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Carta aos jornalistas

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Mihajlo Maricic / GettyImages

Um professor inspirou-se na carta aos professores assinada pela diretora da VISÃO na edição passada, para escrever uma missiva aos jornalistas. Ora leia

Luís Miguel Freitas

Luis Miguel Freitas, professor e "ávido leitor da VISÃO", leu atentamente a carta da Diretora da revista VISÃO dirigida à classe, e inspirou-se para escrever uma carta aos jornalistas. Um bem conseguido "plágio" intencional que nos orgulhamos de publicar, assinando por baixo.

Caros Jornalistas

Não se importam que vos trate por amigos, certo? É que não vejo melhor palavra. Com duas filhas e muitos amigos a viver neste país, sinto que são, também e além dos professores, uma espécie de companheiros de viagem. Escrevo-vos porque falar destes assuntos a ler as publicações e a ver as notícias dos jornais televisivos é complicado – vocês sabem, é mais ou menos como interromper alguém que vê um filme e perguntar “então mas esta não tinha morrido na temporada anterior?”. Isto dá muitos cidadãos angustiados e impacientes e muitos discursos idiotas sobre assuntos que não interessam nada.

E há tanto para falarmos, caros jornalistas, no arranque de mais um ano de trabalho em que a silly season “parece?” que ficou de novo para trás até julho do próximo ano. O regresso ao trabalho e às coisas sérias, este marco definitivo nas rotinas de tantas famílias portuguesas como a minha. Espero encontrar-vos bem, carregados de energia para mais uma espécie de missão impossível – tenho a noção que é quase isso que se pede aos jornalistas nos dias de hoje. Bem sei que muitos esperam que vocês façam todo o trabalho por eles: que informem, analisem, digiram e dêem a papinha feita em notícias, documentários e programas de comentário político e, sim, que também eduquem, que sejam exemplos, que inspirem, que mantenham a serenidade em toda e qualquer situação, e que ainda por cima se contentem felizes com pouco como recompensa. Não é fácil corresponder a tanta expectativa, eu sei. Mas alguns, poucos de vós, dão o vosso melhor e quase que chegam lá. Tiro-vos, honestamente, o chapéu.

Num ponto todos concordam – os jornalistas moldam nossas vidas e são eles o coração da democracia, na medida em que são a primeira linha da sua defesa. Um bom jornalista é guardado por um país, para a vida. Em muitas ocasiões, para sempre. Mas não se deixem vergar pelo peso da responsabilidade. Não cedam aos interesses económicos, defendam a verdade acima de tudo, tentem não perder a chama e a paixão de quem sabe que fazer serviço encomendado de propaganda e criação de factos alternativos não é aceitável. Mantenham aquela boa dose de decência. Aquilo a que se chama bom senso. Não repitam até à náusea a mesma frase sórdida nas reportagens e nos diretos. “esfaqueado 20 vezes, esfaqueado 20 vezes, esfaqueado vinte vezes” vezes vinte. Usem e abusem da sensibilidade e do respeito. Não façam diretos ao pé de cadáveres no enquadramento da imagem. Não perguntem, às pessoas, o óbvio dez vezes, porque se era óbvio no início continua a ser óbvio ao fim de dez vezes. Gustave Flaubert dizia que considerava como uma das felicidades da sua vida não escrever nos jornais; fazia mal ao seu bolso, mas bem à sua consciência. Provem que ele estava, pelo menos, um bocadinho errado! E, claro, não se deixem formatar. Os melhores jornalistas que temos são os que fogem do padrão.

Cada cidadão é um cidadão, não há fórmulas rígidas e infalíveis Não há os rurais e os urbanos, os do norte e os do sul. Se tivesse de vos pedir uma só coisa, seria que se dedicassem a salvaguardar o direito que todos eles têm de conhecer a verdade e ser informados com isenção. Façam-nos brilhar os olhos. Não nos façam sono. Não sejam o João pestana do sofá lá de casa antes de irmos dormir e levarmos os pesadelos que nos trazem repetidos vinte vezes. Oiçam-nos! Nós somos mesmo seres incríveis. Acreditem, não será tempo perdido. Se não o fizerem nunca mais nos vão agarrar.

Preocupem-se mais em estimular a curiosidade do que em debitar factos. Aqui que ninguém me ouve, quem me dera que pudessem esquecer a rigidez das redações e algumas das coisas que vos obrigam a fazer hoje em dia. Expliquem-nos porque é que alguns assuntos importam, e vamos querer conhecê-los melhor. Dizer meias verdades e mentir em pleno século XXI, é absolutamente anacrónico. Os factos desgarrados são dados adquiridos: estão aí à distância de uma pesquisa no Google. Mais do que dizer o que aconteceu, expliquem-nos porque aconteceu assim. Façam-nos pensar, despertem-nos a curiosidade, incentivem-nos a partir à aventura de viver em democracia. Informar é, também, a arte da assistência à descoberta.

Valorizem outras coisas que não o mal – venho a crer que importa afinal tão pouco na vida. Mais do que seres cheios de informação inútil cuja validade é de aproximadamente 60 segundos, ajudem a formar boas pessoas e adultos interessantes. Ensinem-lhes os valores da partilha, generosidade e vivência em sociedade. Quem comete o horror jamais deveria ter lugar numa abertura de jornal.

E, por favor, não nos menorizem – dêem-nos a máxima liberdade acompanhada de máxima responsabilidade. Todos temos, desde cedo, que perceber que a nossa vida implica trabalho, honradez e honestidade. Não valorizem o contrário.. Imponham-se, a vós próprios, regras ditadas por uma profunda consciência profissional. E, já agora, expliquem porque o fazem aos nossos políticos, que cada vez mais nos tratam como material de refugo e nos brindam com a sua crónica ausência.

Peço-vos, é verdade, uma combinação de talentos e competências que parece quase de alquimia. Mas isto não é mística: é bem possível e há quem o faça todos os dias por essas redacções do País. Bem-hajam.

  • Carta aos professores

    Editorial

    Façam-nos pensar, despertem-lhes a curiosidade, incentivem-nos a partir à aventura. Ensinar é a arte da assistência à descoberta