Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Um périplo pelos restaurantes de má fama (e como nos podemos proteger)

Sociedade

Mário João

Fomos espreitar os espaços da Grande Lisboa com piores classificações nas plataformas da especialidade, onde as reclamações do serviço, comida e preços são uma constante. E fizemos uma espécie de guia em 10 pontos sobre como podem os clientes proteger-se

O normal é que se procure no Zomato ou no Tripadvisor os restaurantes com pontuações mais próximas do cinco. Nós fizemos o contrário – e dá muito mais trabalho. Os comentários publicados nestes sites de reservas de restaurantes têm um lado perverso, pois existe um escrutínio que pode não ser o mais justo. Mas desabafos pormenorizados de clientes descontentes com o atendimento, a comida ou os preços não faltam e todos juntos fazem a diferença na hora de escolher. É que nestas plataformas, que funcionam como uma rede social especializada em restauração, avaliam-se desempenhos partilhando opiniões.

Depois de termos a lista dos mais mal cotados e com comentários mais agressivos em Lisboa e arredores, partimos à sua descoberta, para ver se os queixosos tinham razão. Primeira paragem: Maracanã, uma cervejaria à moda antiga, bem espaçosa e com uma agradável esplanada com vista para a Fontes Pereira de Melo, perto do Saldanha. Na cabeça levávamos as críticas ao serviço e a sua baixa pontuação no Zomato – 2,1 em 5. “Este restaurante apresenta problemas graves de atendimento. É antipático, pouco profissional e muito, diria, 'à vontadinha' na relação com o cliente”; “Aqui vivi aquilo que posso chamar 'o lugar onde assisti ao pior atendimento de sempre'.” Não sabemos se quem lá trabalha também as tem frescas, mas a verdade é que o empregado sénior que nos atendeu foi de uma simpatia irrepreensível. Mesmo perante a provocação de pedir um café e um copo de água na esplanada (€1), à hora do almoço, não sentimos qualquer tipo de desagrado. Pousaram-nos o café em cima de uma toalha de pano, limpa e direitinha. Só uma das mesas estava ocupada por um casal de portugueses que comia bife na frigideira. Mais tarde chegaram três casais de estrangeiros, que foram prontamente atendidos, e a coisa ficou mais composta. Lá dentro, na enorme sala onde se costuma ver jogos de futebol – coisa que também é louvada nos comentários, assim como o horário alargado – um grupo de japoneses acaba de almoçar, sem reclamações.

Hello?

Depois de percorrermos a Rua das Portas de Santo Antão para descobrir mais dois restaurantes mal cotados, percebemos que nem sempre estas plataformas atualizam a informação. A cervejaria Solmar, que existia desde 1956 (em 112 avaliações no Tripadvisor, tem 36 terríveis), já fechou portas e o edifício lá continua, a cair de podre. 
O último comentário é de maio e até lhe foi bastante favorável.

Mais para o lado do Rossio, a confusão é enorme: todos os restaurantes oferecem o mesmo tipo de comida e apostam em aliciadores à porta, que arriscam qualquer língua, ao ver-nos passar com ar de turista. “Hello?” Como lhe respondemos em português, avisa, com sotaque brasileiro, que ali se come bem, que a cozinheira é de Braga.

De vez em quando, paramos para ler a ementa com atenção e ver as fotografias. Os preços não parecem nada assustadores, na casa dos €8 a €12, para pratos que se afastam pouco do bacalhau, das sardinhas ou dos secretos de porco preto. Percebemos que às vezes, o truque está em carregar no valor dos vinhos, por exemplo. Nunca nos sentaríamos num destes sítios, mas se estivéssemos no estrangeiro, sem conhecer os cantos à casa, poderíamos afirmar o mesmo?

Nesta rua, é o Santo Antão – que não tem qualquer identificação cá fora – que arrecada piores comentários e pontuação (80% “terrível” no Tripadvisor). Os clientes queixam-se do preço do vinho (atestado pelas faturas ali publicadas) e da má qualidade da comida. Depois de enxotarmos alguns angariadores, chegamos à famosa Pastelaria Suíça, em penúltimo lugar na lista do Zomato (1,8). É final da tarde e as cadeiras das traseiras, que dão para a Praça da Figueira, já estão todas vazias. Escolhemos a versão mais digna, virada para o Rossio, ainda por cima com sol. As toalhas são de um verde tão démodé como a carta que nos chega às mãos. Abrimos e aparece-nos uma fotocópia repisada, que pretende ilustrar os tempos áureos daquela pastelaria, aberta em 1922. Depois de termos lido no Tripadvisor que já serviram “uma dose de frango assado requentado e seco que era impossível comer (substituído por uma sanduíche de atum em pão forma mínima – atum diretamente da lata e uma folha de alface) e um cabelo preto enorme agarrado só no fundo do prato de barro do bacalhau com natas onde eu já tinha comido mais de metade!”, o pedido para ver a lista tratou-se de um mero pro forma. E serviu para atestar que variedade não falta, apesar de esta não ter evoluído um milímetro com o tempo. Também observámos as fotografias dos hambúrgueres e batatas fritas com óbvio aspeto congelado e de outros pratos, coisa que tira a vontade de comer a qualquer um. Até tínhamos fome, mas nem os salgados (€1,2) arrumados no balcão quase despido nos cativaram. Deu para ver como lá dentro o vazio torna a experiência mais desoladora. Lisboa já merecia uma Suíça arejada.

Muda o nome, o esquema é o mesmo

A experiência na Rua dos Correeiros, onde fica o restaurante mais mal classificado de Lisboa, que pratica um esquema enganador para qualquer cliente pouco avisado, é alucinante. À hora de jantar, torna-se difícil circular na rua, tal o número de restaurantes e respetivos empregados que nos interrompem o passo, em todas as línguas. As ementas estão em exposição e os preços, mais uma vez, não assustam ninguém. Todos apregoam que são de Braga, que a cozinha ali é que é genuína, que se come bem e barato. Alguns terão razão. Mas na verdade nem queríamos saber, porque íamos à procura dos piores: Nilo, Adega Regional da Beira e Rio Ceira. Destes, dois mudaram de gerência e hoje chamam-se Taberna 132 e Tradição da Baixa. Será o sistema das plataformas a funcionar?

O Rio Ceira (1,9/5 no Zomato) também já não se apresenta com esse nome, mas isso faz parte do esquema revelado pelo Observador, que tem como cabecilha um ex-carteirista do Elétrico 28. Agora, o restaurante responde por Portugal no Prato. No entanto, a ementa que nos dão para a mão no meio da rua tem impresso Made in Correeiros. E se agora mesmo for ao Zomato lê que passou a ser o Obrigado Lisboa. Seja qual for o nome por que responde, a intenção é sempre a de enganar o cliente. Pudemos comprovar isso mesmo, quando uma das pessoas que estava à porta a “vender” o restaurante nos passou a ementa para a mão. Na primeira página, a lista em português discriminava pratos individuais, a preços razoáveis e na linha dos seus vizinhos. As folhas seguintes faziam o mesmo noutras línguas. Mas quando tentámos folhear toda a ementa, quase nos agarraram na mão para que não o fizéssemos – era lá que estavam os pratos a preços exorbitantes, dos quais sobressai a mariscada para duas pessoas a 250 euros. Uma vez sentados, são estas especialidades para partilhar que são propostas aos clientes. Alguns vão ao engano de um preçário acessível e aceitam as sugestões sem ver o preço. E depois aparecem aquelas contas que andam a circular na internet.

Lixo na casa de banho

Os milhões de turistas que chegam a Lisboa não se ficam só pela capital. São raros os que não vão espreitar a linha de Cascais e Sintra. Os sabores tradicionais destas zonas são realmente bons, mas outros pormenores deixam muito a desejar. Um dos últimos restaurantes da lista de 865 no concelho de Oeiras na Zomato é o Torremar (2,4/5), baseada em 16 opiniões, algumas delas bem recentes. Foi pena sermos recebidos com um seco “bons dias”, pois a vista sobre a Praia da Torre, o Farol do Bugio e o Forte de São Julião da Barra é um excelente postal de férias. Um mar a perder de vista numa esplanada com ementas onde encontrámos alguns erros ortográficos. Ao meio-dia ficámo-nos por um café (€1) e uma água (€1,20), mas os comentários falam de caracóis “caros para uma dose tão pequena (€8)”, “um mísero pratinho com um número de caracóis que se contam por duas mãos”. A maior exorbitância que encontrámos talvez sejam as amêijoas a 21 euros. Ainda por cima diz-se que “pareciam meia dose”, ao que o gerente argumentou que o “preço/quantidade tinha a ver com a qualidade do produto”.

Com a casa de banho aberta aos veraneantes, há que redobrar a atenção na sua manutenção, pois não é admissível que àquela hora o chão já esteja alagado e cheio de areia, ainda que ali paire um grande caixote do lixo. O Torremar tinha tudo para ser o melhor cartão de visita da zona balnear de Oeiras, mas parece não se importar com o que os clientes vociferam no mundo digital.
Seguimos caminho pela Avenida Marginal até ao Estoril. Com uma pontuação de 2/5 na Zomato, o Deck Bar está mal cotado na lista de 1 202 restaurantes do concelho de Cascais. Com as temperaturas de 30 graus, sabe bem uma pausa na esplanada, à sombra de árvores centenárias. A funcionar há 61 anos com a mesma gerência, teve como primeiros proprietários uns alemães que, em 1927, inauguraram este refúgio junto ao Tamariz. Com a estação de comboios ali tão perto é natural que os turistas parem neste lugar frequentado pelos adolescentes da zona, principalmente, à noite. Mas há clientes que escreveram já ter visto “muita droga nos finais de semana” e também quem não recomende as sextas e sábados à noite, “pois torna-se no ponto de encontro de muitos jovens e o barulho é a música ambiente”. Este é um restaurante de omeletas, saladas, pizzas, pastas, peixe, bifes, hambúrgueres, picanha e frango assado. A esplanada estava longe de cheia, mas ainda assim bem composta, sempre com quatro empregados atentos ao serviço. Nas mesas, os habitués comiam um dos quatro pratos do dia. Para uma estreia, a nossa experiência não correu nada mal. Com a lista das cervejas artesanais a destacar-se, não resistimos a beber a Rainha (€3), com um toque apimentado. Para acompanhar, pedimos um croquete (€1,20) que veio ainda quentinho e bastante saboroso.

Sopa de peixe estragada

Num pulinho chegámos a Sintra, que parece não estar preparada para os magotes de gente que ali chegam todos os dias, em agosto. São centenas de turistas a pé, para trás e para a frente, mais dezenas de tuk-tuk cheios, a ver quem não perde o próximo cliente, e ainda uma ou outra charrete a atravancar o caminho. Entre as opções para lanchar está o Café da Villa, mal classificado entre os 1 292 restaurantes do concelho, com uma pontuação de dois e 23 opiniões na sua maioria negativas. A única mais-valia deste espaço, que parece um bar com pouca luz, é sem dúvida a localização – a meia dúzia de passos do Palácio Nacional de Sintra. Mas a esplanada vazia e a sala interior escura, a cheirar a tabaco da véspera, tiram a vontade de entrar. Apesar dos anunciados menus desde €8, há comentários na Zomato de clientes insatisfeitos porque “praticam preços ridiculamente altos e diferentes do que menciona na carta”, “a comida não confere com as imagens do menu” ou, pior ainda, “a sopa de peixe tinha um gosto de estragada”. De certeza que a qualidade da restauração não é incluída na hora de eleger os lugares Património Mundial da UNESCO.

Como nos podemos proteger?

Mais vale prevenir do que fazer denúncias nas plataformas digitais

- Antes de escolher o prato e as bebidas, assegure-se do preço final, mesmo que lhe tenham sugerido algum prato à porta
- Lembre-se que é obrigatório afixar os preços de todos os pratos junto à entrada e no interior
- Os restaurantes estão proibidos de recusar a apresentação da ementa
- Se algum um preço estiver com letra ilegível, confirme-o junto do empregado
- Já na mesa, “nenhum prato, produto alimentar ou bebida, incluindo o couvert, pode ser cobrado se não for solicitado pelo cliente ou por este inutilizado” (lei do couvert, artigo 135 do Regime Jurídico do Exercício de Atividades de Comércio, Serviços e Restauração, em vigor desde 2015). Além disso, o couvert deve estar descriminado no menu por unidade, pois passou a ser ilegal pôr um preço único para um conjunto de alimentos
- Se não quiser comer o habitual pão, manteiga ou azeitonas, postos na mesa ao início da refeição, peça para serem retirados. Faça o mesmo se lhe repuserem as bebidas sem pedir
- Atenção ao preço do quilo de alguns alimentos, como peixes e mariscos, por exemplo. Peça para pesar antes da confeção e saiba quanto vai pagar
- As ementas das esplanadas e terraços exteriores podem ter preços diferentes, mais caros do que os praticados na sala. Pergunte antes de pedir
- Peça fatura com o número de identificação fiscal. Poderá ser necessária como meio de prova se utilizar o Livro de Reclamações
- Se lhe for negado o Livro de Reclamações, envie uma carta ao Turismo de Portugal e à câmara municipal

Artigo publicado na VISÃO 1275 de 10 de agosto