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Airbnb: “Durante a crise, ajudámos muitas pessoas a salvarem as suas casas”

Sociedade

Joseph Zadeh fotografado na Rua Barata Salgueiro, em Lisboa, a quarta cidade europeia mais procurada na plataforma Airbnb

José Caria

É um dos líderes da Airbnb, a plataforma online que revolucionou o alojamento local e está a transformar a forma como se viaja no mundo. Entrevistado pela VISÃO, Joseph Zadeh rejeita a ideia de que a empresa esteja a colocar as cidades ao serviço dos turistas e não dos residentes

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

É a segunda vez que o norte-americano Joseph Zadeh, 35 anos, está em Lisboa. A primeira foi há dez anos, quando era um estudante a viajar de mochila às costas pela Península Ibérica. Agora, regressa como vice-presidente de Produto da Airbnb, a mais popular plataforma online de arrendamento de curto prazo.

Foi o nono funcionário a integrar a empresa nascida em São Francisco. Considerado o 22º jovem executivo mais influente do mundo pela revista Fortune, Joebot, como é tratado pelos amigos devido à sua paixão pela programação informática, esteve na capital portuguesa para apresentar a nova plataforma da empresa, a Trips, que acrescenta ao aluguer de casas a possibilidade de reservar Experiências concebidas e guiadas por especialistas locais. Em Lisboa, há mais de vinte programas disponíveis. Explorar os lugares de Fernando Pessoa, descobrir o legado africano da cidade ou aprender a amanhar peixe são algumas das possibilidades.

A tatuagem no interior do antebraço esquerdo contrasta com o seu estilo discreto, diz: “Hello world”, o nome de um programa utilizado para ensinar novas linguagens aos informáticos. À VISÃO, Joseph Zadeh falou do poder de Silicon Valley, da forma como a tecnologia está a moldar a sociedade e do apuramento de responsabilidades na “economia da partilha”. E reagiu às críticas que acusam a Airbnb de expulsar os residentes do centro das cidades.

Lisboa tornou-se um destino turístico muito apetecível. A Airbnb contribuiu para isso?
Há um grande entusiasmo à volta da cidade, nos EUA fala-se cada vez mais de Lisboa. Não sei até que ponto a Airbnb é responsável por isso… Mas estamos a crescer em Lisboa e isso deixa-nos felizes.

A ideia de oferecerem pacotes de Experiências a quem visita as cidades está inserida na vossa estratégia de serem uma empresa “glocal”. O que quer isso dizer?
Lamento ter inventado essa palavra… [risos] Ficar alojado em casa de alguém dá-nos mais do que uma cama para dormir, leva-nos a zonas da cidade com as quais não estamos familiarizados. Aliás, se virmos a localização das casas registadas na Airbnb muitas delas ficam em zonas pouco turísticas e proporcionam uma verdadeira experiência local. Por isso, decidimos transportar a hospitalidade local para todos os aspetos da viagem. Queremos ajudar as pessoas que, apesar de não terem um espaço extra em casa para alugar, têm uma paixão que podem monetizar. Acreditamos que alguns destes guias de Experiências vão conseguir viver desta atividade.

Disse que muitas das casas registadas na plataforma estão localizadas em zonas pouco turísticas, mas não é essa a perceção que temos em Lisboa.
Tenho o mapa de São Francisco na cabeça, sei exatamente quais são as zonas mais turísticas e, se virmos a localização das casas Airbnb, elas estão espalhadas por toda a cidade. O mesmo acontece em Nova Iorque, mas nunca vi o mapa de Lisboa…

Em Lisboa gerou-se um movimento contra a concentração do alojamento local nos bairros históricos…
Acho que se víssemos como as coisas encaixam, provavelmente, a história seria outra. Os viajantes podem ter o desejo de ficar numa área específica… Mas seguramente que existe uma maior distribuição do que no alojamento tradicional.

As Experiências também são uma forma de chamarem mais locais para trabalharem convosco, contrariando as reações negativas que muitos têm em relação à “invasão” turística?
O nosso objetivo é proporcionar as melhores viagens possíveis. Se olharmos para o turismo de hoje, a maioria das pessoas tem uma lista de sítios óbvios para visitar e vai-se embora sem nunca ter conhecido verdadeiramente uma cidade. A nossa principal motivação é resolver esse problema. Nós acreditamos que a melhor viagem possível acontece quando se contacta com os locais.

Mas os locais têm de estar disponíveis para isso…
Absolutamente.

Estão a trabalhar numa ferramenta de reserva de voos, adquiriram uma empresa de aluguer de casas de luxo… O objetivo é dominarem todos os passos de uma viagem?
Queremos estar presentes ao longo de toda a experiência. Estamos sempre a experimentar coisas novas. O voo é uma parte muito importante de todas as viagens e, muitas vezes, uma das menos agradáveis… Mas ainda não há nada que possamos partilhar sobre isso.

Estudar o perfil dos anfitriões que alugam casas é um passo muito importante para garantir a segurança dos hóspedes. Recentemente, adquiriram uma empresa especializada nesta área, a Trooly. O que poderá mudar daqui em diante?
Sempre levámos a confiança e a segurança muito a sério, tanto para os anfitriões como para os viajantes, estamos sempre a inovar nesse aspeto. Tentamos que seja um processo o menos doloroso possível, mas também queremos que as pessoas tenham uma experiência o mais segura possível.

Como é feita essa avaliação?
Sempre tivemos as críticas dos hóspedes, mas há coisas menos óbvias como o facto de a Airbnb ser responsável pela transferência dos pagamentos, o que nos dá muita informação sobre quem está a usar a plataforma. Há algoritmos que procuram padrões de comportamento que nos ajudam a garantir a segurança dos utilizadores. Varia muito de país para país, consoante o que podemos fazer em cada um deles. Temos milhões de estadas e creio que são menos de mil as que dão problemas. Estamos orgulhosos disso, mas continuamos a trabalhar para que seja cada vez mais raro.

De que forma a inteligência artificial vos tem ajudado?
Somos bem-sucedidos quando os clientes não precisam de saber o que se passa nos bastidores. Estamos bastante avançados no que diz respeito ao machine learning, por exemplo, no sentido de mostrar as opções certas para cada um. Se duas pessoas pesquisarem por Airbnb em Lisboa, e tiverem feito pesquisas antes, verão resultados muito diferentes com base no que já tinham pesquisado. Conseguimos saber se quem pesquisa Experiências é um local ou um viajante e identificamos quais as Experiências que fazem mais sentido para os locais, que também procuram muito este serviço. Nem toda a gente em Lisboa terá mergulhado nas raízes africanas da cidade… E agora podem fazer isso.

Até que ponto está Silicon Valley a transformar as nossas vidas?
Passo a maior parte do meu tempo em Silicon Valley e vejo imensas empresas a testarem todo o tipo de ideias, mas quando viajo sinto que poucas conseguem chegar tão longe quanto nós chegámos. Há o Google, Facebook, Instagram, Uber… Mas isso não é muito significativo no grande esquema das coisas. Há mais países e cidades a investirem em tecnologia, o empreendedorismo de Silicon Valley está a internacionalizar-se. Isso deixa-me muito feliz.

Podem ser poucas as empresas de Silicon Valley que se internacionalizam, mas monopolizam as suas áreas de negócio…
Depende dos países e das empresas. Acho que algumas dessas empresas fazem um excelente trabalho ao pensarem profundamente nas necessidades dos seus clientes. Para empresas como a Airbnb funcionarem, o mercado tem de ser global, nunca funcionaria se estivesse apenas num país.

A tecnologia é, muitas vezes, vista como destruidora de empregos. Como reage a isso?
Não censuro quem pensa assim. É assustador. Ser condutor de camiões é, provavelmente, o trabalho mais comum nos Estados Unidos da América, mas dentro de dez anos o mais provável é que esse emprego já não exista. Os camiões vão passar a conduzir-se a si próprios, o que irá salvar imensas vidas ao evitar acidentes de viação. Eu estou entusiasmado porque a tecnologia também dá poder às pessoas, mas há muito poucos exemplos de tecnologia que seja pró-humana, que tente verdadeiramente trazer o melhor das pessoas ao de cima, em vez de as substituir.

A sociedade ainda não compreendeu que já não faz sentido organizar-se em torno do trabalho?
O que é novo é sempre assustador até se tornar normal. Quando integrei a Airbnb, disseram-me que era louco por me juntar a uma empresa que dizia às pessoas para alugarem as suas camas-extra. Com o tempo, e 180 milhões de hóspedes depois, mostrámos que esta é uma forma popular de viajar. A atitude mudou nos últimos sete anos, o que não é assim tanto tempo para uma mudança tão grande.

A economia partilhada é sinónimo de uma sociedade na qual é cada vez mais difícil atribuir responsabilidades?
Não diria isso… O que faz um anfitrião de sucesso na Airbnb são todas as críticas e interações que ele tem no seu perfil. As pessoas têm a oportunidade de falarem umas com as outras e isso fica escrito na internet. De certa maneira, o apuramento das responsabilidades é ainda maior precisamente porque não está centralizado.

Mas, em termos laborais, os trabalhadores parecem cada vez mais obrigados a assumirem todos os riscos perante plataformas que apenas funcionam como intermediárias…
Não posso falar sobre o que se passa na Europa, em alguns casos talvez seja assim. No caso da Airbnb, procuramos formas de dar mais poder às pessoas que possam sentir que foram deixadas para trás.

Teve noção de que a Airbnb teria um efeito transformador no mercado? Os legisladores não têm conseguido acompanhar as mudanças que trouxeram…
Não, se bem que já sabia que a ideia fazia sentido. As ideias mais interessantes do mundo estão à frente da regulação. Uma das coisas de que me orgulho é que a Airbnb se tem aproximado dos reguladores das cidades. Queremos trabalhar com eles no sentido de percebermos as necessidades de cada local. Queremos tornar as cidades lugares melhores.

E querem participar na discussão sobre a legislação que vos regula?
Acredito que as empresas devem andar de mãos dadas com as pessoas e os governos. Devem colaborar intimamente na criação de regulamentação que seja justa para as pessoas e boa para as cidades. Temos tido um impacto económico tão grande que a discussão deve estar focada no rendimento que podemos trazer para as cidades, sobretudo para zonas que normalmente não recebem investimento. Quando conseguimos dialogar com as cidades há, habitualmente, uma grande abertura.

Sendo filho de imigrantes iranianos, como vê o momento atual da política norte-
-americana?
Falo apenas por mim e não em nome da empresa. Deixa-me triste… Sobretudo quando penso num país como o Irão. Os meus pais são as pessoas mais hospitaleiras que já conheci… É algo que espero que possa melhorar no futuro.

A Airbnb manifestou-se contra os limites à imigração defendidos por Donald Trump. É perigoso uma empresa de dimensão internacional tomar posições políticas ou é inevitável?
É importante uma empresa ter convicções. Acreditamos que o mundo é um sítio melhor quando as pessoas estão em contacto umas com as outras e somos contra tudo o que o impeça. Também temos de estar conscientes das políticas e crenças de cada país e manter um certo equilíbrio, mas há questões em relação às quais somos perentórios.

A Airbnb é elogiada por apoiar o alojamento dos refugiados e, ao mesmo tempo, acusada de expulsar os residentes dos seus bairros ao inflacionar os preços das casas. Sente-se como 
o Dr. Jekyll e Mr. Hyde?
Eu só tenho acesso à visão interna… Internamente, nós compreendemos o efeito que temos nas cidades, nalgumas funciona muito bem noutras nem por isso… Há sempre muita coisa a acontecer. A questão dos refugiados não tem nada a ver porque é algo em que acreditamos: todos merecem uma casa.

Mas sente que contribuem para colocar as cidades ao serviço dos turistas e não dos residentes?
Uma vez que damos tanta atenção aos anfitriões de cada cidade, que são residentes, não nos revejo nessa crítica. Em muitos casos, durante a crise económica, ajudámos muitas pessoas a salvarem as suas casas. Quando me mudei para São Francisco, não tinha dinheiro para lá viver, foi assim que tudo começou. A única forma de eu pagar a minha renda foi com a ajuda da Airbnb. Sempre nos vimos como parceiros das cidades e dos anfitriões.

Transformar um negócio tão lucrativo quanto o turismo implica enfrentar muitos lobbies. Qual é o mais poderoso?
Essa não é a minha área… Não consigo responder a isso. [Risos.]

Para onde vai a seguir?
No domingo vou para Paris, depois Dublin e Londres. Na noite passada estive em Barcelona. É um exemplo de como nem tudo está nos dados, zeros e uns não nos dizem se os anfitriões estão felizes ou não. Nada substitui conversar com as pessoas.

E como estava o ambiente em Barcelona? Recentemente, os residentes da cidade consideraram o turismo o seu problema número um…
Não sou especialista nas políticas de turismo de Barcelona… Mas a comunidade das Experiências está muito satisfeita. Estão entusiasmados com esta nova fonte de rendimento.

Usa sempre Airbnb quando viaja?
Sempre. Talvez tenha havido uma vez numa conferência em Las Vegas que não consegui, mas uso sempre a Airbnb

Astronómica

Os números da Airbnb revelam uma empresa de dimensão global. Portugal está entre os dez destinos mais procurados


27 mil 
milhões de euros



Era a avaliação da empresa, estimada no final do primeiro trimestre deste ano




3 
milhões


De espaços disponíveis para alugar em 65 mil cidades de todo o mundo




2 
milhões


De hóspedes usaram a Airbnb na noite de passagem de ano para 2017, batendo o recorde de dormidas da plataforma numa só noite

1,07 mil 
milhões de euros


Foi o impacto económico da plataforma em todo o território português no ano passado. Lisboa terá sido responsável por quase metade: 476 milhões





1,6 
milhões


De pessoas usaram a Airbnb para pernoitar em Portugal em 2016, colocando o País na lista dos dez destinos mais procurados na plataforma. Em Lisboa, dormiram 718 mil destes viajantes, ou seja, cerca de 45%

3 600 euros


Rendimento dos anfitriões portugueses que alugaram, em média, a sua casa durante 39 noites no ano passado. Existem mais de 
53 mil casas portuguesas registadas (13 mil em Lisboa), 70% fora dos bairros com maior concentração hoteleira, garante 
a empresa


Fontes: Airbnb, CNBC, Forbes

Artigo originalmente publicado na edição 1271 da revista VISÃO de 13 de julho de 2017.