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"Há o risco de as crianças virem a ser prejudicadas"

Sociedade

Depois da indignação da classe profissional e do furor nos media sociais, Miguel Ricou, psicólogo clínico e presidente da comissão de ética da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), esclarece o que não está a correr bem e porquê com o programa Super Nanny

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

Miguel Ricou, psicólogo clínico e presidente da comissão de ética da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Miguel Ricou, psicólogo clínico e presidente da comissão de ética da Ordem dos Psicólogos Portugueses

A psicóloga que conduz o programa pode vir a ser alvo de sanções?

Formalmente já houve queixas na Ordem, compete ao conselho jurisdicional se esta colega agiu de modo a violar as normas do Código Deontológico, que é muito claro acerca das declarações públicas: não falar de casos particulares na televisão, por exemplo. Tem de respeitar a privacidade. Depois há os princípios profissionais, ou a a garantia da exemplaridade e da imagem de excelência, que vão além do cumprimento da lei.

Teresa Paula Marques é psicóloga mas não se apresenta assim no programa.

Ela afirma que não está a fazer intervenção psicológica mas o problema coloca-se na mesma. Imagine que um psicólogo faz reiki: são dois papéis distintos que é difícil dissociar, especialmente quando não há ainda uma visão clara do papel do psicólogo na sociedade portuguesa. Esta confusão não pode existir: fica-se com a impressão de que o psicólogo dá receitas, o que pressupõe uma forma certa e outra errada de fazer as coisas.

Dar receitas de conduta não é intervenção psicológica. Pode explicar porquê?

Uma intervenção psicológica requer um setting apropriado. Além disso é multifatorial, não se resume a, por exemplo, ter uma criança problemática e mudar o comportamento com disciplina e meia dúzia de técnicas. Importa perceber as dinâmicas familiares que levam aquele tipo de funcionamento, abordá-las e discuti-las com as pessoas em questão. As mudanças só se fazem quando as pessoas acreditam que conseguem mudar e que vale a pena.

Um protocolo de regras de comportamento não opera mudanças sólidas é isso?

É como um livro de autoajuda. Passar uma mensagem sobre uma dada forma de fazer é dizer às pessoas “esta é a forma certa de agir” e isso não é apenas errado como perigoso. Não podemos confundir uma técnica com intervenção psicológica.

Por técnica refere-se aos protocolos de treino de comportamento empregue com animais, de trabalho ou de companhia.

Se cada caso é um caso, como podemos esperar que uma técnica resulte de igual forma para duas pessoas? Há uma diferença entre uma atividade técnica e uma atividade profissional. Por um lado, quanto mais dominar a técnica melhor resultado tem, por outro, isso não é garantia: há que adaptar a técnica à pessoa, aumentando a probabilidade de poder resultar.

O ‘faça desta maneira e não daquela’ para chegar a uma meta aproxima-se do coaching.

Começou nas empresas, quando os psicólogos ainda não estavam lá. Os gestores pegaram e desenvolveram isso porque até são bons em marketing e encontram formas úteis de vender e de passar imagens. Porém, o coaching é uma intervenção psicológica e quando a Ordem dos Psicólogos tem a subespecialidade de coaching psicológico é para mostrar que, seguramente, há uma diferença entre o coaching feito por psicólogos e por não psicólogos. De resto, o coaching per se não é uma atividade reconhecida, basta fazer uma formação que dura entre seis meses e um ano e dizer que é coach e se não fez também não há como processar.

Neste caso, o que correu mal?

O princípio da coisa e a exposição pública, que nos leva a questionar os objetivos da própria intervenção. Há aqui um conflito de interesses sério, não garante a construção de uma relação de confiança adequada com o cliente e que garanta que as mudanças que venham a existir sejam eficazes e resultem no médio e no longo prazo.

A quem deve ser imputada a responsabilidade? Ao programa, a quem o produz e difunde ou à profissional?

Não me compete responder a isso. Vejamos a questão desta maneira: eu, psicólogo, saio à noite e encontro clientes meus. Nao tenho nenhuma obrigação legal fora do meu contexto de trabalho. Porém, se a minha conduta colocar em risco a responsabilidade profissional que tenho com os meus clientes eu vou inibir-me de o fazer. O mesmo para a exposição num programa. Isto não é uma norma, eu posso fazer o que quiser na minha vida privada. Mas se me interpretam como psicólogo, eu tenho de ter cuidado com o impacto daquilo que vou dizer e como me comporto, porque posso ser interpretado na qualidade de profissional. Não posso usar a autoridade que a minha ciência me traz para validar opiniões pessoais.

O formato do programa assemelha-se a outros como o Dr Phil. São condenáveis?

Parece-me evidente que é questionável. Noutros países houve questões, problemas, processos. O mais grave é envolver a exposição pública.

É quase como passar a ideia de um paizinho, ou da boa mãe que ensina, a super nanny.

A meta da intervenção psicológica é promover a autonomia das pessoas para que tomem decisões por si mesmas e fiquem satisfeitas. Vender receitas é paternalizar, é tornar as pessoas dependentes de quem as prescreve. Ao fazê-lo, estamos a diminui-las na sua capacidade de poderem encontrar soluções!

Uma crítica frequente feita aos psicólogos portugueses é a de não contribuírem para esclarecer o cidadão comum. O que pode dizer sobre isso?

Se não se tiver o controlo do impacto da informação precisa de ter um cuidado adicional na exposição pública dessa informação, porque cada um vai interpretar isso à sua maneira. Na psicologia não existem regras absolutas de funcionamento e não estamos a passar receitas como se assim fossem mais felizes. Isso não existe. O psicólogo não expõe casos particulares porque não traz vantagens e pode mesmo trazer desvantagens. Nem que o cliente peça! Quanto mais pedir ao cliente para ir à televisão…

No caso da criança: quais os riscos, ou consequências, a que fica exposta?

Se ultrapassar um problema implicar marcá-la e identificá-la com esse problema, o que estamos a fazer? A produtora pediu um parecer à OPP no final de 2015. Em março de 2016 foi dado um parecer negativo, pela exposição pública que era desadequada. E de facto, não podemos estar de acordo.

Este tipo de situações é passível de queixa-crime?

Não sei, não sou jurista. Podemos pensar que sim se estas crianças ficarem em perigo, mas não sei se isso acontece. A questão é a seguinte: não havendo nada a ganhar, para a criança, os seus pais e outros que estejam a acompanhar porque as receitas não funcionam e o modelo de intervenção baseado nestes pressupostos não traz mudanças sustentadas, para quê fazê-lo? As pessoas não mudam assim, seria óptimo se as pessoas mudassem porque as mandávamos mudar. [tom irónico]

Quem vê pode rever-se, mesmo que pouco, no problema mostrado no programa.

É esperado que assim seja, todos nós passamos por processos que são idênticos, um bocadinho de atividade delirante ou psicótica, mas não num nível que nos classifique numa categoria de diagnóstico do Manual de Doenças Mentais (DSM).

Ou seja, é difícil ficar indiferente.

A facilidade com que acontece essa identificação, porque não somos puramente racionais, é que torna a coisa ainda mais perigosa. A tendência é replicarem a técnica, mesmo que não seja por essa via que para elas vai funcionar.

Como interpreta a animosidade nas redes sociais? Os pais sentem-se acossados na sua forma de educar? Há realmente uma crise de autoridade e aligeirar dos limites?

Como diz o colega Eduardo Sá, nunca houve tão boa educação como há hoje nem as crianças foram tão bem tratadas como agora. Evoluiu-e muito ao nível educativo, valoriza-se mais a criança. Antes as pessoas aprendiam a desempenhar papéis, hoje escolhem esses papéis.

O que não significa que os pais se sintam seguros.

Serem pais implica estar confiante na capacidade de fazer escolhas. Implica dar mais carinho e atenção às crianças para enfrentarem os desafios da vida. A complexidade e o aumento da responsabilidade de educar uma criança assusta, é sentido como muito desafiante. E é. Mas não é por isso que têm de ir a correr atrás das regras e das técnicas, dos livros, de receitas. É isto que se pretende que não aconteça.

Qual seria uma boa intervenção didática junto dos media?

Dar confiança às pessoas na sua capacidade de conseguir cumprir esses desafios. Nem acho que se deva psicologizar tudo, mas não faltam profissionais que façam um bom encaminhamento quando é preciso. Programas como este podem até ter as melhores intenções mas didáticos é que não são! Nem percebo o que se pode ganhar.

Como explica que haja pessoas a expor o seu caso desta maneira, se só as prejudica?

Acredito que estes pais sejam pessoas vulneráveis e não estejam intencionalmente a negligenciar os filhos, querendo genuinamente fazer o melhor para eles.

O ideal seria suspender o programa?

Quem tiver que decidir que decida. Creio que o programa traz riscos desnecessários, sendo um deles o de as crianças virem a ser prejudicadas. Cada caso é um caso e há pessoas que lidam com situações terríveis de forma tranquila e sem problemas. Só posso falar do que é mais provável.

Alguma recomendação sobre a conduta dos psicólogos nos media?

Costumo dizer que para ter sucesso nas redes sociais basta ser suficientemente paradoxal com um à vontade grande. Dá uma série de soundbytes, há muitos a concordar e outro tantos a discordar. A polémica é sucesso garantido. E isto é que os psicólogos não podem fazer. A comunicação dos psicólogos nos media tem de ser clara, mas não bombástica nem exclusivamente focada em criar impacto.