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Pode uma fotografia mudar o rumo dos acontecimentos?

Sociedade

Mohammad Ponir Hossain

A imagem de uma mulher refugiada Rohingya a chorar o seu filho morto está a chamar a atenção do resto do mundo para a crise humanitária vivida na Birmânia. Resta saber se o mundo ainda reage como já reagiu noutras ocasiões dramáticas como esta

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Mohammad Ponir Hossain fotografava a chegada de um grupo de refugiados Rohingya à praia de Shah Porir Dwip, uma aldeia no sul do Bangladesh, quando ouviu um condutor de riquexó gritar que acabara de se virar um barco. “Corri para o local e encontrei pessoas a chorarem junto ao corpo de um bebé”, recorda o fotojornalista da Reuters.

Hamida, o seu marido, Nasir Ahmed, e os dois filhos pequenos tinham-se juntado a mais uma dúzia de refugiados muçulmanos birmaneses e atravessado a Baía de Bengala num pequeno barco de pesca. Cinco horas depois, naufragavam à vista da praia, e Abdul Masood, com apenas 40 dias, morria afogado.

Nas últimas três semanas, chegaram ao Bangladesh cerca de 400 mil membros da etnia Rohingya. Desde que se começou a assistir à escalada da violência na Birmânia, uma violência que vários oficiais seniores das Nações Unidas já descreveram como um “exemplo dos manuais da limpeza étnica”, têm sido milhares as famílias como as de Hamida a procurarem refúgio no Bangladesh. Mas foi preciso um fotojornalista captar a dor desta mãe para muito boa gente dar por isso.

Nilufer Demir

Não é a primeira vez que o mundo reage depois de ficar perturbado com uma fotografia. A mais recente foi há dois anos, quando o fotojornalista Nilüfer Demir fotografou um menino de três anos que parecia ter adormecido no areal do resort turco de Bodrum. O menino chamava-se Aylan Kurdi e morrera ao tentar chegar, com a sua família, à ilha grega de Kos. Não tinha sequer idade para saber atar os atacadores dos ténis que ainda levava calçados.

Tínhamos passado o verão inteiro a escrever sobre a morte de refugiados sírios ao tentarem chegar à Europa. As imagens do “pequeno Aylan”, como ficou conhecido, geraram uma onda de solidariedade, peditórios e petições, e alguns governos reagiram, finalmente.

Em 1993, a fotografia de uma menina subnutrida no Sudão, prostrada a poucos metros de um abutre, causaria grande comoção. A imagem era macabra e o fotojornalista, o sul-africano Kevin Carter, seria criticado por não ter ajudado a criança. Embora todos os profissionais tivessem recebido ordens expressas para não tocarem nas vítimas da fome, para não correrem o risco de espalhar doenças, Carter não aguentaria as críticas, suicidando-se meses depois.

Seis anos antes, em junho de 1989, a imagem de um manifestante solitário a fazer frente a um tanque, na praça de Tiananmen, seria rapidamente banida pelo governo chinês mas faria as primeiras páginas dos jornais no resto do mundo. Uma única fotografia e o americano Jeff Widener contava uma história de coragem.

Em 1972, seria também uma única fotografia a imortalizar um fotojornalista – o vietnamita Nick Ut – mas, sobretudo, a resumir o horror de uma guerra. A imagem a preto e branco de Kim Phúc, de 9 anos, a fugir de uma explosão de napalm iria influenciar a opinião pública americana. Seis meses depois, a guerra terminaria.

Muitos anos antes, em 1933, seriam duas mulheres a simbolizar um drama humano. Aos 32 anos, Florence Owens Thompson vira o marido morrer com tuberculose e tinha sete filhos para alimentar. Vendeu os pneus do carros para conseguir comida e ensinou os miúdos a apanharem passarinhos para comer. Depois de Dorothea Lange a ter fotografado com dois dos seus dois filhos, o governo americano enviou toneladas de comida para os trabalhadores que tinham migrado para a Califórnia e sofriam os horrores da Grande Depressão.