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A revista que muda vidas

Sociedade

André Moreira

A publicação mensal da asssociação CAIS funciona, há mais de 20 anos, como meio de reinserção no mercado de trabalho de sem-abrigo e outros cidadãos em situação vulnerável. Fomos conhecer as histórias de três vendedores que dão a cara por este projeto

André Moreira

André Moreira

Com Filipa Pereira

Todos os vendedores da revista têm uma história para contar. São pessoas social e economicamente vulneráveis, muitas sem lar, sem emprego e em situação de exclusão. E a revista CAIS pode mesmo mudar-lhes a vida.

No trânsito, perto de superfícies comerciais ou numa qualquer rua, podemos encontrar alguns destes vendedores, que merecem muito mais do que um vidro do carro fechado ou um ar mal-encarado mal tentam dar a conhecer às pessoas o projeto.

A CAIS tem o valor de 2€. Destes, 70%, ou seja, 1,40€, são para os vendedores. "Atualmente vendo cerca de 400 revistas por mês", estima José Barros, um dos vendedores mais antigos. Contas feitas, José consegue cerca de 560€ mensais. E esta é a principal fonte de rendimento do seu agregado familiar: companheira (desempregada) e duas filhas.

Desde 2000 que aquele semáforo na Praça de Espanha, ao fundo da Avenida dos Combatentes, é o seu local de trabalho. Desempregado há vários anos, conheceu a CAIS através de um colega. Dirigiu-se à associação e ali se sente acolhido, desde então.

Os horários são geridos pelos próprios vendedores, que já sabem quais as melhores alturas para vender. A partir das nove e meia da manhã, José vai, de carro em carro, mostrando as revistas que carrega. Com um certo orgulho, comenta aquilo que consegue: "Já vendi sete". Isto, no espaço de uma hora, no meio de carros apressados, com pessoas que rumam aos seus empregos.

Há dezassete anos a vender a CAIS, José diz nunca ter tido zaragatas ou reclamações. A maior dificuldade é mesmo "andar ao calor ou à chuva", afirma.

Perto do Parque Eduardo VII, anda Carlos Almeida. Tem um défice cognitivo mas isso não o impede de ser um dos melhores vendedores da CAIS. "Há aqui uma senhora com 91 anos que me compra sempre duas revistas", diz, apontando para um dos prédios da rua que já é a sua segunda casa.

Tem clientes regulares e muitos dos que por ali passam, mesmo de carro, já o conhecem bem. E ele sabe disso. "Eu tenho muitos clientes", diz. Vê um senhor a passar na passadeira e não fica indiferente, sentindo a necessidade de contar que, também aquele, lhe compra, todos os meses, pelo menos uma revista.

Carlos vive em Famões com a mãe, que tem uma pensão muito reduzida, e o irmão. Todos têm problemas de saúde. Conheceu a CAIS através da Companheiro, uma associação de solidariedade social, e, desde então, a viagem matinal de transportes públicos para aquela rua é a sua rotina. O lucro das revistas que vende serve para sustentar a casa e para comprar o passe. “Ajudo a minha mãe”, diz, num lamento, que chega para perceber que o dinheiro nunca sobra.

Se descer um pouco a rua e contornar algumas esquinas, na rua Latino Coelho, perto de um mercado de produtos biológicos, encontra Iosif Dorot. Como o nome revela, não é português, mas veio para Portugal à procura de uma vida melhor. Tem aulas de língua portuguesa na associação e não pensa voltar ao país de origem, a Roménia. “O meu filho não deixa. Cresceu aqui e agora, com 17 anos, não quer voltar para lá”, conta.

Iosif vive em Lisboa com a esposa e os quatro filhos. Todas as crianças estudam e praticam vários desportos. E a revista é um complemento importante. “Ajuda-me muito a mim e à minha família. Não dá para pagar a renda mas dá para comprar comida todos os dias”, revela o vendedor.

Todos os meses, a revista tem um diretor convidado. Na edição de maio deste ano, foi Marcelo Rebelo de Sousa, que decidiu focar-se na juventude. Os vendedores conheceram-no e alguns chegaram mesmo a acompanhar o Presidente nas vendas da CAIS, em Belém. Sorridente, Iosif diz "é um senhor bom, fala com toda a gente. Rico, pobre, preto, branco, vermelho, ele fala com toda a gente com respeito. Gosto dele e muitos dos meus amigos portugueses gostam dele”.

Em 1994, os vendedores da CAIS começaram por vestir coletes amarelos, mas vieram a trocá-los por outros, de cor vermelha. Em março deste ano, regressaram às origens. O amarelo voltou a ser a cor escolhida para os coletes, uma vez que, segundo Conceição Cordeiro, diretora executiva da revista, “é a cor do sol, é energia, alegria de viver" e "é uma cor positiva”.

Além disso, esta mudança de tom, assim como toda a campanha que envolveu, teve como objetivo chamar a atenção das pessoas para o facto de que a revista, além de ser um bom produto, carrega uma missão nobre. Os coletes até podem mudar de cor, tal como a cara dos vendedores - mas a alma da CAIS, há 23 anos que não muda.