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Tudo o que precisa de saber sobre estudar lá fora

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De ano para ano, cresce o número de portugueses que escolhe licenciar-se noutros países. Na 'pole position' está Inglaterra – e nem o Brexit trava esta vaga especial de emigração

O objetivo de estudar fora do País começou a desenhar-se na cabeça de Gil Maia no início do 12º ano. Ele e outros cinco amigos concordaram que seria “bom e divertido” viverem juntos em Londres, enquanto se licenciavam. Todos, cada um por si, fez a respetiva candidatura, mas apenas um foi aceite. “Os planos foram por água abaixo” conta Gil. Desistir não era opção mas, a três meses de acabar o secundário, pensou que seria demasiado tarde para fazer nova candidatura. Foi então que viu um anúncio da empresa OK Estudante para um evento explicativo sobre as universidades inglesas, em Faro. Poucos meses depois já estava a estudar em Conventry (a cerca de 150 km de Londres) no curso que queria: Design de Produto.

A OK Estudante, que desde 2009 já colocou mais de 3 500 estudantes portugueses em universidades inglesas, mediou todo o processo. “A minha ideia era que o melhor sítio seria Londres, mas descobri que estou num dos melhores cursos de Design de Inglaterra”, diz, agora, com 19 anos, a fazer o segundo dos três anos da licenciatura. No primeiro ano viveu num quarto e, agora, passou a dividir casa com três portuguesas. A sua parte nas contas da casa é de cerca de €335 por mês de renda e €9 de internet. Gasta ainda €15 de telemóvel, as refeições (mais os jantares) vão-se fazendo mais ou menos por cálculos entre amigos – hoje tu compras isto e eu aquilo. E vai a pé para a universidade.

Gil é um dos mais de 200 alunos portugueses a estudar na Conventry University. “No ano passado éramos 60”, diz. De facto, nem o Brexit fez recuar a procura dos portugueses por estas universidades. Aliás, segundo o UCAS – plataforma inglesa que recolhe as informações sobre as admissões –, de um modo geral, as candidaturas de estudantes da União Europeia (UE) desceram 6% entre 2016 e 2017, mas as de Portugal cresceram 17 por cento. No ano passado candidataram-se 1 150 alunos e, em 2017, foi ultrapassada a fasquia dos 1 300 candidatos.

E porquê o Reino Unido? Além do ensino ser conceituado, com algumas das melhores universidades da Europa, o Estado britânico financia as propinas a 100% (custam cerca de €10 000 por ano). Os alunos terão de pagá-las mais tarde, mas apenas quando começarem a trabalhar: até €23 000 de salário por ano estão isentos; para quem ganhar entre esse valor e os €25 000, pagará cerca de €16 por mês; e, quando tiver um ordenado superior a €46 000 anuais, pagará €170 por mês.

“Temo o Brexit, mas uma das preocupações do Governo britânico tem sido exatamente o que vai acontecer aos residentes da UE que lá estão. Sei que há universidades a unirem-se para pagar as propinas caso o Estado deixe de as financiar”, refere André Rosendo, fundador da OK Estudante, que já tem sete escritórios em Portugal, sendo que dois abriram este ano, devido ao aumento da procura, e um em Madrid.

Miguel Covas, diretor da Information Planet, agência educativa que também “coloca” alunos no estrangeiro, diz que “houve ainda mais procura depois do anúncio do Brexit”. No ano passado “enviámos cerca de 200 para o Reino Unido e este ano já vamos nos 400”, nota. “Talvez encarem esta como uma última oportunidade.” Esta empresa, com filiais em 13 países, está presente em Lisboa e no Funchal e, até ao fim do ano, vai abrir no Porto.

“Somos consultores e fazemos todo o processo de candidatura dos estudantes. Apresentamos sempre as melhores opções para a média que têm e o curso que querem”, diz. O serviço, que demora “entre duas a três semanas”, custa €595. A entrada na universidade “é garantida se o aluno cumprir todos os requisitos”, tenha média final do secundário de 10 ou de 19. O preço cobrado na OK Estudante é quase igual: €597.

É fácil arranjar trabalho

Estudar lá fora não será propriamente uma novidade. Sempre houve quem fizesse algum tipo de especialização numa universidade estrangeira ou, mais recorrentemente, mestrados e doutoramentos. Mas isso mudou. Agora são as licenciaturas que têm cada vez mais peso. Cerca de 85% das colocações da OK Estudante foram licenciaturas.

De acordo com vários testemunhos recolhidos pela VISÃO, os alunos optam quase sempre por trabalhar. A carga horária, 10 a 15 horas de aulas por semana, permite arranjar um part-time para custear as despesas. A restauração e a hotelaria são as áreas principais, mas as próprias universidades, além de terem departamentos que ajudam os alunos a encontrar trabalho, também lhes dão emprego, seja na biblioteca ou a ajudar estudantes caloiros, por exemplo.
“É fácil arranjar um part-time. Já estive na área de restauração de um estádio de râguebi e já trabalhei no campus”, diz Ana Vaz, aluna do 2º ano de Ciências Médicas na Universidade de Cardiff, no País de Gales.

O Reino Unido sempre foi para ela uma certeza do plano de estudos. “Candidatei-me a Medicina na Universidade de Bristol, mas não entrei”, lembra. A média de 18 valores do secundário não haveria de ser um problema. A mãe pesquisou na internet e haveriam de ir dar à OK Estudante, que tratou de tudo. O curso que está a fazer vai dar-lhe entrada imediata no 2º ano de Medicina. Depois de o completar vai fazer a especialização em cirurgia, como os pais, nos EUA. O regresso a Portugal será já com a bata vestida.

No primeiro ano, Ana viveu numa residência do campus pela qual pagou cerca de €4 500 pelas 42 semanas de aulas. Agora divide casa com mais sete amigas e paga €315 por mês. “No início foi difícil, não conhecia ninguém, mas este ano letivo entraram 10 portugueses”, diz.

Diogo Costa, 22 anos, já terminou a licenciatura em Música Popular na Universidade de Middlesex, nos arredores de Londres. Era “exatamente o curso que queria” e em Portugal não havia, atesta, depois de terminar uma palestra da OK Estudante no auditório do Liceu Camões. Ele, que começou a trabalhar apenas três dias depois de chegar a Londres, é agora o representante para Portugal da Middlesex.

Propinas grátis

As empresas que “enviam” estudantes para fora fazem “tours” pelo País para divulgarem os seus serviços. Às escolas secundárias chegam as informações das datas e locais onde são feitas palestras explicativas.

“Acompanhamos os alunos do início ao fim. Fazemos as candidaturas, tratamos do financiamento do Estado inglês, temos uma agência de viagens e ajudamos a encontrar alojamento”, enumera Miguel Covas, da Information Planet.

Foi assim que Lourenço Fonseca, 20 anos, se instalou em Copenhaga, na Dinamarca. Divide casa com dois portugueses e dois ingleses (renda de €200 a cada um) que há dois anos começaram a estudar na Copenhagen Business Academy através da Information Planet. 
O futuro gestor em Marketing Management até tinha ideia de ir estudar para Inglaterra, mas quando na agência lhe apresentaram a Dinamarca (segundo país com mais candidaturas depois do Reino Unido) nem pensou duas vezes. 
“O método de ensino é muito mais prático e conseguimos ser independentes facilmente”, conta.

Em 2010, a empresa pôs 23 estudantes na Dinamarca e o número tem vindo a crescer: este ano foram já 190 alunos. As propinas também são gratuitas para todos os habitantes da UE e o Estado ainda comparticipa os estudantes locais com €800 por mês, desde que estejam a viver fora de casa dos pais, e dá a mesma quantia para aos estrangeiros da UE que trabalhem 10 horas por semana. Lourenço está empregado num bar de cocktails, e, como faz mais do que as 
40 horas por mês, ganha “cerca de €1800”. Há casos de estudantes na Dinamarca que ganham mais a estudar do que os pais nos seus empregos em Portugal. Apesar do clima frio, Lourenço não se arrepende de nada e não pensa regressar. “Seria passar de cavalo para burro”, diz, a rir. “O nosso mercado e as condições de trabalho deixam muito a desejar.”

As primeiras opções

São os dois destinos mais procurados pelos portugueses: as universidades britânicas estão entre as melhores da Europa e financiam as propinas a 100%; a Dinamarca é a nova tendência, com cursos em inglês, propinas gratuitas e
um subsídio de 800€ para alojamento.

Reino Unido
Alojamento particular €487
Alimentação €183
Transportes €91
Telemóvel €30
Total mensal €791
Quanto se pode ganhar num part-time – na restauração, por exemplo, com 25 horas por semana, e juntando aos rendimentos fixos as gorjetas, o salário anda à volta dos €675 a €850 por mês

Dinamarca
Alojamento particular €300
Alimentação €225
Transporte €50
Telemóvel €30
Total mensal €605
Quanto se pode ganhar num part-time – o salário, para um estudante, não costuma ser inferior
a €13 por hora

Em que altura são 
as candidaturas?

Reino Unido

Grande maioria dos cursos – até 15 de janeiro (com resposta até 31 de março)
Podem ser feitas candidaturas findo este prazo (chamam-lhe POST – 15 jan), mas as regras ficarão sujeitas ao número de vagas que sobrarem.

Cursos em Oxford, Cambridge ou cursos de Medicina, dentista e Medicina Veterinária/Ciência – até 15 de outubro

Cursos de Arte e Design – até 24 de março.

As aulas começam em setembro. Poderá haver uma segunda data de arranque em alguns casos.

Dinamarca

Data limite – até 15 de março

O ano letivo começa em setembro e, em alguns casos específicos, em fevereiro.

Estudar fora? 
Opções não faltam

Outros países europeus com cursos lecionados em inglês, a maioria com propinas gratuitas

Alemanha

Propinas Gratuitas
Quarto (residência universitária) €240 (particular) €298
Alimentação €170
Transportes €30

Áustria

Propinas Gratuitas
Quarto (residência universitária) €200 (particular) €270
Alimentação €200
Transportes €20

Itália

Propinas €850 a €1000
Quarto (residência universitária) €257 (particular) €266
Alimentação €150
Transportes €25 a €35

Finlândia

Propinas Gratuitas
Quarto (residência universitária) €330 (particular) €400
Alimentação €260
Transportes €35

Grécia

Propinas Gratuitas
Quarto (particular) €200
Alimentação €200
Transportes €15

Holanda

Propinas desde €1 950 
(há cursos mais caros do que outros)
Quarto (residência universitária) €340 (particular) €419
Alimentação €200
Transportes €35; o uso da bicicleta 
é o mais comum

Polónia

Propinas Gratuitas
Quarto (residência universitária) €100 (particular) €150
Alimentação €100
Transportes €15

Suécia

Propinas Gratuitas
Quarto (residência universitária) €260 (particular) €400
Alimentação €200
Transportes €50