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Porque é que o tempo passa mais devagar em situações extremas?

Sociedade

Jeff J Mitchell/ Getty Images

David Eagleman estudou a sensação de “câmara lenta” para perceber porque é que o tempo parece passar mais devagar em determinadas situações da vida

David Eagleman, neurocientista e autor do livro Incógnito - As vidas secretas do cérebro humano, começou a interessar-se pelo fenómeno do tempo em "câmera lenta" quando tinha apenas oito anos, após a queda de um telhado de uma casa em construção. “Pus o pé na beira do telhado, ou no eu que eu pensava ser a beira. Mas, na verdade, era um papel que estava ali pendurado e caí. A queda pareceu durar muito tempo. Primeiro, pensei: será que consigo virar-me, será que há espaço e dá tempo para me agarrar ao telhado? Acabei por perceber que não dava tempo e dei por mim a cair em direção ao chão, a olhar para baixo".

Uns anos mais tarde, quando estava já no ensino secundário e teve a possibilidade de estudar física, Eagleman calculou o tempo exato que durou a sua queda. “Descobri que a queda apenas durou oito décimos de um segundo. Fiquei surpreendido e não entendi como é que aquela queda pareceu durar tanto tempo”.

Mais tarde Eagleman acabou por se formar em neurociência e atualmente dedica grande parte das suas investigações à perceção do tempo, incluindo esta sensação de “câmera lenta”, como a vários relatos que ouviu.

Em entrevista à BBC, o investigador da Universidade de Stanford na Califórnia, falou sobre as suas experiências e os resultados a que chegou.

Segundo o neurocientista, as distorções nas percepções do tempo ocorrem quando as pessoas passam por experiências traumatizantes ou momentos marcantes. “Conversei com centenas de pessoas ao longo dos anos, pessoas que viveram acidentes de carro ou tiroteios, que sempre me disseram que esses momentos pareceram durar muito tempo” revela.

Para estudaro efeito "câmera lenta", Eagleman usou, com a sua equipa, um parque de diversões. O objetivo era encontrar uma atração tão assustadora que fosse capaz de provocar nos participantes do estudo uma distorção na percepção do tempo.

A atração escolhida, o “SCAD Diving”, implicava uma espécie de mergulho no ar. Isto é, os participantes tinham de subir de elevador até ao cimo de uma torre com cerca de 45 metros e ser amarrados a uma corda e ficar suspensos no ar. Após alguns segundos de suspensão eram depois largados, em queda livre, de costas e durante três segundos até caírem sobre uma rede. Os participantes chegavam a atingir uma velocidade de 112 quilómetros por hora.

De modo a perceber se os participantes passavam mesmo pela sensação de “câmera lenta”, Eagleman utilizou dois métodos: primeiro colocou no pulso de cada participante um visou que piscava com informações de formas diferentes e em velocidades diferentes (no tempo "normal", seria impossível ler os números mostrados, por exemplo, enquanto em "câmara lenta" já seria possível), com o objetivo de saber com que rapidez os participantes viam o mundo e, de seguida, pediu-lhes que calculassem aproximadamente quanto tempo durou a queda.

“Quando estavam já no chão, calcularam com um cronómetro na mão quando tempo sentiram que a queda tinha durado. Depois pedi que observassem as quedas de outros participantes e tentassem calcular a sua duração” afirmou.

Os resultados não foram aqueles que Eagleman esperava. “Fizemos muitas análises sobre isso e eu esperava obter uma resposta positiva, mas não aconteceu. Os participantes não viram em “câmara lenta”, não conseguiram ler mais rapidamente do que liam quando fizemos o teste de controlo, no solo” afirma. Em vez disso o que acontece é que, durante uma experiência marcante, uma área do cérebro entra em ação: a amígdala. São pequenas estruturas em forma de amêndoa (são duas e estão situadas na região temporal do cérebro) que são fundamentais para a autopreservação. Identificam o perigo e geram sensações como o medo e a ansiedade. “Trata-se de um sistema secundário de memória que forma outra camada de memórias. Desta forma forma-se uma quantidade tal de memória que, ao resgatar toda aquela informação, dá a impressão que aquele momento durou muito tempo. Não passa de um truque de memória. A nossa noção de tempo está ligada à nossa memória.” afirma.