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Como moda do peixe cru leva a aparecerem mais parasitas intestinais

Sociedade

D.R.

O alerta não é de hoje, mas um caso agora partilhado por um médico americano – que envolve uma ténia com quase 2 metros no intestino de um amante de sushi – veio lembrar que o problema afeta cada vez mais pessoas no Ocidente

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

O caso remonta a agosto, mas só agora foi relatado no podcast de medicina This Won't Hurt a Bit pelo médico americano Kenny Banh e um especialista em parasitas intestinais. No meio de muitos blhecs! e alguns risos de ambos, Banh conta como no passado verão lhe apareceu nas urgências do hospital em Fresno, na Califórnia, onde trabalha, um homem com um saco de plástico. Lá dentro, enrolada à volta do cartão de um rolo de papel higiénico, trazia uma ténia que media 1,67 metros.

O homem contou-lhe, então, que estava na retrete, com uma crise de diarreia, quando viu uma coisa comprida a sair do seu rabo. De início pensou tratar-se do próprio intestino – e que por isso estava com certeza à beira da morte – mas entretanto a coisa começou a mexer-se.

Era uma ténia, confirmou Banh, e crescera no seu aparelho digestivo muito provavelmente por culpa do seu hábito de consumir peixe cru. Até essa crise de diarreia, o homem comia quase todos os dias sushi, sobretudo sashimi de salmão. Há meses que se queixava de dores abdominais, mas julgava tratar-se apenas de gases.

Este episódio de This Won't Hurt a Bit veio lembrar que a moda dos restaurantes japoneses e o crescente consumo de peixe cru ou mal cozinhado (braseado) está a levar ao aumento das infeções parasitárias nos países ocidentais, com graves riscos para a saúde.

Podem não ser ténias gigantes como a reportada por Kenny Banh, mas ainda assim a moda do sushi é “preocupante”, diz Maria João Gargaté, investigadora do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) e responsável pelo Laboratório Nacional de Referência de Infeções Parasitárias e Fúngicas. “Quanto mais peixe cru se come, maior a probabilidade de entrar em contacto com parasitas.”

O caso português

Em maio de 2017, um artigo publicado na revista científica British Medical Journal relata um caso passado em Portugal que deu origem a uma investigação. Joana Carmo, do Departamento de Gastroenterologia do Hospital Egas Moniz, em Lisboa, e mais três colegas médicos depararam-se com um homem de 32 anos que se queixava de dores fortes na barriga, vómitos e febre.

Ao fazerem-lhe uma endoscopia, os clínicos verificaram que continha na mucosa gástrica um parasita da espécie Anisakis simplex, que causa a anisakiase. A infeção é muito comum no Japão, podendo levar até à obstrução do intestino e mesmo à perfuração e peritonite.

Segundo os autores do artigo, os sintomas de infeção por Anisakis surgem habitualmente ao fim de oito horas, e o homem comera sushi recentemente. O parasita foi retirado com uma pequena rede de plástico inserida no estômago com o auxílio de um endoscópio, e os sintomas desapareceram por completo – a única maneira de resolver o problema, uma vez que não existe tratamento, nota Maria João Gargaté.

Congelar ou cozinhar bem

O Anisakis simplex é um parasita (uma larva) muito comum no peixe de mar, em várias espécies, que atinge habitualmente 1 cm de comprimento. “No Atlântico, tem sido encontrado no carapau com tamanhos entre os 0,5 cm e os 2 cm e pouco”, relata a mesma especialista. Aloja-se na cavidade abdominal dos peixes, nas suas vísceras e na sua carne ou lombos – o local mais difícil de ser detetado.

Para evitar a infeção, aconselha-se que o peixe seja sempre muito bem cozinhado ou congelado previamente. A literatura refere que se congele durante sete dias se a temperatura rondar os -20ºC; por 24 horas se congelado a -35ºC e armazenado a -20ºC ou por 15 horas se congelado e conservado a -35ºC.

“O drama cá em Portugal – e todo o resto da Europa fica doido a olhar para nós – é que a legislação não obriga ao congelamento prévio do peixe”, alerta a investigadora. “Os sushimen dizem que desvirtua o conceito do sushi e retira o sabor ao peixe”, lembra. “Também falam na proteção do wasabi [pasta de rábano picante], mas é um mito. Mesmo que o wasabi seja antibacteriano, o Anisakis é um parasita.” Só mesmo a fervura ou a congelação inviabilizam as larvas. Elas podem estar na sardinha assada, tão comum na nossa prática alimentar, ou nos fumados. “E o grande problema”, diz Maria João Gargaté, “é que, uma vez removida a larva, o ser humano fica sensível, e da próxima vez pode ter um choque anafilático.”

Costa cheia de parasitas

De acordo com Peter Olson, especialista em ténias e investigador do Museu de História Natural de Londres, citado pelo Guardian, a ténia do caso relatado pelo médico americano era uma “ténia do peixe” (Diphyllobothrium latum), um tipo de parasitas que costumam passar por vários hospedeiros. “O seu ciclo de vida típico pode incluir um urso que se alimenta de salmão e defeca no rio. As larvas passam para o ambiente e são comidas por um copépode, um crustáceo pequenino, por sua vez comido por um peixe.”

O caso torna-se mais grave quando o ser humano não é o hospedeiro final, nota o mesmo especialista. “Se for o 'intermediário', as larvas não crescem no intestino – movem-se para outras partes do corpo e em particular para o sistema nervoso central.” Nesses casos, causam quistos no cérebro, provocando dores de cabeça e convulsões, podendo mesmo ser fatais.

Segundo Maria João Gargaté, a Diphyllobothrium latum não está descrita em Portugal. O mesmo não se pode dizer do Anisakis simplex. “A nossa costa está parasitadíssima, sobretudo o carapau. É o que diz um estudo em progresso.”

A moda do sushi em Portugal aumenta, por isso, o risco de entrarmos em contacto com o parasita. Só não se sabe até que ponto. Além de não ser uma doença de declaração obrigatória, muitas vezes os parasitas apenas causam reações alérgicas ou sintomas gástricos ligeiros, saindo do organismo sem que a pessoa se aperceba. Na falta de estatísticas, a especialista vaticina: “Só vamos perceber e sentir o impacto desta moda do sushi daqui a uns anos.”