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Na primeira pessoa, o testemunho de um enfermeiro que se viu no meio de um atentado terrorista

Sociedade

O enfermeiro Carlos Pinto no Museu da Farmácia, em Lisboa, onde irá ser exposta a caixa de primeiros socorros que usou nos atentados de Londres

Marcos Borga

O enfermeiro Carlos Pinto, 33 anos, sobreviveu ao atentado terrorista de Londres, em junho, e salvou uma jovem de 17 anos. À VISÃO revelou o que mudou desde aquele dia traumático. Leia o seu testemunho na primeira pessoa

"No dia seguinte ao atentado, ainda não tinha percebido o que me acontecera – se é que já percebi… Continuo sem ter lido uma notícia completa sobre o que se passou. Por falta de tempo, mas também porque me custa. Nem as entrevistas que dei li. Nada.

O meu sossego acabou depois de ter deixado uma mensagem na minha página do Facebook a contar o que tinha acontecido e a dizer aos meus amigos que estava bem. A partir desse momento, comecei a receber milhares de mensagens. Milhares. De todo o mundo. Falei com a BBC, a CNN… Não conseguia dormir nem comer. As entrevistas até ajudavam a passar o tempo, o pior foi quando os jornalistas descobriram a minha morada. Quase não podia sair de casa. Ofereceram-me dinheiro para contar a minha história, mas recusei. Nunca quis dar entrevistas a troco de dinheiro. Falar ajuda a ultrapassar os traumas. Põe-se tudo para fora e a vida continua.

Nunca entrei em pânico. “Será que vou morrer hoje?”, “Será que ele tem uma bomba?” Estes pensamentos passaram-me pela cabeça, mas estava tão concentrado a tentar salvar aquela rapariga que os esquecia automaticamente.

Naquele sábado [3 de junho], devia estar de serviço no hospital. Ligaram-me no dia anterior para trocar de turno. Fui tomar um café com uns amigos, que se prolongou até ao final da tarde. “E se fossemos jantar?”, dissemos às tantas. Lembro-me de estarmos indecisos entre um mexicano no Borough Market ou um libanês noutra zona da cidade. Se não tivéssemos escolhido o restaurante El Pastor, não estaria lá nenhum enfermeiro naquela noite e ela provavelmente não teria sobrevivido.

Sentámo-nos na terceira mesa a contar da entrada. Quando nos estávamos a preparar para comer ouvi barulho, mas continuei a beber a minha margarita. Numa fração de segundos, olhei e estava um homem lá fora a tentar esfaquear pessoas. Quando se aproximou da entrada, vi que estava assustado. Deve ter percebido que aqueles eram os últimos minutos da sua vida. Ela estava na mesa mais próxima da entrada…

Corremos para o fundo do restaurante. Caí. Perdi a noção de quem teria sido atingido. Gritei que era enfermeiro e vi uma rapariga a ser trazida em braços por duas pessoas. Sangrava do lado direito do tórax. Voei por cima de uma mesa e fui ter com ela. Pedi panos, guardanapos… Qualquer coisa para estancar a hemorragia.

O terrorista ainda estava à porta à espera que alguém se aproximasse. As pessoas refugiadas no fundo do restaurante, cerca de cinquenta, começaram a atirar bancos, pratos, garrafas… Tudo o que encontravam para o obrigarem a recuar. Ele deu uns passos atrás e o gerente do restaurante correu para a porta e fechou a grade de segurança. Arriscou a vida por todos nós. Foi assustador sentir o terrorista do lado de fora a tentar rebentar a grade. Ouvimos uma série de tiros e ainda mais assustados ficámos. Não fazíamos ideia do que se passava, até que alguém viu nas redes sociais que havia um atentado terrorista em Londres. E nós estávamos no meio dele.

Nesse momento, senti um arrepio da cabeça aos pés. Podíamos morrer ali todos se ele tivesse uma bomba. Acalmámo-nos e continuei a ajudar a rapariga. Precisei de gelo, muito gelo… Ela estava muito assustada. Eu também. A caixa de primeiros socorros não tinha tudo o que precisava. Lembrei-me do professor Edgar Canais, que me deu aulas no curso de Enfermagem. “Se não têm o que precisam, improvisem”, dizia. Foi isso que fiz. Não havia fita adesiva. Trouxeram-me uma fita castanha para fechar caixotes. Pus as compressas e a fita por cima para fechar a ferida. Fui fazendo perguntas básicas à rapariga para a manter consciente, sem a cansar muito. Fiquei a saber que tinha 17 anos, era norte-americana, acabara de entrar na universidade.

Três atacantes esfaquearam fatalmente oito pessoas e feriram outras 48 no atentado de 3 de junho, em Londres. Os transeuntes da London Bridge e do Borough Market foram os alvos do ataque. Os terroristas seriam abatidos pela polícia junto ao mercado, que reabriu um mês depois.

Três atacantes esfaquearam fatalmente oito pessoas e feriram outras 48 no atentado de 3 de junho, em Londres. Os transeuntes da London Bridge e do Borough Market foram os alvos do ataque. Os terroristas seriam abatidos pela polícia junto ao mercado, que reabriu um mês depois.

DANIEL SORABJI/ Getty Images

Ainda não a voltei a ver, mas um primo disse-me que está bem. Estou à espera que os pais me liguem. Quero muito reencontrar-me com ela. Disse-lhe que não a ia abandonar. Só pedi a alguém para fazer pressão na ferida quando telefonei à minha mãe. Contei-lhe que estava no meio de um atentado terrorista mas fui-lhe mandando umas selfies, para lhe mostrar que estava bem. A minha mãe foi professora primária, mas também tem o curso de Psicologia e explicou-me que gestos simples podem fazer uma grande diferença na vida dos outros. Talvez seja por isso que tanta gente quer falar comigo sem eu perceber porquê. Recebi uma medalha de mérito da minha cidade, Vila Real. A caixa de primeiros socorros que usei será exposta no Museu da Farmácia, em Lisboa. Tudo isto me deixa muito admirado. Só fiz o que tinha de fazer. Mesmo com medo podemos agir e fazer a diferença.

Tivemos de negociar com a polícia para abrir a grade do restaurante. Não tínhamos a certeza de quem estava lá fora e eles não sabiam quem estava do lado de dentro. Quando abandonámos o restaurante, ao fim de duas horas e meia, e ela ficou entregue aos paramédicos, tivemos de percorrer quase dois quilómetros, com as mãos na cabeça.

A polícia foi muito agressiva connosco, sempre de armas apontadas. As ruas estavam completamente desertas. Havia mesas no chão, carteiras, telemóveis, casacos, sapatos… As pessoas fugiram e deixaram tudo para trás. Parecia um cenário de guerra. Quando saímos do perímetro de segurança, havia gente na rua a oferecer as suas casas, comida, roupa…

Nos últimos tempos, tenho tido mais medo, não sei porquê… Foi um alívio quando descolei de Londres para passar uns dias em Portugal. Já estava nos meus planos regressar, mas, desde que isto aconteceu, o processo foi acelerado. Quem sabe para o ano…

O meu companheiro de casa também quer mudar-se para Lisboa. Já esteve em dois atentados: na linha de metro de Picadilly, em 2005, e, agora, no Borough Market.

As pessoas dizem que não têm medo, mas não é verdade. Vão acontecer mais atentados. Só não sabemos onde. Se ouvir um barulho, mudo logo de posição para ter um ângulo de visão melhor. Mesmo em casa, fico alerta. Acho que isto vai passar, mas agora acontece. Não podemos alterar o nosso quotidiano, mas podemos ajustar-nos. Estar atentos. Daí ter vontade de ir embora, não quero viver o tempo todo com este medo.

Não me considero um herói. Agi como um cidadão que, por sorte, é enfermeiro. Consegui manter uma rapariga viva, com pouco material médico disponível, durante duas horas e meia. Isso deixa-me feliz, mas não faz de mim um herói".

Depoimento recolhido por Vânia Maia

Artigo originalmente publicado na edição 1272 da revista VISÃO de 20 de julho de 2017.