinta Bola de Ouro para Cristiano Ronaldo. “O mais importante é que ambos somos referências máximas para os desportistas e representamos bem Portugal”, diz Ricardinho, a quem chamam o “mágico” por causa das fintas dentro e fora de campo. No entanto, no que diz respeito à visibilidade, o R10 ainda tem um longo caminho até alcançar o CR7.

O futebol de 11 continua a ser o “desporto-rei” e o futebol de salão é apenas uma gota num oceano de patrocínios milionários e de horas de transmissão televisiva. Ricardinho, atualmente a jogar em Espanha, no Inter Movistar, não tem ilusões sobre as diferenças entre as duas modalidades e considera que “a FIFA não soube vender bem o futsal”. Ainda assim, desengane-se quem acha que os profissionais do futebol de salão não precisam de ter uma máquina bem oleada: além do empresário, do assistente pessoal e do motorista em Madrid, o futsalista usa os serviços de uma empresa de assessoria de imprensa e de relações públicas e de uma outra empresa gestora das redes sociais. “O futebol não é só paixão, é também investimento”, resume.

“Quero terminar a carreira como uma referência. Não quero andar a arrastar-me por diversos clubes, a sacar-lhes os últimos euros”

“Quero terminar a carreira como uma referência. Não quero andar a arrastar-me por diversos clubes, a sacar-lhes os últimos euros”

Diana Tinoco

Na Seleção como em casa

Com quase dois milhões de seguidores nas redes sociais, Ricardo Braga, tem-se dividido, esta semana, entre o Porto, Lisboa e Rio Maior, onde decorre o estágio da Seleção Nacional, uma das participantes do Campeonato Europeu de Futsal, a realizar na Eslovénia, de 30 de janeiro a 10 de fevereiro. Portugal integra o Grupo C e irá defrontar a Roménia e a Ucrânia. Ricardinho é o único internacional entre os 14 convocados pelo selecionador nacional, Jorge Braz, mas o ala do Inter Movistar não se sente um expatriado. Aliás, deseja aos seus colegas a oportunidade de virem a jogar fora de Portugal, “para evoluírem em ligas mais competitivas”, como a espanhola.
Entre uma e outra folga, o melhor futsalista do mundo faz das visitas à família um ritual. No Bairro de Timor, “lá para os lados de Valbom”, onde Rui Veloso terá ido ao “Baile da Paróquia”, Ricardinho continua a cruzar-se com os vizinhos da sua infância. “A minha terra é muito simples, é uma aldeia pequena, com quatro ou cinco bairros sociais, em que as portas das casas estão abertas. Sempre que lá vou faço questão de manter as mesmas rotinas: passar no café onde ia com os meus pais e ver o campo de futebol onde tudo começou.”

Neste meio desportivo, o jogador de futsal que começou no Gramidense, seguiu para o Miramar, de Vila Nova de Gaia, já como profissional, e a seguir foi contratado para o Benfica, na temporada 2003/2004, está habituado a ver muitos atletas que se esquecem das origens, mas Ricardinho quer ser um exemplo de humildade. À VISÃO confessa ser a mesma pessoa, “simplesmente cresci e melhorei”. Sempre que fala da juventude, recorda as dificuldades por que passou, “sem nunca deixar de ser feliz”. “Às vezes, a minha mãe não tinha comida para me dar e mandava-me a casa de um vizinho com quem já tinha combinado a refeição. Não se olhava de lado para estas situações e cada um ajudava da forma como podia. As minhas primeiras chuteiras de futsal, aos 14 anos, foram dadas também por um vizinho”, lembra, com detalhe. A pobreza ensinou-o que “é preciso saber andar tanto de fato como de fato de treino”. Agora, faz questão de mostrar ao irmão mais novo e aos dois filhos (com 10 e 5 anos) que é preciso trabalhar para conquistarem o que ambicionam. “Dou-lhes tudo, mas não demonstro que é fácil.”

Nas suas academias, Ricardinho quer ensinar às crianças os primeiros passos do futsal

Nas suas academias, Ricardinho quer ensinar às crianças os primeiros passos do futsal

Diana Tinoco

Se não fosse a Carolina...

Aos sete anos, quando a família Braga morava em Fânzeres, também no concelho de Gondomar, Ricardinho já jogava atrás do avançado. Foi uma fase complicada, depois de terem sobrevivido a um incêndio que lhes destruiu a casa, deixando-os só com a roupa do corpo. “Foi a primeira vez que vi o que é não ter nada. Perdemos tudo, mas ganhámos uma vida”, recorda. Inscreveu-se no clube de futebol Estrelas de Fânzeres e lá jogou dois anos, até se mudar para o Futebol Clube Cerco do Porto, onde permaneceu outros dois.

Numa das finais da época, António Frasco, treinador adjunto do Futebol Clube do Porto viu-o e perguntou-lhe se queria fazer os testes, no ano seguinte. Ricardinho imaginou-se logo a dizer ao pai que ia jogar num clube grande. Quando lá chegou, o treinador havia mudado e disseram-lhe que o futebol era para gente mais alta. Triste e desiludido, ficou um ano sem pegar numa bola, fazendo uma espécie de luto.

Até que, num torneio do 25 de Abril no bairro do Valbom, as suas fintas despertaram o interesse de Carolina Silva. Ricardinho não acedeu de imediato aos convites da treinadora, mas acabou por ceder ao fim de alguns meses, acabando por ir jogar para o Gramidense . “Este ano, quando ganhei o prémio, ela enviou-me uma mensagem que dizia apenas: ‘Vês como valeu a pena?’. A Carolina acreditou em mim. Sabia quando eu ia para o treino sem comer ou com as sapatilhas cheias de buracos. Por causa dela, sou um grande fã e defensor do futebol e do futsal feminino.”
Fernando Santos, o atual selecionador nacional de futebol, também viu em Ricardinho os dotes de rapidez e destreza que o caracterizam dentro do campo. Quando era treinador do Benfica convidou-o para uma pré-época dos encarnados, quase à porta fechada, para testar a sua adaptação. Mas uma notícia vinda a público antes de tempo, anulou o acordo.

Esta é uma das muitas histórias que marcam o percurso de Ricardinho, retratado em várias tatuagens, principalmente no braço esquerdo. Salientam-se os traços de uma rosa (a única flor que ofereceu à avó Rosa), as datas de nascimento dos filhos, um anjo (representando o pai, que há cinco anos perdeu uma perna), o símbolo do dinheiro (“porque é o que move toda a gente”)... e umas mãos agarradas às grades, metáfora da situação do irmão mais velho, preso há nove anos por furto e tráfico de droga. O desenho de uma gueixa e de flores de cerejeira lembram a sua experiência no Japão, a primeira fora de Portugal. Entre as tatuagens encontram-se ainda a palavra “coragem”, escrita em carateres japoneses, e dois pares de alianças de casamento, as dele e as dos pais. Já na perna esquerda reservou espaço para o seu ídolo, o jogador brasileiro Falcão, que ganhou por quatro vezes o título de melhor jogador do mundo. Agora Ricardinho conseguiu superá-lo.

Magia na ponta dos dedos

A morar em Madrid há cinco anos, e passada a dificuldade inicial em fazer a sesta (algo que já não dispensa), Ricardinho lembra a sua passagem pela Ásia com a melhor aventura da carreira.

Quando saiu do Benfica procurava um novo desafio e tinha em mente arrecadar mais dinheiro. Aos japoneses do Nagoya Oceans pediu tudo o que lhe veio à cabeça, desde viagens, férias de Natal, uma casa toda equipada e um carro. “Aprendi muito com a forma como eles respeitam as pessoas e o desporto. O fair play existe mesmo. Antes do jogo, temos de cumprimentar todos os adversários e a equipa de árbitros e, no fim, agradecemos à claque contrária. Ser deportado pode ser uma das consequências por se dizer mal de um árbitro”, descreve.

Dali, Ricardinho mudou-se para Moscovo, mas só aguentou seis meses na capital russa. “Quem é estrangeiro está à parte, os russos só falam quando lhes apetece, e o frio e o trânsito infernal não permitiam fazer mais do que um treino diário. Até me pagaram um valor altíssimo, mas devolvi metade para conseguir ir embora”, conta. Quando volta a Moscovo, pela Seleção Nacional, continua a sentir-se desconfortável.

Apelidado de “O Mágico”, por causa dos truques que sabe fazer com cartas e lenços, diz-se feliz por ter conseguido passar essa magia para os pés e para o futebol. Até 2020, Ricardinho tem contrato com o Inter Movistar – terá 35 anos e não sabe em que condições físicas irá estar. “Quero terminar a carreira como uma referência. Não quero andar a arrastar-me por diversos clubes, a sacar-lhes os últimos euros”, garante.

Recentemente, teve propostas da Croácia e da Rússia, mas o jogador sente-se atraído pela liga do Dubai, muito competitiva, e pela dos Estados Unidos da América. Em março do ano passado também houve a possibilidade de ir para o Sporting e viu essa hipótese como um “grande reconhecimento”, mas Ricardinho confessa que só voltaria a Portugal para jogar no Benfica, o clube do coração.

Foi a pensar no futuro, e no que poderá fazer quando deixar de jogar que, há uma década, abriu a Academia de Futsal em Valbom, de onde já saíram jogadores para a equipa de futebol de 11 do Porto e do Braga. Com o colega de equipa Ortiz Jiménez (o segundo melhor futsalista do mundo e capitão da seleção espanhola), tem um projeto para ensinar aos mais jovens (dos 4 aos 14 anos) os primeiros passos do futsal, “para lhes tirar os vícios do futebol de 11”. Longe está o rapazinho que sonhava com os relvados, enquanto jogava “à bola” com as laranjas e as maçãs que o pai, empregado no Mercado Abastecedor do Porto, trazia do trabalho.

Os palmarés
 de uma estrela

Ricardinho acumula os mais importantes prémios do futsal, numa carreira iniciada em Portugal, com passagem pelo Japão, Rússia 
e Espanha

2017 Melhor jogador 
do mundo de futsal
2016 Melhor jogador do mundo 
de futsal e melhor 
marcador de sempre 
na Seleção Nacional
2015 Melhor jogador 
do mundo de futsal
2014 Melhor jogador do mundo 
de futsal e melhor jogador 
e melhor ala da liga espanhola no Inter Movistar
2013 Melhor jogador da Copa 
de Espanha e melhor jogador e melhor ala da liga espanhola no Inter Movistar
2010 Melhor jogador do mundo de futsal e melhor jogador da liga japonesa no clube Nagoya Oceans
2007 Melhor jogador 
do Campeonato Europeu 
de Futsal
2006 Melhor jogador e melhor marcador do Campeonato Nacional ao serviço 
do Benfica
2002 Jogador revelação 
do Campeonato Nacional 
no Miramar