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"Estava influenciada por este clima geral em que as mulheres começaram a falar de condutas sexuais inapropriadas de homens poderosos"

Sociedade

"As mensagens eram nojentas e crescentemente desapropriadas, e ele estava a deixar-me doida", diz à VISÃO Lily Lynch, a jornalista que acusou Bruno Maçães, acrescentando no entanto que nunca "pensou deliberadamente em expor este caso" que considera um incidente "menor"

Imagem de perfil de Lily Lynch no Twitter

Imagem de perfil de Lily Lynch no Twitter

Lily Lynch é a jornalista americana, residente em Belgrado e co-fundadora do site Balkanist, que acusou Bruno Maçães no Twitter de lhe enviar propostas e conversas desadequadas que considerou assustadoras e fotografias de conteúdo sexualmente explícito sem o seu consentimento. Disse ontem que por isso, e porque "se sentiu ameaçada", acabou por bloquear naquela rede social o ex-secretário de Estado de Passos Coelho para os Assuntos Europeus, a quem chamou de "político desprezível". À VISÃO respondeu a um conjunto de perguntas por email em que esclarece como viu a situação como algo "menor".

Quando é que aconteceram os factos que relata? E porque decidiu falar agora?

Tudo aconteceu no ano passado. E não decidi propriamente "falar agora". Estava a conversar com colegas no Twitter sobre como alguns políticos nos Balcãs enviam mensagens diretas sexuais. Penso que estavamos influenciadas por este clima geral em que as mulheres começaram a falar de condutas sexuais inapropriadas de homens poderosos.

Alguma vez se encontraram pessoalmente?

Não.

Mas existiu alguma vez um clima de romance entre os dois, como Bruno Maçães parece alegar com a resposta que postou?

É ridículo, a resposta é absolutamente não.

Porque decidiu finalmente depois bloqueá-lo [após as mensagens que considerou ofensivas]? Sentiu-se ameaçada?

Bloqueei-o porque as mensagens eram nojentas e crescentemente desapropriadas, e ele estava a deixar-me doida. Vou lançar um livro no próximo ano, e algumas das questões que o meu editor quer que eu aborde são exatamente estas, como ser mulher sozinha e ter de navegar entre políticos, crime organizado, governos autoritários, segurança de estados e polícias, seja na Sérvia, na Ucrânia ou na Albania. Terei de abordar alguns dos detalhes do que aconteceu com o Bruno, embora tenham sido algo muito, muito menor. Não lhe chamaria assédio, mas apenas algo altamente desapropriado e estranho.

Mas acredita que as mulheres devem falar e denunciar estas situações?

Honestamente, não. Nunca pensei deliberadamente em expor este caso. Estava a discutir o tema com alguns colegas no Twitter e a história acabou por explodir.

Inspirou-se pelo movimento #metoo?

Não, e não estou propriamente interessada no movimento #metoo, porque acho que há melhores locais para falar destes assuntos do que nas redes sociais. Percebo que pode soar um pouco hipócrita, mas nunca quis que esta história do Bruno tivesse saído do meu círculo de jornalistas-mulheres que fazem a cobertura dos Balcãs. No entanto, é inegável que provavelmente tenha sido influenciada pelo facto de as mulheres estarem agora constantemente a falar da indecência dos homens para com o sexo feminino.

E agora arrependeu-se de ter falado? Há quem critique estas situações como manobras de marketing.

Sim, arrependo-me, porque nunca considerei que fosse um assunto tão sério que a minha vida ou a de outros estivesse em risco, até achei algo divertido. A outra razão porque me arrependo é exatamente por pessoas poderem pensar que é um esquema de marketing.