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O que é a síndrome do choque tóxico, que voltou a dar que falar graças ao caso da modelo amputada

Sociedade

Reprodução Facebook Lauren Wasser

Em 2012, a modelo Lauren Wasser perdeu a perna direita na sequência de um episódio de síndrome de choque tóxico. Agora, vai ter de amputar a esquerda. E tudo porque usou um tampão

Cátia Leitão

Em 2012, Lauren começou a ter sintomas parecidos com os da gripe. Embora não se sentisse bem, a modelo decidiu ir a uma festa de aniversário, onde várias pessoas lhe disseram que estava com um ar doente. Quando chegou a casa, Lauren continuava a sentir-se mal e decidiu ir deitar-se. Acordou de manhã com a polícia a bater-lhe à porta depois da mãe ter estranhado a falta de contacto. Depois disso, Lauren decidiu deitar-se de novo e só voltou a acordar no hospital no dia seguinte. Tinha sofrido um ataque cardíaco que a deixou entre a vida e a morte e os órgãos estavam a entrar em falência. Os médicos não conseguiam estabilizá-la nem perceber a origem do problema até que um especialista em doenças infecciosas se lembrou da possibilidade de Lauren estar a usar um tampão. Ao verificar que sim o especialista enviou o absorvente para o laboratório para este ser testado e os resultados deram positivo para a síndrome de choque tóxico (SCT).

A modelo perdeu parte da perna direita devido a uma gangrena, um tipo de necrose causada pela morte de um tecido pela falta de irrigação sanguínea e, consequentemente, de oxigénio. Na altura, os médicos pretendiam amputar as duas pernas mas Wasser não autorizou a cirurgia com a esperança de conseguir recuperar os danos da perna esquerda. Mas, na semana passada, a norte-americana contou ao jornal Washington Post que vai ter de amputar a perna esquerda.

A síndrome de choque tóxico é uma doença rara mas grave e que pode até ser mortal. O choque resulta de um envenenamento bacteriano provocado pelas toxinas das bactérias Straphylococcus aureus (mais frequente) ou Streptococcus pyogenes, normalmente encontradas na pele, na vagina, nas axilas e nas fossas nasais do ser humano. Estima-se que um terço da população tenha esta bactéria, mas na maior parte dos casos esta não representa qualquer risco para a saúde, o que significa que a sua presença é inofensiva e só coloca o portador em risco quando começa a produzir toxinas.

Os sintomas da síndrome de choque tóxico podem ser facilmente confundidos com os de uma constipação. Febre alta (39ºC ou mais), vómitos, diarreia, tonturas e convulsões são alguns dos sintomas desta doença que pode ainda provocar dores musculares e de garganta, desmaios e irritações cutâneas semelhantes a uma queimadura provocada pela exposição solar, especialmente nas palmas das mãos e na planta dos pés. Embora seja regularmente ligada ao uso de tampões, que na verdade é a causa mais comum, a síndrome de choque tóxico pode ocorrer como resultado de infeções provocadas por cirurgias, queimaduras ou até picadas de inseto.

Pode afetar mulheres, homens e até crianças e se for diagnosticada atempadamente pode ser tratada com antibióticos. A síndrome pode desenvolver-se mais do que uma vez na mesma pessoa pois está ligada à incapacidade do indivíduo de produzir anticorpos suficientes para combater as toxinas.

Além da modelo Lauren Wasser, existem outras jovens que sofreram com a síndrome de choque tóxico e que quiseram tornar a doença pública para alertar outras pessoas, como é o caso de Molly Pawlett, de 14 anos. A jovem foi parar ao hospital, em abril deste ano, depois de usar um tampão durante 10 horas seguidas. Sonia, a mãe da adolescente, contou ao jornal Mirror que "os rins da Molly começaram a falhar e o corpo dela entrou em choque tóxico. Teve de ser vigiada a cada hora e meia e esteve medicada para estabilizar a situação. Por eu ter agido rapidamente e por ela ter retirado o tampão é que foi uma das sortudas. Se não tivesse ido para o hospital, a síndrome podia ter sido fatal para a minha filha".

Outro caso foi o de Phoebee Bambury de 19 anos. A jovem começou por ter fortes dores de cabeça, mas pensou que estas fossem causadas pelo stress dos exames da faculdade. Phoebee explicou também ao jornal Mirror que "tremia de forma incontrolável e doíam-me todos os músculos. Fui buscar uma caixa de tampões e li os sintomas da síndrome de choque tóxico. Batia tudo certo. O meu namorado disse que eu devia estar só constipada, mas eu não quis arriscar". No hospital, a jovem foi tratada com antibióticos e analgésicos, mas durante dias o corpo continuou a reagir à infeção e tanto a febre como os vómitos se mantiveram.

Dada a gravidade da síndrome, os médicos aconselham que o absorvente sejam usado apenas entre 4 a 6 horas seguidas (e não durante a noite) e que o seu uso seja alternado com o do pensos higiénicos.

Uma investigação publicada no jornal Medscape em setembro deste ano concluíu que os casos de síndrome de choque tóxico provocados pelo uso de tampões diminuíram nos últimos 20 anos, sendo agora de 1 caso em cada 100 mil por ano. Quando a infeção é causada pela bactéria Straphylococcus aureus a probabilidade de ser fatal é de menos de 5%, mas no caso da bactéria Streptococcus pyogenes 30% dos infetados acabam por morrer. No que diz respeito à produção de anticorpos capazes de combater as toxinas destas bactérias, 70% a 80% dos indivíduos está protegido logo na adolescência enquanto que na vida adulta, 90% a 95% da população tem as barreiras protetoras totalmente desenvolvidas, o que torna esta síndrome ainda mais rara.