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O puto que fintou o destino

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Em junho de 2006, a VISÃO foi à Madeira desvendar as origens do jogador que então já brilhava no Manchester United. Ronaldo poderia não ter passado de Cristiano, talvez desse em bate-chapas ou pedreiro. Por um triz, deu em craque. Como se salvou da pobreza e da desgraça? Uma reportagem para reler, na altura em que acaba de ser eleito, pela quinta vez, o melhor futebolista do mundo

Desde garoto que tratava a bola por tu. Por ela não comia, com ela dormia. Abraçava-a e guardava-a. De tantos mimos, a redondinha recompensou-o de dedicações e afetos. O retorno está à vista: carros de alta cilindrada, ordenado milionário superior a 75 mil euros por semana, contratos publicitários chorudos, muitos luxos, vida para lá de boa. Daí a ser idolatrado, amado, modelo de sucesso e corpo de babar para mulheres e homens foi como atravessar a rua ou fazer um cruzamento para golo. Cristiano Ronaldo, 21 anos feitos a 5 de Fevereiro, estrela mais cintilante da seleção nacional de futebol e sucessor de Beckham no Manchester United, ganhou pose adulta, madura. Terá o menino que começou no humilde Andorinha crescido depressa demais? A criança pura e doce, mas algo rufia e travessa, ainda mora dentro dele. Quando lhe dá para as boas, é brincalhão e de grandes euforias. Há dias, era vê-lo excitadíssimo, quase aos pulos, quando a loura Merche Romero, apresentadora televisiva e namorada mais ou menos assumida, apareceu no estágio da selecção nacional, em Évora, para o ver. Quando perde as estribeiras, cega. Em tempos, atirou com uma cadeira a uma professora.

E até pode dar-lhe para o pontapé, como teve a infelicidade de perceber um jogador que lhe fazia marcação cerrada, no jogo de preparação com Cabo Verde, sábado passado. A partida era a feijões, comparada com o que aí vem. Se fosse na Alemanha, seria, certamente, expulso.

Que fazer, pois, com este miúdo rebelde e jogador graúdo que pode decidir um jogo ou deitar tudo a perder? São assim os génios, ainda mais se vacinados na rua. Domesticá-lo pode matá-lo, deixá-lo à solta pode destravá-lo. A equipa técnica de Scolari sabe que a linha é ténue. E nem a boa influência que Figo tem exercido sobre ele, amansou de vez o puto indomável e traquina que cresceu, pé-descalço, num bairro do Funchal, com soberba vista de mar. Mas sem horizontes.

É verdade: Critiano nasceu entre os «instrangeiros » da Madeira, no dizer do antigo sacerdote Edgar Silva. Gente do «Quarto Mundo». Famílias pobres e desgraçadas, excluídas do desenvolvimento e da fartura, estranhos na sua terra. Daí o nome. Num cenário cuja referência ética é a provocação e o desafio, por vezes tribal, Ronaldo fez-se homenzinho. Na rua, sempre na rua. Edgar foi padre nos Álamos, na freguesia de Santo António, 45 mil pessoas, a maior da ilha. «Muitas famílias viviam em barracas, nas franjas da ribeira que, quando transbordava, levava tudo na enxurrada. O Ronaldo vivia mais acima.» Cristiano morava com os pais e os três irmãos no número 23 da Quinta Falcão. Dito assim, até parece coisa fina, mas o bairro era e é um dos locais onde a esperança não montou casa. A de Cristiano, de resto, está fechada praticamente desde que a família percebeu que o Sporting lhe traria mundos e fundos. Na verdade, não é uma casa. É mais um barraco de zinco e cimento com anexos, propriedade da Câmara do Funchal. Com «varanda» de sonho para ver a baía. Mas a meter pena a quem a vê vazia, num bairro a rebentar pelas costuras e onde, segundo uma recente reportagem do Diário de Notícias da Madeira, são mais as famílias do que as casas, com médias de sete e oito filhos, terreno fértil para vários desarranjos sociais e droga à mistura.

«Freguesia de faquistas, é normal acabar tudo à zaragata nos arraiais. Mas as solidariedades também são fortes», atesta Edgar Silva, que se lembra de ver o miúdo Cristiano com uma bola debaixo do braço, quase sempre pela mão do pai, José Dinis, falecido no ano passado, antigo jardineiro da junta de freguesia e roupeiro do Andorinha. Fiel amigo do seu copito e bom homem, Edgar «via-o muitas vezes na missa de domingo, logo às sete da manhã, ele e mais uns quantos amigos, na última fila. Às vezes, sem terem ido à cama», conta o actual dirigente da CDU. Cristiano, esse, ia à cama, que remédio! Mas pouco. A mãe, Maria Dolores, que hoje vive com ele em Inglaterra, era cozinheira na Estalagem da Casa Branca e deixava-lhe, por vezes, o almoço embrulhado num jornal ou num cobertor. Quando chegava a casa, a comida estava intacta. Rapaz e bola, nem vê-los! O miúdo crescia franzino, enfezadito. Frequentemente, ia para os jogos quase mal nutrido, os tempos eram difíceis. Treinadores e colegas chegaram a perguntar: «Tomaste o pequeno-almoço?» Mas ele só queria dar respostas no campo e, às vezes, não conseguia aguentar o jogo todo. Os estudos foram-se arrastando, sofridos, com conflitos à mistura, até ao abandono total, já em Lisboa, depois de chumbar e antes de cumprir o 7.º ano.

Ronaldo começou por jogar na rua, com outros catraios. E quando se metia em peladinhas acima da sua idade, já trocava os olhos aos mais velhos. O Andorinha, o clube da freguesia, foi onde deu nas vistas. Por lá já tinha andado o padrinho, Fernão Sousa, que até ia faltando ao baptizado. «Tive jogo nesse dia e cheguei atrasado. O padre deu-me uma descascadela », conta este antigo dirigente das camadas jovens do Nacional.

O Andorinha foi fundado a 6 de Maio de 1945 e tem, actualmente, mais de cem miúdos a seu cargo. «Todos a tentarem imitar o Ronaldo e os pais a empurrarem », graceja Rui Santos, o presidente, por entre barulhos de chávenas de café e cavaqueira, na esplanada central de Santo António, ponto de encontro habitual para «dar ao serrote».

Nas colunas de som, Camané interroga--se, em melodia: «Maria Albertina, como foste nessa de chamar Vanessa à tua menina? » e vem à baila que José Dinis foi nessa de chamar Ronaldo ao seu menino por causa de Ronald Reagan, antigo Presidente dos EUA. O nome ficou, mais de 2 milhões de sítios na Internet só falam dele. «O fenómeno transformou o Andorinha num ícone. Mas o Cristiano não tem ajudado muito, se calhar precisa de amadurecer mais para se lembrar de nós», desabafa Rui Santos, um tanto amargurado por falar no assunto. Ele leva já 12 anos de clube e sente as dores das suas gentes, tristes por saberem que o ídolo da terra não tem sequer cinco minutos longe dos holofotes para revisitar as raízes e falar às crianças. Quando se desloca à Madeira, Ronaldo escolhe hotéis de luxo para fugir às solicitações. Nem sequer a vivenda Dolores, situada num típico bairro de classe média, no Funchal oferecida à mãe e que terá custado cerca de 150 mil euros costuma ser ocupada pela família.

Apenas a irmã mais velha, Filipa, lá vive, ela que, a expensas do mano famoso e rico, abriu a CR7, loja de vestuário de grandes marcas, negócio que tarda em impor-se.

A verdade é esta: desde que deixou o Sporting, a vedeta não mais foi vista na freguesia de Santo António, onde tantas e tantas vezes o povo se puxava de brios e descia, ribeira abaixo, até aos Barreiros, para ver o seu menino jogar contra o Marítimo.

Há dois anos, por vias travessas, o Andorinha fez chegar ao jogador proposta simples, sem custos: ele dava o nome para a escolinha de formação e a criançada enchia o peito e ficava a sonhar com outros voos. Basta ir à sede do clube para perceber a adoração, ilustrada por fotografias e posters.

Mas Ronaldo «nem resposta deu».

Entrou, então, em campo o Benfica, com um protocolo tentando pescar à linha novos talentos. Agora, Rui Santos limita-se a servir de simpático cicerone de jornalistas e curiosos à cata de histórias sobre Cristiano. «Ainda há dias estiveram aqui uma televisão japonesa e uma revista alemã.» No novo complexo desportivo do Andorinha construído já depois de Ronaldo partir sobra ainda um homem que, de lágrima no olho, não quer acreditar que o sucesso tenha subido à cabeça do rapaz. «Andei com ele ao colo e levava-o no meu carro, ele de perna esticada, lá atrás. Era reguilazinho, um pedaço travesso, mas bom miúdo.

E um tratado de bola», conta o senhor Alvarinho, 64 anos, funcionário mais antigo do clube, enquanto jovens imitadores de Ronaldo, nos penteados e na maneira de vestir, assistem na bancada a um jogo de iniciados.

Todos querem ser Ronaldos. Ele é, talvez, o maior produto turístico da Madeira e o seu nome e camisolas estão dispersos por lojas, tascas ou varais de roupa. A ascensão rápida cativa os mais novos, numa terra de poucas oportunidades.

Mas até Cristiano, mesmo com todo o seu talento, ia ficando pelo caminho.

Aos 6 anos, estreou-se no Andorinha e, aos 10, já era cobiçado pelo Marítimo e pelo Nacional. Esteve prevista uma reunião a três, mas os dos Barreiros perderam para os da Choupana por não quererem entrar em leilões. Não era o caso: Ronaldo foi parar ao Nacional, pela mão do padrinho e trocado por equipamentos novos e umas quantas bolas de futebol. «Foi o treinador António Mendonça que me veio dizer que, no Andorinha, havia um puto fabuloso. Quando o vi, disse: 'Mas este é o meu afilhado?!'» No Nacional, foi campeão. De infantis. «Era metade da equipa», conta Marques de Freitas, líder do Núcleo Leões da Madeira, sportinguista até no relógio.

Estamos numa das esplanadas do triângulo de cafés mais badalado da capital madeirense, tertúlia da boa e da má-língua, entre o café Funchal, o Apolo e a Esplanada da Sé. Nas mesas, abunda a leitura de jornais desportivos e as últimas da selecção trazem sempre à liça. Ronaldo. «Ele é o que é, porque tem a experiência do futebol de rua. Depois, o Sporting tratou-o nas palminhas. E a evolução dele, do ponto de vista humano, foi surpreendente. Se lhe der um sermão, ele ouve e respeita», garante Marques de Freitas, a braços com pedidos constantes de papás e mamãs para que leve os seus rebentos ao Sporting para observação.

«Não fazia outra coisa. Mas agora mesmo estão lá dois.» Com Cristiano não foi preciso esperar muito. Do Nacional a Alvalade, um treino bastou para que Osvaldo Silva, treinador dos leõezinhos, na altura, fosse lapidar.

«Está aqui um diamante.» No clube alvi-negro, já havia mostrado tudo o que o recomendava e não recomendava: talento, liderança e brigas frequentes com os colegas, quando as coisas não corriam como ele queria.

Olhando a esta distância, o negócio que o Sporting fez parece brincadeira: perdoou uma dívida de 22 mil e 500 euros ao Nacional pela aquisição do jogador Franco, que tinha saído de Alvalade para a Madeira e ficou com Cristiano. Na altura, porém, a coisa era arriscada: não só o dinheiro não entrava como um miúdo de 11 anos, por muito bom que parecesse, não dava garantias de sucesso. Mesmo assim, o Sporting arriscou e até rubricou um protocolo de apoio ao jogador e à família. As viagens de ida e volta foram uma constante.

A mãe e os irmãos sofriam com a ausência, ele também. Vivia no lar do clube, chorava muito e não gostava da escola. Em Alvalade, os craques da equipa principal iam ver o novo miúdo fazer habilidades, mas Cristiano não estava feliz: lidava mal com a adaptação à grande cidade, com as bocas por causa da pronúncia, com a disciplina que o clube já lhe tentava impor. Nas deslocações à Madeira, havia sempre a tentação de ficar. Até por causa das saudades. O seu percurso nas camadas jovens do Sporting deu que fazer ao clube e a Fernão Sousa, o padrinho.

O primeiro ordenado de Cristiano foram 10 contos o padrinho queria 30 mas ele não podia usá-los, porque era menor. «Um dia, a mãe deu-lhe um dinheirito e ele chegou a Lisboa e gastou tudo em chocolates. Não foi almoçar e o clube castigou-o», conta Fernão Sousa. O padrinho também se chegava à frente. No final dos habituais convívios sportinguistas, em Chão dos Louros, no Norte da ilha, os comensais lá largavam 200 ou 300 escudos a mais cada um para o catraio regressar mais animado a Lisboa.

Na capital, o professor Leonel Pontes, actual adjunto de Paulo Bento, era o tutor de Cristiano. Várias vezes foi chamado à escola, porque o rapaz tinha feito das suas. E o treinador ainda deitava água noutras fervuras dele, sempre com a revolta à flor da pele. Ronaldo, entretanto, esticava a corda: já sabia que quando fazia uma patifaria era castigado e recambiavam-no, uns tempos, para a Madeira. «Lá vinha ele. E eu a pensar: o Sporting perdoou-nos a dívida e se ele agora não volta?», recorda o padrinho que, numa situação-limite, ouviu Leonel Pontes dizer-lhe: «Fernão, olha para o que te digo: iguais ao Cristiano passaram milhares pelo Sporting.» O padrinho tomou então medidas drásticas.

E se Ronaldo fintou um destino sem futuro promissor, em parte lhe deve. «A Madeira não era o sítio ideal para um miúdo com as origens dele crescer. Os estudos não batem com o futebol, o futebol não bate com a alimentação. bem, tive de ser drástico.» Sentado num dos sofás cobertos de plástico da casa da Quinta Falcão, sentou a mãe e os irmãos à sua frente. E disse-lhes, firme, assustador: «Sabem o que é que ele vai ser se ficar por aqui? Roupeiro, bate-chapas ou pedreiro. É isso que vocês querem? Já não mataram as saudades do menino? Então, agora, deixem-no ir.» A família, a princípio renitente, acedeu.

E Ronaldo regressou a Lisboa graças a dois bilhetes oferecidos por um funcionário do Nacional. «Depois disso, só me passei uma vez. Foi quando, já com contrato profissional com o Sporting, veio à Madeira e dei com ele a participar num torneio de futebol com os amigos. Fiquei doido», conta Fernão Sousa, hoje com 52 anos, inspector das actividades económicas.

Seguiram-se outros tempos. Ronaldo afirmava-se em Alvalade, impunha respeito aos colegas e já dominava o território lisboeta. A presença constante da mãe ajudou. E ainda hoje, o craque não prescinde do apoio familiar, em Manchester. O irmão Hugo por lá anda e a irmã Cátia Aveiro que, entretanto, abraçou a carreira artística pela via do nacional-cançonetismo, com o nome Ronalda também divide a sua vida entre Manchester, Lisboa e Funchal.

Dedicado em exclusivo ao futebol desde os 13 anos, Cristiano começaria a treinar amiúde com o plantel sénior aos 15 anos. Nessa altura, a ansiedade já era grande, entre os amigos. «Lembro-me de ter perguntado ao Miguel Ribeiro Telles porque é que ele não jogava na equipa principal. Ele explicou-me que os médicos previam ainda um crescimento ósseo e poderia haver atrofiamento», conta Marques de Freitas que viria a deleitar-se com a estreia de Ronaldo, aos 17 anos, no onze do Sporting: vitória sobre o Moreirense com dois golos do miúdo. O desmaio da mãe na bancada é que não entrava no prognóstico.

Ao fim de 18 jogos, ruma a Manchester, por 17 milhões de euros, depois de arregalar os adversários e sir Alex Fergusson, na inauguração do Alvalade XXI, contra os red devils. Estava em curso a fúria de viver e um passo de gigante. Também no ordenado, diga-se: de 300 contos para 40 mil contos por mês, na primeira época em Old Trafford.

O resto da história é mais ou menos conhecido.

O rapaz que quer ter uma casa de sonho na Madeira, uma quinta no Alentejo projectada por Souto Moura e que não iria para uma ilha deserta sem uma bola, está aí para as curvas. Scolari espera, pois, que os adversários se estampem aos pés de Ronaldo. E, na nova época, o Manchester aguarda-o mais maduro e experiente. Menos irritável também, de preferência. Fernão Sousa, o padrinho, gostava de ir vê-lo, um dia destes, a Inglaterra, discretamente.

«Comprar o bilhete, assistir ao jogo e vir-me embora. Tenho o telemóvel dele, mas não costumo ligar nem gosto de chatear. É verdade que o ajudei, mas ele é que foi o maior, o mais forte. Hoje, é uma referência e um bom exemplo para a família.» A Quinta Falcão, onde Ronaldo deixou as raízes, só agora, muito depois da partida do filho pródigo, vai aparecer de cara lavada, fruto de uma intervenção camarária.

Mas, nas ruas e no tecido social onde Cristiano começou a driblar a miséria, suspeita-se que nada mudará. De futuro, já não será mau se houver quem recorde que ali começou o primeiro dia do resto da vida de uma espécie rara de futebol vadio: Ronaldo, madeirense, português.

(Artigo originalmente publicado na VISÃO 691, de 1 de junho de 2006)