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O jornalista que era o mundo inteiro dos outros

Sociedade

Mário David Campos (1967-2017)

Lucília Monteiro

Mário David Campos (1967-2017), repórter da VISÃO, tinha um coração e um talento que não cabem apenas no jornalismo. Aos 50 anos, deixou-nos. Tudo

"Vai-se indo, camarada. Pensei que não via maior desgraça do que a de Castelo de Paiva, mas esta é”. Piscavam no telemóvel as 13 horas e 30 minutos de 18 de junho quando Mário David Campos, 50 anos, jornalista da VISÃO desde dezembro de 1999, tranquilizava assim, por sms, o autor destas linhas, preocupado por sabê-lo onde Portugal ardia.

Naquele dia, àquela hora, o repórter estava em Pedrógão Grande, escutando as vozes que emergiam do lume e do silêncio.

Na aldeia de Pobrais, onde um terço da população já não era deste mundo, ele, ainda meio atarantado, absorveu quantos sopros de vida pôde, fazendo-os seus, tentando torná-los mais respiráveis. Calcorreou caminhos devastados, cenários mirrados de esperança. Fitou olhos inchados de choro, cegos de futuro. Mas logo se pôs a abraçar relatos, testemunhos, provas de que nem tudo, se dependesse da escrita dele, seriam apenas pó, cinza 
e nada quando vertidos para o papel. 
A aldeia onde cada um é o mundo inteiro do outro foi o título dessa reportagem, publicada dias depois nesta revista, a última que escreveu antes de enfrentar a sua própria e inesperada tragédia: Mário David Campos (Porto, 1967) faleceu na manhã de domingo, 9, no Hospital Eduardo Santos Silva, em Gaia, depois de traído subitamente pelo coração.

Traço de união

Na memória do título daquela reportagem mora tudo o que ele era e os mais próximos recordam: a profunda humanidade, o talento, a capacidade de unir mundos, gentes e realidades à sua volta, em nome de algo maior que os dias aziagos. 
“O Mário refletia muito sobre as situações e fazia tudo para que as pessoas que o liam se sentissem dentro dos seus textos”, explica a mulher, Sónia Rodrigues, 20 anos de vida em comum, que teriam sido celebrados ontem. Conheceram-se na Escola Superior de Jornalismo do Porto e não mais se largaram.

Ele, nascido acidentalmente na Invicta há 50 anos, a 5 de abril, rumou, ainda com meses, ao lugar ao qual sempre disse que pertencia: Vila Real, Trás-os-Montes. Paixão e geografia sentimental desmedida, traço de união de recorte torguiano, reino maravilhoso dos simples, como ele. Dali só voltaria a sair, na juventude, para estudar comunicação e fazer-se jornalista. “Nunca quis ser outra coisa”, recorda a mãe, Altea Pais. “Em pequeno devorava os livros do pai, os dele e os do irmão. Quando vi que já não havia nada a fazer, disse-lhe que podia meter uma cunha na televisão, pois tinha lá um amigo. Respondeu-me: ‘Não quero cunhas e não fui feito para ser visto. Quero escrever’”.

Fê-lo então, sôfrego, sem olhar para trás, como se adivinhasse que o tempo já corria contra ele. Estagiou no extinto semanário O Independente, rumou ao diário 
O Primeiro de Janeiro, trabalhando depois na delegação nortenha do Diário de Notícias. Sairia para a VISÃO em dezembro de 1999, onde se manteve até ao último dia de vida. Em todas estas redações – e outras mais – o Mário fez amigos que o consideravam “lugar seguro”, património da nossa eternidade, exemplo profissional e de vida. Nos arquivos abundam páginas que são a montra da sua versatilidade, empenho e qualidade jornalística. O seu olhar, a insaciável fome de ler e compreender as esquinas do mundo, a postura de quase se anular para brilharem as palavras dos outros estavam à-vontade num tasco ou ministério. A alma de repórter, a vertigem do encontro com o seu semelhante, estão plasmadas em textos sobre as revoltas do povo de Deus contra os párocos das aldeias, a luta dos vidreiros na Marinha Grande, a queda da ponte de Entre-os-Rios, as mortes na Linha do Tua, os crimes da noite do Porto, a vaga dos graffiters, as crónicas do julgamento do caso Apito Dourado, as urgências dos hospitais, a pesca precária em mares revoltos, as manias do Bruxo de Fafe ou as facetas de Quina, “a carteirista de Ermesinde”. Isto sem esquecer as reportagens pelos santuários do petiscanço nacional, do qual era devotado seguidor na versão “comeres, prazeres e preguiça” ou piada de caserna: “É um trabalho difícil, mas alguém tem de o fazer”, dizia, irónico, com o inconfundível sorriso largo com que oferecia abraços, mesmo ao longe.

Na música, só tinha um patrão: Bruce Springsteen (deve estar agora a cantar You´re Missing para ele). A sua religião era a amizade e tornara-se, em miúdo, uma bíblia futebolística ambulante. Sagrados, nesse território, só o Sporting, Maradona e a seleção argentina. Escreveu na VISÃO uma boa parte da história desportiva nacional deste século, dos perfis dos craques (Jardel) à morte deles (Miki Fehér), sem esquecer os sucessos daqueles que são quase sempre atirados para o pé de página do estrelato. Era isso, um apaixonado por histórias das “vidas que ninguém vê”, parafraseando um livro da repórter brasileira Eliane Brum, uma das suas devoções. Em 2012, ganhou, em coautoria, o Prémio de Jornalismo Económico Santander Totta/Universidade Nova de Lisboa, na categoria de Sustentabilidade Empresarial, com o artigo A Força do Terceiro Setor. Temas sociais, viessem eles, que nem os números atrapalhavam.

De escrita apurada, a VISÃO apostara nele, nos últimos anos, para cobrir várias áreas culturais. Deixou-nos uma deliciosa conversa entre Rui Reininho e Capicua, diálogos à lareira, para lá dos Montes, com as atrizes de João Canijo no filme Fátima e conseguiu que a mítica cantora Né Ladeiras lhe abrisse o coração. Entre as raras e imensas qualidades do Mário estava uma, de cepa transmontana: a capacidade de ser a morada dos outros, sem reservas, uma espécie de “entre, quem é” de coração escancarado, em comunhão e partilha. Sem animosidades.

A prova de que devolvia tudo isso em palavras – e em dobro – é atestada pelos comentários nas redes sociais, por estes dias, de Né Ladeiras ao treinador Miguel Cardoso, do cineasta Luís Ismael aos graffiters Mr. Dheo ou Miguel Januário, do músico Rogério Charraz ao jogador Tarantini, do Rio Ave, com quem o Mário almoçou na sexta, 8, na Póvoa de Varzim.

Conversaram sobre os esboços de uma ideia editorial à volta do projeto educativo e de formação para a vida académica protagonizado pelo atleta, tendo por objetivo preparar os jovens para um futuro extra-futebol: “Estava a ser uma experiência fantástica, brutal! Apesar de só nos conhecermos há semanas, já o admirava imenso”, conta Tarantini, ainda emocionado com a notícia do falecimento do repórter da VISÃO. “Era a pessoa certa para este projeto. Escutava imenso, tentou compreender-me em todas as facetas da minha vida colocando-se no meu lugar, sem se sobrepor a nada. Tocou-me imenso a morte dele”, assume.

O humor, no princípio e no fim

Nos últimos anos, o Mário, vejam lá, tornara-se também viral. Uma novidade para ele. “Como é possível que meia dúzia de disparates que escrevo nas redes sociais façam isto?”, questionava, de sorriso maroto. Na VISÃO, eram dele os twitários, publicados durante mais de um ano. “Se o Jesus for para o PSG podemos deixar de escrever segundo este acordo ortopédico?”, perguntava, gerando likes atrás de likes no Facebook. E o mesmo aconteceu quando um eurodeputado socialista chamou cigana a uma colega de partido. “A primeira parte do concerto de expulsão do Manuel dos Santos devia ser feita pelos Gipsy Kings”, brincou. Curtos e certeiros carateres que eram, como muitos recordaram, a maior “crítica jornalística-política-financeira-económica-futebolística-de-costumes-com-humor-no-facebook”, sempre com veia literária e uma “tremenda capacidade de transformar uma singela vírgula da atualidade na piada mais genial”. Bebedor incorrigível do alto teor humorístico dos Monty Python ou das canções destravadas de Frank Zappa, ele dizia: “A vida só tem piada se a soubermos levar a brincar”.

E a morte, Mário, como se leva?

Esta segunda, 10, a Igreja de Canidelo, em Gaia, não teve espaço suficiente para as muitas dezenas que se quiseram despedir do jornalista da VISÃO, entre os quais amigos de infância e camaradas de ofício. Em redor, montara-se o cenário da festa anual da freguesia, com cantoria picante a saracotear rimas fáceis no altifalante, carrinhos de choque, farturas, enfeites e tudo o que uma romaria pede (e o Mário, com a sua veia fellinesca, adoraria!). Fez-se silêncio no adro quando se anunciaram as cerimónias fúnebres e se deu a entrada da urna no templo. Quando, a dada altura, ecoou um telemóvel na Igreja, com o toque da Pantera Cor-de-Rosa, ninguém, entre lágrimas, se acusou. Somos bem capazes de apostar que eras tu, camarada Mário. Só que, desta vez, não teve piada. Acontece aos melhores. Até sempre.

DR

Para ti, Inês

Não é possível – e ainda bem – que os teus quase 10 anos compreendam o adeus de um pai. O meu tinha 47 quando partiu, vê lá tu. Eu já tinha barba e ainda hoje não entendo. Para mim, o teu pai, meu amigo gigante e camarada de todas as estações, mora, neste momento piegas, no verso de uma canção meia choramingas da Ana Carolina: esse lugar “onde cada homem é sozinho a casa da humanidade”. Esta frase é ele, sem tirar nem pôr. Mas este mundo, como já percebeste, não nos devolve apenas poesia. Por vezes, também faz da nossa vida prosa bruta. Mas deixemos isso por agora, querida Inês. Quando um dia te aventurares na descoberta mais profunda desse ser extraordinário que foi o teu pai, podes ler muito do que ele escreveu nesta revista e noutros lugares. Nesses textos, está tudo o que ele era. Podes também escolher procurá-lo noutros lugares. Mas aí prepara-te: é uma viagem longa, demorada. Porque somos muitos e vais encontrá-lo em todos nós. De qualquer modo, leva o tempo que quiseres, sim? Estaremos aqui. 
E se não estivermos, não deixaremos que o esqueçam. 
Um xi apertado. Miguel