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A sedução segundo Christian Dior

Sociedade

AFP / GettyImages

Projetava vestidos de noite com o rigor que os arquitetos colocam na construção de catedrais. Eles porque imaginam a morada da aspiração ao Divino. Ele porque construía a morada de outra demanda não menos sagrada, a da beleza e do amor. A sua marca celebra 70 anos

Maria João Martins

Em 1947, um desconhecido tomava de assalto a moda mundial e produzia a maior revolução que o setor conheceu nos anos do pós-guerra. Chamava-se Christian Dior e, apesar de ter morrido aos 52 anos, deixou um legado de elegância e rigor perpetuado na griffe de luxo que mantém o seu nome.
Imagine o leitor que esta revista é uma cápsula do tempo que lhe permite estar em Paris na gélida manhã de 12 de fevereiro de 1947. A Europa é ainda um corpo a cicatrizar, dependente da boa vontade dos aliados norte-americanos e de senhas de racionamento para pão, carne, meias, uniformes para a escola das crianças e outros acessórios do mais rudimentar conforto. Um desconhecido no mundo da moda parisiense apresenta a sua primeira coleção, mas a sala, na Avenue Montaigne, 30, está cheia já que, antigo galerista de arte, Monsieur Christian Dior aos 42 anos sabe gerir uma considerável rede de contactos. Apesar da ausência dos grandes compradores norte-americanos (os únicos que realmente têm capital disponível na época), pouco interessados em investir numa marca que desconhecem, os jornalistas, sedentos de uma novidade sumarenta, respondem à chamada. Não darão o tempo por perdido ou sequer por desinteressante.

Num só desfile, esse homem de meia idade, discreto como um figurante de um quadro de Magritte, pulverizaria a silhueta austera das mulheres da Segunda Guerra Mundial, marcada pelas saias estreitas combinadas com casacos e blusas de corte quase militar. Surgia agora a mulher flor, toda ela curvas e ondas: cintura fina, o peito realçado pela amplitude das saias que usavam uma quantidade inédita de tecido, a que rapidamente chamaram “diorama” por comparação com os brinquedos óticos em que o movimento sugere toda uma série de ilusões. O que nesses anos de ruína económica poderia ter sido tomado como uma futilidade petulante, tornar-se-ia rapidamente uma promessa de melhores dias, cheios de luz e namoro.

Ah, a “art de vivre”...

Encantada com a novidade, a omnipotente diretora da Harper’s Bazaar americana, Carmel Snow, lamentou os seus compatriotas que tinham gasto todo o plafond para compras em valores seguros: Fath, Balenciaga, Rochas, Balmain. Convicta da importância da novidade, ter-se-á dirigido ao criador estreante e declarado: “It’s quite a revolution, caro Christian. Os seus vestidos têm todo um new look. São maravilhosos, sabia?” Snow estava cheia de razão. Em pouco tempo, os Estados Unidos converter-se-iam no principal mercado da Dior, com cerca de 60% do volume total de vendas nos primeiros anos da década de 50. Para tal resultado muito contribuíram algumas das mais cintilantes “estrelas” de Hollywood, como Marlene Dietrich, Lauren Bacall, Grace Kelly ou Ava Gardner que recorreram aos serviços do Monsieur dentro e fora do plateau. Na Europa e na Ásia, o exemplo das divas do cinema foi seguido também pelas mais glamorosas figuras da realeza, cujas vidas eram acompanhadas, através das revistas mais populares, pelas cidadãs comuns: entre elas, a jovem Princesa Margarida de Inglaterra, Begum Aga Khan (francesa de nascimento) ou a Imperatriz Soraia da Pérsia.

Tão fulgurante sucesso não pode ser explicado apenas pela beleza e requinte das coleções apresentadas. Na monumental obra Dior – 60 years of Style, editada há precisamente uma década pela Thames & Hudson, o historiador de moda Farid Chenoune escreveu: “O New Look é frequentemente visto como uma máquina do tempo. Enquanto revisitava, através das lentes da nostalgia, as glórias tradicionais da art de vivre francesa, Dior também contribuiu para restaurar os rituais da sociedade parisiense.”

O próprio costureiro estava bem consciente de que essa era, em boa parte, a sua missão. Anos mais tarde, já no final da vida, recordaria: “Estávamos no ano da graça de 1947, gradualmente os pobres esplendores do mercado negro deram lugar aos esplendores mais elegantes da vida em sociedade. 
O nascimento da Maison Christian Dior beneficiou desta onda de optimismo, combinada com a nostalgia de um contentamento civilizado.”

Como um choque elétrico

Mas quem era este homem que, com tanta intuição, soube interpretar os desejos provavelmente inconfessados de uma época e de uma sociedade em busca de um golpe de asa? Nascido a 21 de janeiro de 1905 na estância balnear de Granville, na costa da Normandia, no seio de uma família de industriais bem sucedidos, tinha na mãe uma referência absoluta de bom gosto e elegância, que homenagearia com o vestido Madeleine. Não se pense, porém, que por causa dela se pôs a sonhar, ainda menino, com tecidos sumptuosos à espera de uma tesoura audaciosa. A primeira paixão intelectual de Christian Dior foram as Belas-Artes, mas, em matéria artística, os pais só condescenderiam com o estudo da música. Ainda assim, embora não desobedecendo ao diktat familiar, abriu uma galeria de arte, em 1922, na Rue de La Boétie, em Paris. Associado ao amigo Jacques Bonjean, fez amizade com, entre outros, Max Jacob, Jean Cocteau, Salvador Dali, Giacometti ou Emilio Terry. 
O espírito de vanguarda desenvolvido em tal convivência jamais o abandonaria, mesmo quando os desgostos familiares e as consequências da Grande Depressão o obrigaram a encerrar as portas da galeria e a mudar de vida.

A partir de 1937 vê-lo-emos a trabalhar para o costureiro Robert Pignet, a que se seguiram outros grandes nomes como Pierre Balmain e Lucien Lelong. Em 1946, Marcel Boussac, provavelmente o investidor mais rico da França do seu tempo, convidou Dior a desenhar uma coleção para a Philippe & Gaston, uma empresa de algum prestígio criada em 1929. Mas Boussac não vacilou: era na arte de Dior que queria investir. Tornou-se o principal investidor da nova maison de couture. Foi porventura a melhor opção de negócios que poderia ter feito. Perfeitamente conhecedor da sua arte, Dior era perentório ao declarar que “os vestidos devem ter uma alma”. Na obra que consagrou a este génio da Alta Costura (Dior, 1987), a jornalista e escritora Françoise Giroud escreve: “Dior amava os seus vestidos como se amam pessoas, eram as suas criaturas até ao dia em que saíam da Maison e não lhe restava senão recomeçar.”

Como Worth muito antes dele (e, ao contrário de Chanel, que se considerava uma artesã), o costureiro tinha do seu trabalho uma conceção artística, dizendo a quem o quisesse ouvir que a inspiração produzia uma espécie de choque elétrico no seu corpo.

Como é habitual no métier, Dior não era gentil com os seus rivais. Detestava a extravagância de Schiaparelli e aos ataques de Chanel (que ele admirava) contrapunha: “Faz roupa para mulheres elegantes e eu para mulheres bonitas.” 
O efeito publicitário desta frase é somente comparável ao desencadeado por Marilyn quando anunciou urbi et orbi que só usava duas gotas de Chanel nº 5 para dormir. Discreto na apresentação de si próprio, tinha, todavia, uma conceção teatral do mundo da moda, absolutamente precursora do que, décadas mais tarde, viria a acontecer nesta indústria. A momentos visualmente muito fortes seguiam-se outros mais simples que descansavam o olhar do espectador, preparando-o para outro mais espetacular, até ao encerramento com chave de ouro.

Os herdeiros do trono

Christian Dior morreu subitamente em circunstâncias que, ao longo dos anos, têm desencadeado muita especulação (fala-se com insistência de um ataque cardíaco na sequência de uma maratona sexual com um amante de ocasião), a 24 de outubro de 1957. Tinha 52 anos e estava de férias em Itália. Numa única década transformara a Maison Dior num império mundial, que, para além de roupa, comercializava acessórios e perfumes. A brutalidade inesperada da sua morte deverá ter causado o pânico entre administradores, clientes e fornecedores da Maison Dior, mas a verdade é que o testemunho acabou por ser colocado nas mãos de um jovem cheio de talento, Yves Saint Laurent, que, aos 17 anos, começara a aprender a sua arte com o próprio Dior. Seguiram-se Marc Bohan, Gianfranco Ferré, John Galliano, Raf Simmons e, desde 2016, Maria Grazia Chiuri. Mau grado todas as diferenças de estilo e de conceito, todos eles respeitaram as exigências de rigor e feminilidade que o fundador estabeleceu nos anos do pós-guerra, numa sociedade e num mercado em tudo tão diverso do nosso. Ao longo das últimas décadas, não foram poucas as celebridades que deram a cara e o nome à marca, desde Johnny Depp à Princesa Diana (que não dispensava o uso da mala em couro de cordeiro, pespontada a ponto cannage), passando por Marion Cottilard, Charlize Teron ou, mais remotamente, Sophia Loren e Marlene Dietrich. No reino do efémero por excelência que é a moda só o muito bom, só o que vê mais longe do que a viabilidade imediata do negócio, resiste à erosão do tempo e se torna um clássico. E Dior, podemos dizê-lo em 2017, continua a ser o mais duradouro e clássico entre os clássicos.