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Aprender português está cada vez mais na moda

Sociedade

José Caria

São estrangeiros e querem aprender a falar a nossa língua. Seja para comunicar melhor com os familiares, por razões profissionais ou apenas pelo interesse em estudar. E são cada vez mais

Bica. Foi esta a palavra que a norte-
-americana Angela escreveu no quadro verde quando lhe perguntámos o seu vocábulo preferido ou expressão em português. Entre risos, ainda hesitou, já que tartaruga também lhe soava bem. Mas não, foi bica que redigiu, na vertical. Depois, aproveitou cada uma das letras para acrescentar um significado: “Bebe Isso Com Açúcar”. Gargalhada geral.

WATARU - JAPÃO - Com 23 anos, quis aprender a língua para poder falar com os brasileiros da sua cidade, onde vivem cerca de quatro mil emigrantes daquele país. “Passo a passo” é a sua expressão preferida, 
até ao momento
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WATARU - JAPÃO - Com 23 anos, quis aprender a língua para poder falar com os brasileiros da sua cidade, onde vivem cerca de quatro mil emigrantes daquele país. “Passo a passo” é a sua expressão preferida, 
até ao momento

José Caria

Juan Pablo - MÉXICO - Aos 20 anos, está prestes a entrar para a universidade. Sempre bem-disposto, desafiou-se a si próprio para aprender a nossa língua
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Juan Pablo - MÉXICO - Aos 20 anos, está prestes a entrar para a universidade. Sempre bem-disposto, desafiou-se a si próprio para aprender a nossa língua

José Caria

Rohaf Alosh - SÍRIA - Chegou a Portugal há oito meses, com a mãe. Fugiram de Aleppo 
e da guerra que devastou a cidade. 
Tem 20 anos e muitas saudades 
do irmão e do pai, que ficaram lá
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Rohaf Alosh - SÍRIA - Chegou a Portugal há oito meses, com a mãe. Fugiram de Aleppo 
e da guerra que devastou a cidade. 
Tem 20 anos e muitas saudades 
do irmão e do pai, que ficaram lá

José Caria

Angela - ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA - A necessidade aguça o engenho. Comunicar com a nora, brasileira, foi o ponto de partida para estudar em Lisboa. Já esteve no Porto, mas acha que “tem muitos turistas”...
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Angela - ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA - A necessidade aguça o engenho. Comunicar com a nora, brasileira, foi o ponto de partida para estudar em Lisboa. Já esteve no Porto, mas acha que “tem muitos turistas”...

José Caria

Gaspar - SUÍÇA - Não é a primeira vez que está em Lisboa e ter família portuguesa aproxima-o do País. Com 20 anos, saber umas palavras soltas já não lhe chega, quer falar corretamente
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Gaspar - SUÍÇA - Não é a primeira vez que está em Lisboa e ter família portuguesa aproxima-o do País. Com 20 anos, saber umas palavras soltas já não lhe chega, quer falar corretamente

José Caria

Angela é de Pittsburg, Califórnia, mas está muito longe de casa, na sala da CIAL – Centro de Línguas, junto ao Mercado 31 de Janeiro, no alfacinha Saldanha. Na última das quatro semanas do curso de português (o nome correto é Português Língua Estrangeira – PLE), quer comunicar melhor com a nora, que é brasileira. A preparação da visita que vai fazer ao filho, no Brasil, incluiu, assim, a aprendizagem de uma língua que não conhecia.

Na mesma sala estão sete alunos de outras nacionalidades. Os manuais e os TPCs estão em cima da mesa, assim como alguns dicionários. A tímida Megumi, japonesa, é uma das que mais consulta os livros. Ana Dias, a professora, vai seguindo a ordem do exercício desse dia. Os alunos fazem perguntas uns aos outros segundo uma temática ou expressão indicada no livro. “Angela, tens ou já tiveste algum animal doméstico?” A americana responde que tem um cão e um gato, mas que ao longo da vida teve cinco “cãos”. Ana dias corrige para “cães” e ela repete a expressão. A seguir, o luso-suíço Gaspar responde que tem “dois gatos e alguns pássaros”. Procura a palavra da espécie e, com a ajuda da professora, abre muito os olhos e diz “isso, canários!”. Gaspar tem primos portugueses e quer aprender português para falar com eles.

“O Principezinho” multilingue

Cada um destes alunos tem o seu próprio interesse na nossa língua. Em 2016, a CIAL recebeu 1 200 alunos de 60 nacionalidades diferentes. “Cerca de 80% vêm da Europa, com destaque para a Alemanha”, onde há a tradição de aliar as férias a um curso de línguas, conta Alexandra Sousa, diretora desta escola, com 50 anos de vida, que o seu pai e mais um sócio fundaram.
São colocados em turmas de acordo com o que já sabem, desde o nível elementar, o A1, até ao C2, o mais alto, e os cursos podem durar até 36 semanas. Todos os alunos recebem um certificado de frequência ou de aproveitamento, caso terminem os níveis.

O mesmo se passa na Royal School of Languages, em Aveiro. A CIAL e a Royal School são as únicas com estatuto de Escola Associada do Instituto Camões, organismo responsável pelo ensino de português no mundo. 
A escola de Aveiro, com 30 anos, tem mais sete estabelecimentos no País e recebeu cerca de 50 alunos estrangeiros no ano passado. “Vêm por razões profissionais ou afetivas, quando se apaixonam por um português ou portuguesa”, diz Rosa do Céu Amorim, diretora pedagógica. E aqui também chegam dos quatro cantos do mundo: chineses, americanos, alemães, árabes, espanhóis ou italianos.

Voltemos a Lisboa. Na CIAL não há apenas turmas, também aulas individuais adaptadas ao perfil dos candidatos. Por lá já passaram executivos, membros de organizações de cooperação, ou militares e diplomatas estrangeiros que são colocados nos países africanos de língua portuguesa ou no Brasil. “Há pouco tempo tivemos connosco, no Algarve [na filial de Faro], o embaixador da Suíça em Moçambique, durante quatro semanas”, diz a diretora.

Assim como outros alunos, também este embaixador ficou em instalações próprias da escola. Em Lisboa têm duas casas para alojamento ou a opção de ficar com uma família portuguesa, numa residência de estudantes ou num hostel. Além das aulas, são propostos passeios por Lisboa, jantares em restaurantes típicos ou aulas de surf.

O mexicano Juan Pablo é um dos “surfistas” da turma, talvez por isso tenha escrito “fato de banho” como palavra preferida. Sara, uma das francesas, também tem andado na crista da onda. Esta funcionária do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês anda a aprender a língua de Camões para poder falar com brasileiros e africanos. Ao seu lado tem a edição portuguesa de O Principezinho, o livro que compra sempre que aprende uma nova língua. Em casa, tem a tradução para zulu.

Wataru ainda não conseguiu ler nenhum livro em português. Mas quer chegar ao Japão a saber alguma coisa para falar com os brasileiros que acompanha no centro de ação social onde trabalha. O facto de estar no País, “imersa” na língua, permitirá grandes evoluções, em poucas semanas. Rosa do Céu, da Royal School, recorda o aluno árabe que chegou a Aveiro para fazer um doutoramento, sem saber uma palavra de português. “Esteve connosco quatro meses. Ao fim desse tempo falava e escrevia perfeitamente.”

De Aleppo, com saudade

“Quem já tomou banho na praia à noite?”, pergunta a professora Ana Dias. Todos dizem já o ter feito e Rohaf Alosh, refugiada em Portugal através da Plataforma de Assistência a Estudantes Sírios, fundada por Jorge Sampaio, surpreende todos quando diz que só mergulha mesmo à noite. “Não gosto de sol. Só vou à praia à noite, à Arrábida e em Oeiras, onde moro.” Chegou há oito meses, com a mãe. O pai e a irmã ainda estão em Aleppo, e ela tem “saudades” deles, como escreveu no quadro da sala de aula. Está a gostar de Lisboa e estuda para vir a fazer análises clínicas.

É hora do intervalo e os estrangeiros da sala quatro misturam-se nos corredores com outros alunos. Há uma profusão de nacionalidades. Bebem café e comem qualquer coisa enquanto conversam no terraço. Cynthia surge com uma maçã meio trincada na mão. A timidez inicial da colombiana leva-a a propor outra língua para falarmos. Dizemos que sim: inglês ou espanhol? “Não, vou mesmo falar em português.” Está a aproveitar as férias de verão na Universidade de Bogotá – no curso de línguas – 
e, como já sabe alguma coisa, foi incluída numa turma de nível B1 (o terceiro de seis). Quer ser tradutora de inglês e de português.

“O português é a segunda língua estrangeira na Colômbia, a seguir ao inglês. O mercado brasileiro está logo ali ao lado”, lembra Alexandra Sousa. Nos últimos quatro anos, diz a diretora, “tem crescido” o número de alunos desta nacionalidade. No ano passado recebeu doze. Já em Aveiro, são os venezuelanos que têm crescido em número. “Alguns porque querem vir para cá e outros porque são filhos de emigrantes lusos, mas não aprenderam português com os pais”, conta Rosa do Céu. Em média, segundo o centro de certificação de competências da Faculdade de Letras de Lisboa, há já cerca de cinco mil alunos estrangeiros a estudar a nossa língua em Portugal, todos os anos. Mais do que “razoável”, para usar 
a palavra preferida da francesa Sara.

(Artigo publicado na VISÃO 1273, de 27 de julho)