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Rita Ferro Rodrigues diz que carta de Deneuve "normaliza a violência contra as mulheres"

Sociedade

Francois G. Durand / GettyImages

Carta de francesas, assinada por Catherine Deneuve, contra os movimentos onde se denunciam crimes sexuais gera contestação. Tão “grave como o machismo dos homens é o machismo das mulheres”, diz a apresentadora da SIC. E a deputada Isabel Moreira diz que é uma carta de quem "aceita o sistema tal como ele é”

“O sistema que ainda temos é patriarcal, continua a existir uma sobreposição de um género em relação ao outro”. Isabel Moreira, deputada do PS, é taxativa em relação à carta aberta publicada na terça-feira, no jornal francês Le Monde, e assinada pela atriz Catherine Deneuve e mais outras 100 personalidade da vida académica e cultural francesa.

Nessa carta, intitulada “Defendemos a Liberdade de Importunar, Indispensável à Liberdade Sexual”, as signatárias defendem que “A violação é um crime. Mas o flirt insistente ou inconveniente não é um delito, nem o galanteio é uma agressão machista.”

A deputada do PS, deixando claro que não leu a carta na íntegra, mas que viu as transcrições na comunicação social, diz que o que falha é que “estas pessoas aceitam o sistema tal como ele é”.

Com o movimento #MeToo, que em França tem uma versão chamada #Balancetonporc (denuincie o seu porco), milhares de mulheres e homens denunciaram publicamente casos de assédio sexual, comportamentos abusivos e violações.

No texto da carta pode ler-se que esta “campanha de denúncias públicas e delação de indivíduos que, sem terem a oportunidade de responder ou se defenderem, foram colocados exatamente ao mesmo nível que os infratores sexuais.”

Isabel Moreira concorda que “pode haver alguns excessos neste tipo de movimentos”, mas também lhe é evidente que estes servem exatamente “para discutir” o que está mal. “Há que saber quais são as fronteiras entre sedução e crime”, até, porque, acrescenta, há vários crimes abaixo da violação, “como assédio sexual ou importunação sexual”.

O texto assinado por Deneuve já foi alvo de uma outra carta aberta, publicada no site Franceinfotv, em que cerca de 30 feministas francesas o criticam duramente. As ativistas dizem que “é normal” que os abusadores estejam preocupados, “por o seu velho mundo está a desaparecer. Devagar - muito devagar - mas inexoravelmente. Algumas reminiscências empoeiradas não mudarão nada, mesmo que publicadas no Le Monde.”

A apresentadora Rita Ferro Rodrigues, do coletivo Capazes, ficou “profundamente triste” com as palavras do documento das 100 personalidades, e constatou “que ainda há muito por fazer”. Tão “grave como o machismo dos homens é o machismo das mulheres”, diz. “Estas pessoas afirmarem que importunar as mulheres é um direito dos homens é de uma gravidade enorme”.

As Capazes estão a preparar um comunicado para ser divulgado ainda esta quarta-feira, porque, refere Rita Ferro Rodrigues, não é aceitável que pessoas tão reconhecidas no seu país e internacionalmente escrevem um texto “que normaliza a violência contra as mulheres".