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Investigadores portugueses aceleram crescimento de neurónios

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Descoberta poderá ter aplicação no tratamento de lesões da medula, doença de Parkinson ou esclerose lateral amiotrófica

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Quando se descobriram as células estaminais - células com potencial para se transformarem em todos os tecidos do organismo - uma das ideias imediatas foi aproveitar esta capacidade para regenerar tecidos, em particular o Sistema Nervoso Central, resolvendo pelo caminho problemas tão complexos e graves como a doença de Parkinson ou as lesões na medula.

Vários grupos de cientistas em todo o mundo têm vindo a desenvolver diferentes estratégias, que passam essencialmente pela injeção destas células quer na corrente sanguínea, quer na própria zona afetada pela doença.

Depois da expectativa inicial, percebeu-se que as células transplantadas, que deveriam promover a regeneração neuronal para reparar as lesões, não se fixam no local. Agora, um grupo de investigadores do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC), em colaboração com a Universidade do Minho, pode ter encontrado um caminho alternativo, recorrendo, mesmo assim, ao potencial regenerador das células estaminais.

O que os cientistas fizeram foi extrair um aglomerado de moléculas, designado de secretoma, produzidas pelas próprias células estaminais, no caso, do cordão umbilical. Quando aplicada esta "sopa" a um grupo de neurónios, em laboratório, verificaram que estes cresciam de uma forma muito acelerada. Em particular na zona do axónio, a parte da célula que serve de ligação e via de comunicação entre neurónios.

Várias patologias que afetam o Sistema Nervoso Central, que tem uma capacidade de regeneração inferior à do sistema nervoso periférico, passam precisamente pela capacidade de comunicação entre neurónios. Pelo que tudo o que seja melhorar ou acelerar esta via abre portas à correção destes problemas.

Ramiro de Almeida, cientista do CNC e coordenador do estudo, apressa-se a dizer que este ainda é um estudo muito preliminar, já que foi feito em células saudáveis, de ratinho, in vitro. Ou seja, o secretoma foi aplicado nos neurónios isolados. Também é preciso ainda verificar qual será o efeito destas moléculas que potenciam o crescimento do axónio em neurónios lesionados. Só depois se passará para os testes em ratinhos. "Este é um estudo ainda muito inicial", reforça o investigador. No entanto, apesar das cautelas, admite-se que esta é uma abordagem promissora, por ser mais fácil de aplicar e com menos riscos do que o transplante direto de células estaminais.

Se tudo correr como esperado e os resultados puderem ser transpostos para o corpo humano, a ideia é que possam ser aplicadas injeções de secretoma, quem sabe até extraído do próprio doente (o material usado nas experiências veio de um banco de cordão umbilical dos Estados Unidos), no local afetado. Sejam os neurónios dopaminérgicos, no caso do Parkinson, seja a região da espinal medula lesionada.

Este estudo, pioneiro, foi publicado na Scientific Reports e recebeu financiamento nacional e europeu. Em comunicado, explica-se que o crescimento dos neurónios foi observado num equipamento designado por câmara microfluídica (uma placa à base de silicone, com dois compartimentos unidos por túneis). Quando estimulados, os neurónios atravessaram os túneis, para chegar ao outro lado, como se fossem as raízes de uma planta. Que se regenera.