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Os seropositivos já chegam a velhos

Sociedade

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Estas são as boas notícias. As más: têm todas as doenças da idade e um maior risco de desenvolver algumas delas. Como lidar com estes novos doentes velhos?

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Era impensável há 30 anos, mas agora é uma realidade: a infeção por VIH tornou-se numa doença crónica e, portanto, começa a ser preciso pensar numa população seropositiva, que sobreviveu ao vírus (que, claro, ainda carrega), e que agora se vê confrontado com todos os problemas normais da idade. Foi isso que o economista da saúde Miguel Gouveia, em colaboração com outros especialistas da área da Saúde, fez no relatório O envelhecimento das pessoas com VIH – perspetivas presentes e desafios para o futuro, apresentado terça-feira 28. “No decurso dos próximos 20 anos, a população com VIH em Portugal irá envelhecer rapidamente, chegando-se a uma situação em que mais de 80% das pessoas com VIH terão mais de 50 anos”, lê-se no trabalho, patrocinado pela farmacêutica Gilead Sciences.

E isto acontece por duas razões. Por um lado, as terapias antirretrovirais controlam o vírus ao ponto de, ao fim de alguns meses de tratamento, este se tornar indetetável no sangue. A partir daqui, o sistema imunitário pode recuperar do forte ataque que sofreu e a pessoa consegue fazer uma vida perfeitamente normal. Pensa-se mesmo que nos seropositivos tratados, que cumprem a medicação sem falhar, o risco de transmissão fica reduzido a zero. Outra razão é o facto de os doentes estarem a ser contaminados em idades cada vez mais tardias.

Com uma esperança de vida que já se encontra muito próxima da média, os seropositivos têm, no entanto, maior risco de sofrer de certas patologias. Quer como consequência da medicação, sobretudo da mais antiga, quer como resultado do próprio processo inflamatório provocado pela presença do vírus no corpo. “Várias comorbilidades, oncológicas e não oncológicas, apresentam riscos de desenvolvimento superiores nas pessoas com VIH face à população geral. Isto significa que estas patologias terão incidências ou prevalências superiores ao que tenderá a ocorrer na população em geral, representando por isso um desafio considerável para o Serviço Nacional de Saúde e para os profissionais de saúde que acompanham estes doentes”, alerta Miguel Gouveia, assumindo que o principal objetivo deste trabalho é precisamente chamar a atenção dos profissionais de saúde, mas também dos doentes e dos decisores.

Doentes muito bem acompanhados

Uma das questões que deve ser avaliada e pensada é quem deve seguir estes doentes, que acabam por ter de tomar vários comprimidos por dia, para os diversos problemas de que padecem. Tipicamente, os seropositivos são acompanhados por um infecciologista ou por um especialista em Medicina Interna. Mas esta questão da polimedicação, com as interações entre os vários medicamentos, pode obrigar a que sejam seguidos em mais do que uma especialidade. Esta é por exemplo a visão que se pratica na Clínica Modena, em Itália, onde os seropositivos são avaliados por vários profissionais de saúde, tudo “no mesmo local”, sublinha o presidente da instituição de apoio Abraço, Gonçalo Lobo.

Num estudo da responsabilidade da farmacêutica Marck Sharp & Dohme, que envolveu 400 doentes com mais de 50 anos, de todo o País, o objetivo foi identificar e quantificar as patologias mais comuns nesta população. Joana Almeida, do departamento médico da empresa, avança que 90% das pessoas acompanhadas ao longo de quase um ano tinha pelo menos mais uma patologia, não relacionada com a infeção por VIH, e 35% sofria de três ou mais. Sendo os problemas mais frequentes o excesso de colesterol no sangue (61%), a hipertensão (40%) e a depressão/ansiedade (24%). Além de serem acompanhados na especialidade de infecciologia, em regra os doentes também são seguidos pelo médico de família e por outros especialistas – por exemplo, o cardiologista. “É das populações com doença crónica mais bem acompanhadas”, resume a farmacêutica.

Outra boa notícia é o facto de o número de novas infeções estar a diminuir de forma consistente, em Portugal. O que não quer dizer que o trabalho esteja acabado. Se tiver de eleger uma batalha, Gonçalo Lobo escolhe o diagnóstico precoce. “Ainda há receio por parte das pessoas em dirigirem-se às unidades onde podem fazer o teste. É preciso tornar o rastreio do VIH universal.”

Os números do VIH em Portugal

45mil
infetados

57%
Transmissão 
heterossexual

35%
Transmissão 
em homens que têm sexo com homens

841
Novos casos 
em 2016

(Artigo publicado na VISÃO 1291 de 20 de novembro)