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Cada vez menos gente gosta de dinheiro

Sociedade

Tim Wimborne / Reuters

Apenas 1% do dinheiro transacionado na Suécia é feito com recurso a notas e moedas. Em Portugal, os pagamentos eletrónicos têm aumentado sucessivamente. Estará o dinheiro físico a desaparecer?

"Vi hanterar ej kontanter" - Não aceitamos dinheiro vivo. São cada vez mais os estabelecimentos comerciais suecos , de papelarias e restaurantes a lojas de roupa e pastelarias, que ostentam estes avisos na porta. Aquele que foi o primeiro país da Europa a imprimir notas (em 1661) está na linha para ser também o primeiro a ver-se livre delas. Atualmente, 4 em cada 5 transações comerciais são efetuadas de forma eletrónica. No comércio a retalho, esse número sobe para 95 por cento. Na realidade, apenas 1% de todo o dinheiro (em valor total) que passa de mãos no mais populoso país escandinavo envolve dinheiro físico. A mudança de paradigma é tal que já está implantado na mentalidade sueca que, se alguém tem de pagar com dinheiro, é porque alguma coisa está errada. Que há alguma ilegalidade a montante.

A explicação para esta tendência deve-se a um conjunto de fatores: a Suécia tem níveis muito baixos de corrupção e altas taxas de penetração de novas tecnologias; além disso, os suecos confiam, por sistema, nas suas instituições, nomeadamente as bancárias.

Um dos mais conhecidos proponentes desta evolução é Björn Ulvaeus, um dos membros dos Abba (e, ironicamente, o autor da canção Money, Money, Money). O músico tornou-se antinotas há vários anos, depois de o filho ter sido assaltado em casa. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, garante que a única coisa de que sente falta no dia a dia é de "uma moeda para o carrinho de supermercado". O museu dos Abba (inaugurado há quatro anos), aliás, nunca aceitou pagamentos em dinheiro. Os autocarros também já deixaram de aceitar notas e moedas há anos - resposta a uma revindicação antiga dos trabalhadores da rede, que evocavam o perigo de assalto.

Portugal ainda está longe desta realidade. Mas já esteve mais. Num inquérito realizado pela empresa de cartões de crédito Visa, 64% das pessoas dizia usar cartões para fazer compras (o que, ainda assim, não significa que 64% das transações sejam eletrónicas). Por seu lado, o Banco de Portugal (BP), no seu relatório dos Sistemas de Pagamento de 2016, regista um crescimento de 9% de pagamentos com cartões de débito, em relação ao ano anterior. E embora esse aumento tenha acompanhado a evolução do consumo privado, o BP sublinha que "é possível identificar, nos últimos cinco anos, uma tendência de substituição dos levantamentos por compras realizadas através da rede Multibanco".

Não se pense que o desaparecimento gradual do dinheiro físico é solução para os roubos. Onde há dinheiro (seja ele tangível ou não), há roubo. Só muda o método: na Suécia, nos últimos dez anos, o número de casos de fraude eletrónica mais que duplicou.