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"O equívoco da nossa sociedade é a tendência a pensar que a esperança é a chave da felicidade"

Sociedade

D.R.

"Um pessimista gosta que as coisas corram bem mas ao reconhecer o muito que pode correr mal, sem nunca esperar que viesse a correr bem, acaba por sair de qualquer situação com boas razões para sorrir". Esta é só uma das provocações do mentor, filósofo e bestseller Alain de Botton que traz este fim-de-semana a Lisboa a primeira The School of Life Conference

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

“Peçam desculpa, promíscua e regularmente, por serem vocês.” Se este tweet não mexe consigo, que tal este? “Aqueles que invejamos, invejam outros. Somos menos felizes do que tememos.” Muito ativo nas redes sociais, Alain de Botton é considerado por muitos um espírito provocador. Nascido na Suíça, o fundador da marca The School of Life, projeto iniciado em 2008 e com sede em Londres, é um ateu convicto, casado e pai e mantém, já próximo dos cinquenta anos, a aparência jovem e o estilo descontraído, bem como o sentido de humor, porventura negro, próprio de um pessimista realista. O homem que quer trazer a filosofia para o quotidiano está na capital portuguesa para uma conferência de três dias (de 20 a 22 de outubro) sobre inteligência emocional, na Fundação Champalimaud. A meta da The School of Life consiste em divulgar técnicas de desenvolvimento pessoal com exercícios práticos e proporcionar aos participantes experimentarem “uma versão melhor e mais feliz deles próprios”.

Os seus livros, vídeos, palestras e cursos sobre amor, carreira, casamento, sexo, relacionamentos e emoções costumam fazer correr muita tinta nos media, geram ondas de comentários nas redes sociais e alimentam entusiasmantes debates em vários podcasts. Popular e controverso, o filósofo e escritor lamenta a falta de interesse das instituições culturais em divulgar sabedoria e educação com métodos direcionados para o que que realmente interessa aos cidadãos: “As necessidades emocionais das pessoas nunca foram tão prementes e tão pouco atendidas como agora”. Antes da conferência, Alain de Botton aceitou responder por email a algumas das perguntas da VISÃO. E deixou um desabafo, a propósito da função que a Cultura - dos museus às universidades - ainda não desempenha como podia e devia: “Ficámos entregues aos nossos equipamentos sem o apoio das instituições públicas, originalmente criadas para nos assistirem.”

O que é, e o que não é, ser emocionalmente inteligente?

Quando se diz de alguém que é esperto mas arruinou a vida pessoal, ou que herdou uma fortuna e anda inquieto e triste, ou que é influente mas não tem imaginação e é intolerante, isso representa um défice de algo que merece ser designado por inteligência emocional. Este talento manifesta-se pela sensibilidade aos estados dos outros e na capacidade de captar o que se passa abaixo da superfície: um ataque de nervos pode camuflar um pedido de ajuda, a alegria forçada disfarça a tristeza que não se consegue admitir. Ser emocionalmente inteligente é encarar as emoções com cepticismo: saber que o ódio pode mascarar o amor, que a zanga pode ser uma capa para a tristeza e que é comum cometermos equívocos acerca daquilo que precisamos e do que desejamos. Usar a inteligência emocional é enfrentar as contrariedades com resiliência, humor e um pessimismo bem gerido.

MATHIAS MARX

No século XXI, da inteligência artificial, a emocional tem impacto a que níveis?

Não é um talento inato. A forma de lidar com os medos e desejos adultos é muito influenciada pelo modo como se aprende, em criança, a interpretar o que se sente. Num mundo ideal, esta educação seria feita desde tenra idade, sem acabar por cometer demasiados erros depois. Conquistámos o planeta e domámos a natureza usando a inteligência técnica. Um futuro mais sábio e são depende da capacidade de ensinar o uso das nossas competências emocionais.

Como sabemos que temos uma vida bem sucedida? Em que é que isso se traduz?

Na capacidade de saber escolher o emprego certo para si e conseguir criar relacionamentos satisfatórios. Isso implica passar 20 anos a comportar-se por fora como um aprendiz obediente sendo, ao mesmo tempo, um rebelde inteligente por dentro. Os modelos de ensino, centrados nas capacidades intelectuais, têm pouco para oferecer a quem se esforça para obter boas notas mas que não chega a ter uma vida melhor por isso. Compreende-se porque é que um aluno brilhante pode ter um emprego fantástico mas não progride nele enquanto um outro, que chumbou nos exames, consegue gerir um grande negócio, porque foi procurar respostas para problemas que ainda não tinham uma solução.

Um clássico abordado nos vídeos que publicam no YouTube: porque mentimos?

Pessoas boas não mentem para obter benefícios, nem para se defenderem. Fazem-no por amarem profundamente a pessoa que estão a enganar. A tia idosa que se orgulha da sua receita do bolo de cenoura, mas já baralha os ingredientes ou esquece-se de coisas na confecção, gosta de saber que o bolo está óptimo. Mentir é ser leal a uma verdade maior – o amor à tia – que seria ameaçado ao expor o óbvio.

Quais os mecanismos de defesa mais comuns na sociedade hiperligada em que vivemos?

O maior problema é estarmos sempre na defensiva. Ficamos logo zangados se alguém tenta dizer-nos, calmamente, que alguma coisa não está bem no nosso comportamento. Reconhecer pontos fracos não tem de ser estranho. Estranho é pensar que não temos defeitos assinaláveis. Claro que também temos qualidades deliciosas, mas isso não quer dizer que sejamos sempre aquela pessoa que não é fácil ter por perto.

Considera-se um realista ou um romântico?

O movimento do Romantismo, iniciado na Europa no século XVIII e se converteu na tendência dominante, pressupõe que o sentimento e o instinto comandam a vida. Isto equivale a confiar na paixão, no encontro do parceiro que vai proporcionar 50 anos de felicidade íntima, a venerar o sexo como a expressão suprema do amor (convertendo o problema do adultério numa catástrofe). Os românticos odeiam as instituições e idolatram os que vão contra o sistema. O espírito romântico dispensa a análise e não é apologista da lógica, mas sim do génio e da vocação. A música é o seu meio artístico e prefere a revolução à evolução. A atitude romântica desdenha a organização, a pontualidade, a clareza, a burocracia, a indústria, o comércio e a rotina. Estas coisas são necessárias mas são ‘não românticas’, são imposições miseráveis que recaem sobre nós pelos infortúnios da existência. Eu sou um realista.

Há mais solidão hoje, apesar do acesso a tantos meios para estarmos ligados?

A solidão é a condição fundamental da humanidade, um facto negado pela cultura romântica que promete que existem algumas pessoas capazes de compreender totalmente – um conto de fadas que só nos traz incontáveis dificuldades. Um grau de solidão elevado é condição do ser humano sensível e inteligente.Todos morremos sozinhos: a nossa dor, a nós cabe suportar. É altamente improvável que encontremos alguém no mesmo comprimento de onda que nós. Quanto mais pensarmos e estivermos atentos, pior será, pois menos serão as pessoas como nós à nossa volta. A solidão aguda é um preço punitivo que se paga pela complexidade mental. Um grau de distância e uma dose de incompreensão mútua é aquilo com que devemos contar desde o começo. Confere-nos caráter, elegância e deslumbre. Desenvolvemos pontos de vista sem repetir o dos outros e tornamo-nos mais capazes de uma intimidade genuína.

Qual a via para começar a lidar melhor com os problemas de sempre, os relacionamentos humanos?

Pelo pessimismo. O pessimista é alguém que tranquilamente e com toda a argumentação possível, defende que tudo vai piorar em praticamente todas as áreas da existência. Por estranho que pareça, o pessimismo é uma das grandes fontes de serenidade e satisfação humanas. Os relacionamentos raramente são – se alguma vez o forem – um casamento bem-aventurado entre dois corações e cabeças que o Romantismo nos ensina a esperar. O sexo é invariavelmente uma área de tensão e de anseio; os esforços criativos são quase sempre dolorosos, envolvem cedências e são lentos. Qualquer emprego, por mais cativante que pareça no papel, terá pormenores bastante irritantes. Os filhos vão sempre lamentar-se dos pais, por mais bem-intencionados e generosos que os adultos procurem ser. A nossa satisfação depende, de forma crítica, das nossas expectativas. Quanto maiores , mais provável o risco de raiva, amargura, desilusão e estados persecutórios. O equívoco da nossa sociedade é a tendência a pensar que ter esperança é a chave da felicidade. Um pessimista gosta que as coisas corram bem mas ao reconhecer o muito que pode correr mal, sem nunca esperar que viesse a correr bem, acaba por sair de qualquer situação com boas razões para sorrir.