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Paradise Papers: Rússia fez “investimentos substanciais” nas redes sociais Facebook e Twitter

Sociedade

O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, com o investidor russo Yuri Milner, de quem se tornou amigo

Robert Galbraith / Reuters

Instituições ligadas ao Kremlin financiaram o Facebook e o Twitter através de um sócio de Jared Kushner, genro e conselheiro do Presidente Trump. Bono, Madonna e a Rainha de Inglaterra são outros dos visados na mais recente fuga de informação relacionada com a gestão de offshores

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

Com a investigação em torno da eventual interferência russa na campanha presidencial norte-americana ao rubro, também os Paradise Papers contribuem para a associação da família Trump e dos seus correligionários a Vladimir Putin.

Duas empresas próximas do Kremlin financiaram as redes sociais Facebook e Twitter, tendo como intermediário o magnata russo da tecnologia Yuri Milner, parceiro de negócios de Jared Kushner, genro de Donald Trump e conselheiro da Casa Branca.

Os Paradise Papers mostram que o banco VTB, controlado pelo Estado, investiu €165 milhões no Twitter, em 2011. Na mesma altura, a Gazprom, empresa estatal de petróleo e gás, investiu numa empresa que seria o veículo para a compra de ações do Facebook no valor de €860 milhões. Tanto o VTB como a Gazprom são, atualmente, alvo de sanções dos EUA.

Milner nega que seja parceiro de negócios de Kushner, apesar de também ter investido numa start-up da qual o genro de Trump é coproprietário. Mas a revelação do seu papel como intermediário do investimento russo nas redes sociais trouxe pressão adicional para as tecnológicas, que têm estado sob escrutínio relativamente ao seu papel na propagação de informação falsa durante a campanha presidencial que levaria à eleição de Donald Trump.

O Facebook afirma ter vendido o investimento da Gazprom há cinco anos, enquanto o Twitter diz analisar cuidadosamente todos os investidores. Mas as aparentes ligações da administração Trump à Rússia não se ficam por aqui.

O atual secretário do Comércio dos EUA, Wilbur Ross, é acionista de uma empresa de navegação que facturou €60 milhões a uma empresa russa, detida pelo genro do presidente russo e por dois oligarcas presentes na lista de sanções dos EUA.

Da rainha de Inglaterra à rainha da pop

No Reino Unido, as ondas de choque ascendem à família real. A Rainha Isabel II terá investido 11 milhões de euros num fundo das ilhas Caimão. O investimento mais polémico é na maior retalhista do Reino Unido, a BrightHouse, condenada recentemente por utilizar técnicas de venda agressivas e sistematicamente acusada de explorar a população mais pobre e vulnerável. Os investimentos foram feitos através do Ducado de Lancaster, que gere a propriedade da Rainha, e que afirmou desconhecer a ligação à BrightHouse até à divulgação dos Paradise Papers, mas considerou-a “insignificante”.

O escândalo chegou à Premier League devido às relações pouco transparentes entre os milionários Alisher Usmanov, acionista do Arsenal, e Farhad Moshiri, acionista do Everton.

Durante anos, Moshiri foi coproprietário das ações de Usmanov no Arsenal, até que decidiu vender-lhas para investir no Everton – a liga inglesa proíbe os acionistas com mais de 10% das ações de um clube de investirem noutra equipa – o que levantou suspeitas sobre quem é o verdadeiro proprietário das ações.

Há também artistas entre os visados. O vocalista dos U2, conhecido como Bono Vox, usou o nome verdadeiro, Paul Hewson, para investir num centro comercial em Utena, na Lituânia, através de uma empresa com sede em Malta, um “paraíso fiscal” onde os investidores estrangeiros pagam apenas 5% de imposto sobre o valor dos lucros. Entretanto, o investimento foi transferido para a ilha de Guernesey, sob dependência do Reino Unido, mas os representantes do artista classificam-no como um “investidor passivo e minoritário”.

Também Madonna é referida na investigação, mas não são ainda conhecidos pormenores. Apenas se sabe que a nova residente de Lisboa terá adquirido ações de uma empresa de produtos médicos através de uma sociedade offshore.

Os portugueses da lista

E até o popular primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, está a ser arrastado para a polémica depois de revelado que o seu conselheiro e chefe de angariação de fundos, Stephen Bronfman, está envolvido numa complexa rede de movimentação de milhares de dólares entre os EUA, Israel e as ilhas Caimão.

Tal como aconteceu no ano passado com os Panama Papers, foi o jornal alemão Süddeutsche Zeitung o primeiro a ter acesso à documentação, que depois partilhou com o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI, uma rede global dedicada ao jornalismo de investigação). Ao todo, 96 meios de comunicação e 381 jornalistas de 67 países diferentes estão a analisar a informação libertada.

Mais de 13 milhões de ficheiros compõem os chamados Paradise Papers, quase metade pertencem a uma empresa gestora de offshores fundada nas Bermudas, a Appleby. Os documentos revelados cobrem o período de 1950 a 2016.

De acordo com o Expresso, parceiro nacional do CIJI, nos quase sete milhões de ficheiros da Appleby, a gestora de offshores que está no centro da investigação, são identificados mais de 70 cidadãos portugueses, entre eles estão antigos administradores do Grupo Espírito Santo e do BPN. No entanto, apesar de terem cidadania nacional, os visados “nasceram ou vivem noutros países há muito tempo, sendo que existem muitos casos de gestores a trabalhar na indústria financeira internacional, com ligações ao mundo dos offshores”, lê-se na página do semanário.

Ao contrário da Mossack Fonseca, principal visada nos Panama Papers, a Appleby é uma empresa prestigiada, vista como arauto de boas práticas no setor, o que contribui para a surpresa provocada pela investigação. “Não há provas de má conduta, nem da nossa parte nem dos nossos clientes”, afirma a Appleby em sua defesa.

Legal ou moral?

Os documentos mostram como empresas e indivíduos evitaram pagar impostos recorrendo a estratégias nem sempre geridas de acordo com a legalidade. As sociedades offshore são legais, desde que a informação seja transmitida às autoridades fiscais competentes, e estão sujeitas a taxas que variam consoante o país.

Esta nova fuga de informação veio relançar o debate em torno da moralidade das sociedades offshores, ainda que geridas dentro da legalidade. Segundo o jornal britânico The Guardian, só no ano passado as empresas multinacionais depositaram €600 mil milhões em offshores.

O secretário-geral da OCDE, Angel Gurria, afirmou que o G20 está a trabalhar na “mudança das regras que tornam os offshores legais” e que muitos outros países se irão juntar à discussão. Já o diretor da organização Transparência Internacional, Duncan Hames, insurgiu-se contra o “secretismo dos offshores que permite aos corruptos viverem vidas de luxo com dinheiro muitas vezes roubado às populações mais pobres do mundo”.

Após a divulgação dos Panama Papers, em abril do ano passado, o então presidente do Estados Unidos, Barack Obama, lamentou: “O problema é que muitos destes comportamentos são legais – e não ilegais”.