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Alimentação de peixes de viveiro dá vida a bactérias resistentes a antibióticos

Sociedade

Fabrizio Bensch

Cientistas chineses alegam que, pela primeira vez, fica provado que a farinha de peixe usada na aquicultura “é um grande reservatório de genes resistentes a antibióticos”, com potencial para gerar bactérias infecciosas que se tornam imunes a tratamentos de último recurso

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

A farinha de peixe usada para alimentar peixes de viveiro induz a propagação de genes resistentes a antibióticos, descobriu uma equipa de investigadores chineses. Os cientistas encontraram 132 tipos desses genes ao analisar cinco produtos no mercado e confirmaram uma grande abundância e diversidade dos mesmos no fundo do mar, em zonas de aquicultura, estabelecendo essa relação direta pela primeira vez.

Os sedimentos que aí se acumulam, dizem, são “terreno fértil” para esses genes e modificam as características da comunidade bacteriana, como foi possível confirmar em laboratório, uma vez que as bactérias assimilam o traço de resistência que está a deixar em alerta a comunidade científica, a Organização Mundial de Saúde e alguns governos.

Em setembro do ano passado, o problema esteve na ordem de trabalhos da Assembleia-Geral das Nações Unidas, que ao longo da sua história raramente discutiu questões de saúde. Por essa altura foi também tema de capa da VISÃO: as bactérias multirresistentes são hoje responsáveis por 700 mil mortes por ano, em todo o mundo, e um estudo recente encomendado pelo governo britânico indica que, em 2050, esse número atingirá os 10 milhões, mais do que o cancro.

O que a investigação chinesa veio agora evidenciar, num artigo publicado no jornal científico Environmental Science and Technology, é que o alimento dos peixes de viveiro é um potencial impulsionador da resistência bacteriana a antibióticos. A equipa de cientistas sugere que se realizem estudos para perceber até que ponto a aquicultura pode estar a contribuir para a disseminação destas superbactérias na cadeia alimentar e num contexto global, para depois se tomarem medidas, se for caso disso. Os testes realizados indicam que muitas bactérias desenvolvidas nestes ambientes têm forte probabilidade de se tornarem patogénicas para os humanos, podendo, por isso, causar-lhes doenças infecciosas. Boa parte delas, se não é tratável com determinado antibiótico, pode responder a outro. O que se torna grave é se uma bactéria das mais perigosas adquire esse traço de multirresistência que nem os chamados antibióticos de último recurso são capazes de combater.