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Como se sobrevive a um AVC

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Um AVC, aos 34 anos, mudou-lhe a vida. Agora, Diana Wong Ramos quer ajudar os outros a viver melhor com as sequelas de um acidente vascular cerebral

Sara Sá

Sara Sá

Em Barcelona

Jornalista

Sentada na mesa de um restaurante em Barcelona, Diana Wong Ramos, 40 anos, leva a mão à ponta do nariz. Houve um tempo em que este gesto banal lhe era mais difícil do que subir o Evereste e a ex-jornalista tem isto bem presente. Também se recorda de não conseguir engolir bem a comida, de precisar de ajuda para ir à casa-de-banho ou para poder sentar-se na cama. Quando conta a sua história, Diana prefere reforçar tudo o que recuperou, seis anos depois do AVC que sofreu com apenas 34 anos, em vez de se lamentar pelo seu lado esquerdo praticamente paralisado.

Foi esta visão otimista da vida que trouxe a uma sessão promovida pela farmacêutica Amgen, por ocasião do congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, que acontece esta semana na cidade catalã. O otimismo também é a base da associação Portugal AVC, que ajudou a fundar há cerca de um ano.

Enquanto recuperava do AVC, Diana procurou nas redes sociais grupos de doentes que pudessem dar-lhe pistas sobre como lidar com o novo corpo. Percebeu que em Portugal havia muito pouca coisa orientada para os sobreviventes. “Fala-se na prevenção. E depois de acontecer, como se lida com as sequelas?”

As dúvidas podem parecer muito prosaicas ou até fúteis. Mas só quem nunca se viu preso a uma cadeira de rodas, com metade do corpo paralisado, é que pode pensar que ser capaz de apertar um sutiã, cortar as unhas ou fazer um rabo de cavalo são pormenores. Também procurou respostas a questões mais íntimas, como a forma de voltar a ter uma vida sexual ativa. “Ninguém nos sabe orientar nesta área”, lamenta. Na associação, Diana e os restantes associados disponibilizam-se, sobretudo, a ouvir. “Não nos vamos substituir aos médicos, obviamente. A nossa intenção é partilhar experiências e transmitir uma atitude positiva”, sublinha.

Também foram poucos os que souberam orientá-la quando dois anos depois do AVC descobriu que estava grávida. Os amigos ficaram incrédulos, os médicos aconselharam a abortar. Fora de questão. “Se eu engravidei, é porque este bebé tinha de nascer”, diz, como se precisasse de justificar a sua decisão de seguir com a gravidez, apesar das limitações físicas, apesar do risco para a sua própria vida.

Depois de uma gravidez muito vigiada, Maria nasceu forte e saudável. E tornou-se uma sombra da mãe. Como Diana estava sem trabalhar, a bebé ficou em casa com a mãe. “Só para lhe dar banho é que precisava de ajuda.” Terceiro filho, foi-se tornando numa criança desenrascada e muito mimada pelos irmãos mais velhos. As preocupações só começaram a aparecer quando na altura de andar, Maria continuava a arrastar-se. Ninguém percebia o que se passava com a menina. Até que aos 21 meses, Maria se pôs de pé e andou. Arrastando a perna esquerda. Como a mãe.