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O que levou um jornalista, um meteorologista, um maestro, um político e um guia a trocarem as grandes cidades pelo interior?

Sociedade

O que têm em comum um jornalista, um meteorologista, um maestro, um político e um guia turístico? Todos reinventaram as suas vidas longe das grandes cidades, mantendo contacto com o mundo inteiro

Luís Pedro Cabral, Florbela Alves e Sara Rodrigues

Simon Carr, um dos mais reputados jornalistas britânicos, passou a vida a viajar. Até que um dia se cruzou com um pedaço de paraíso numa aldeia beirã e vendeu tudo o que tinha para se mudar para Portugal

Simon Carr, um dos mais reputados jornalistas britânicos, passou a vida a viajar. Até que um dia se cruzou com um pedaço de paraíso numa aldeia beirã e vendeu tudo o que tinha para se mudar para Portugal

Valter Vinagre

Aldeia de Medelim, concelho de Idanha-a-Nova, Beira Baixa. Pelo adro da igreja, deixando para trás o casario, fica a Quinta das Polderas, à paisana na natureza. Há uma enorme vedação de rede metálica, onde as trepadeiras já iniciaram a sua escalada, e uma câmara de videovigilância, que espreita lá em cima, mas que parece tão inerte quanto o tempo naquele lugar. Há um longo caminho de terra batida que conduz a uma casa de granito. Lá dentro, no estado de desarrumação natural de quem vive só, há papéis espalhados pelas mesas, peças de roupa a servir de tapete. Na cozinha há um arquipélago de saquetas de chá, pratos amontoados no lava-loiças, um copo de salto alto com resquícios de vinho tinto ao lado de uma lata de Dum Dum. Há livros por todo o perímetro, a cama desfeita, uma mala de viagem aberta por cima de um baú de madeira, chinelos emparelhados com sapatos de talha clássica, umas galochas recheadas de lama solidificada, com meias penduradas no cano, um carregador do telemóvel a servir de separador no dicionário Inglês/ Português. O ecrã do computador apresenta uma página em branco, metáfora perfeita para uma nova estação na vida de alguém.

“Por favor, perdoem a desarrumação, a senhora da limpeza está de folga”, diz, ativando o barómetro do humor. Não há senhora da limpeza. Não lhe tinha apetecido fazer limpezas e pronto. É uma prerrogativa de quem é dono e senhor do seu espaço. Em relação ao tempo, ainda não estava suficientemente esclarecido quanto aos seus direitos de propriedade, embora tenha feito deste usucapião. Não fazia sentido trocar de vida para manter no campo a pressa civilizacional que o fez abandonar o bulício londrino. Não há luxos no campo. O luxo é o campo.

Encontrou em Portugal o que procurou a vida inteira, sem saber. Um lugar onde respira. Na estada mais longa que fez em Medelim, quase um ano sem regressar a Londres, sentiu a diferença mal aterrou na capital inglesa. “Mesmo para um fumador passivo como eu, que adora inalar o fumo dos outros, senti como nunca a poluição da cidade.” Uma parcela do território de Idanha-a-Nova integra o Parque Natural do Tejo Internacional, parcialmente classificado pela UNESCO como Reserva da Bioesfera. “O património natural, arqueológico e cultural do concelho é riquíssimo. Vou passar o resto da minha vida à descoberta.”

A “sua” aldeia, percebeu depressa, tem uma velocidade própria. E ele não tem qualquer intenção de desafiá-la. Gosta de estar sozinho. E gosta ainda mais da forma como os cerca de 200 habitantes da aldeia sabem respeitar isso.

Simon Carr conhece pouco de Portugal. 
E a forma como descobriu o seu lugar não tem lá muito de romântico. “Queria um terreno com um rio. Não é fácil encontrar um sítio assim... Procurei por toda a Europa. E acabei por encontrar este lugar na internet. Apaixonei-me online. Foi como encomendar uma noiva pela net. Achei este sítio absolutamente mágico. E não me enganei. Em 2013, quando aqui cheguei, não havia nada. Mudei para cá em fevereiro e instalei-me numa tenda medieval.” Um inglês não diz isto de ânimo leve: “O frio aqui tem dentes.” E ele tomava banho no rio. Demorou meio ano para construir a sua casa: “Um autêntico recorde para quem constrói um sonho de fresco.”

Simon Carr é uma espécie de “lord” na Câmara dos Comuns dos jornalistas. Não passam de rumores, isso de ter escrito os discursos da rainha de Inglaterra. Sabe-se lá como, essa versão correu em Londres e encontrou forma de se propagar no seu refúgio beirão. Nem que fosse para render jus ao jornal que representa, essa seria sempre uma impossibilidade. Mas, em tempos, é verdade que escreveu os discursos do primeiro-ministro da Nova Zelândia. Uma longa história, que decorreu nos antípodas. Um dia, deu consigo viúvo, com dois filhos para cuidar. Só encontrou coragem para escrever sobre isso uma vida depois, quando os seus filhos já eram adultos e ele se tornou escritor. Simon Carr já envelheceu em muitas partes do mundo. Mas na Nova Zelândia morreu. O homem que era já não existe mais.

Agora, enquanto passeia serenamente pela sua propriedade beirã, ainda não sabe se foi ele quem escolheu este sítio ou se foi o sítio que o escolheu a ele. Desfez-se de tudo o que tinha em Inglaterra, deixando apenas laços sociais em serviços mínimos. Já viveu em variadíssimos meridianos, mas poucas vezes se mudou. Nunca se muda verdadeiramente quando no ponto de partida há um lar para regressar. Isso, por muito longa que seja a viagem, é viajar. Mudar é outra coisa. Pela primeira vez na vida, ele mudou. E quanto mais tempo passa, mais forasteiro se sente. Descobriu que há nisso qualquer coisa maravilhosa, em que todos os dias se aprende. Está isolado da aldeia, assim como a aldeia está isolada do mundo que ele deixou para trás. Está assim por que quer. Tem a aldeia a um passo e o mundo a um clique. E usa essa possibilidade como quem recorre a um kit de primeiros-socorros.

Quando se mudou para Medelim, em 2013, o espaço estava em bruto. Hoje, tem lá tudo o que precisa e mais isto: o rio, os pássaros, os cheiros e os sons da natureza. Cá fora, no telheiro, junto ao barbecue, colocou a sua velha poltrona – com vista para uma “sala de estar” com dois hectares.

A VIDA QUE DEU UM FILME

“Quero morrer para estar com a mamã.” 
A frase, na boca de uma criança de cinco anos, enche os olhos do pai de lágrimas, tal como de quem assistiu à cena, no escuro do cinema, em 2009. A frase original, porém, é de 1994. Foi o filho mais novo de Simon Carr quem lhe disse isto, quando estavam os dois perdidos na Nova Zelândia, um órfão, o outro viúvo. The Boys Are Back, filme de Scott Hicks, o mesmo realizador de Shine, que valeu um Oscar a Geoffrey Rush, é o filme da vida do jornalista e dos seus filhos. Refere-se sobretudo ao período em que se mudou para os arredores de Auckland, em processo de separação de Londres e da sua primeira mulher, com quem ficou o seu filho mais velho. A experiência da fundação do Independent tinha-lhe dado quase um “livre-trânsito” para trabalhar em qualquer parte do mundo. Carr passou a escrever no Metro, o maior jornal do país, e na National Business Review, revista marcadamente política.

Foi também na Nova Zelândia que decidiu colocar o jornalismo em pausa. “Estive na fundação de um partido, o que foi extraordinário, pois conseguimos seis deputados nas primeiras eleições.” Aprendeu muito sobre a política neozelandesa (o suficiente para ser o responsável pelos discursos do primeiro-ministro Jim Bolger, entre 1992 e 1994). Aprendeu, sobretudo, que a política é igual em todo o mundo. “Os primeiros-ministros têm mais a ver com os outros primeiros-ministros do que com os seus próprios ministros.”

Apaixonou-se. Casou de novo, mal se consumou o seu divórcio. Foi o amor da sua vida, que não terminou quando a morte decidiu separá-los. Seis anos de casamento, quatro de sofrimento com um diagnóstico de cancro, que se revelou terminal. O casal ainda se mudou para Londres, em busca de tratamento. Mas os médicos nada puderam fazer. A sua mulher morreu em 1994.

Alexander, o filho mais novo, tinha cinco anos. Hugo, seis anos mais velho, ainda vivia com a mãe, em Londres. Um dia, Simon recebeu uma chamada telefónica da sua ex-mulher, dizendo-lhe que Hugo se sentia abandonado na capital inglesa. E foi assim que na Nova Zelândia se formou a nova família Carr, constituída por um homem, um menino e um rapaz. De certa maneira, estavam os três desenraizados. Decidiram não ter regras, e assim cresceram e refizeram as suas vidas. Os rapazes gostaram muito do livro que o pai escreveu sobre esses tempos mas o filme “perturbou-os imenso”, conta Simon Carr. 
O ator Clive Owen assumiu o papel principal. “Pelo menos, fui bonito uma vez na vida”, graceja o jornalista. Hoje, os rapazes já são homens e Simon já é avô. Alexander vive em Inglaterra e quer ser escritor. Hugo trabalha em publicidade, em Los Angeles.

ESTRANGEIRO DESDE SEMPRE

Simon Carr tornou-se nómada pela via diplomática. Nasceu britânico, no sul da Índia, na antiga cidade de Madras, hoje Chennai. 
O seu pai trabalhava nos Negócios Estrangeiros, a vida recomeçava de três em três anos. O Chipre foi o país que mais marcou a sua infância. Viveu em território instável e perigoso, em contraste com a sua beleza natural. Nesta última parte, nota parecenças com a atual morada. “Talvez isto tenha influenciado a minha escolha mais do que penso.”

Viver como saltimbanco tem muitos prós, que só mais tarde se revelam. E muitos contras, que ocorrem em tempo real. “Passei grande parte da minha vida no estrangeiro. Que me lembre, só fiz amigos quando fui estudar para Inglaterra, aos 10 anos. Nem posso dizer que tenha sido um regresso. Foi como se tivesse emigrado para o meu país.” O mesmo aconteceu quando os seus filhos decidiram deixar a Nova Zelândia para viver em Oxford.

Ele conhece bem a sensação de ser estranho num lugar. Quando os pais decidiram parar o trânsito da sua vida, compraram uma propriedade rural numa pequena aldeia inglesa, onde a maior parte das casas eram habitadas pelas mesmas famílias há séculos. “As pessoas acolhem-nos, mas levam muito tempo até nos considerarem de lá. Uma vida não chega, são necessárias gerações. Em Medelim é um pouco assim. Tenho a sensação que toda a gente se conhece desde sempre. Quando era miúdo, isto incomodava-me. Agora, que sou um cidadão idoso, digamos assim, acho reconfortante. Tenho amigos portugueses e estrangeiros que me visitam, mas passo muito tempo na minha companhia. Só me sinto sozinho quando estou numa grande cidade.” A sensação de desconforto revela-se também quando pega no carro, para se deslocar no concelho de Idanha-a-Nova, o quarto maior do País. “Parece que estou sempre em contramão.”
Simon Carr ainda não sabe explicar o feitiço deste sítio a que passou a chamar casa. “Tem algo de rude. Imensamente belo. O interior de algo ou de alguém é quase sempre a sua parte encantada.” Eis a razão da sua mudança. Um certo tipo de paz, que só no interior se encontra.

O meteorologista Vítor Baía tem como clientes vários alpinistas internacionais. As suas previsões ajudaram João Garcia a completar a subida de nove das maiores montanhas do mundo

O meteorologista Vítor Baía tem como clientes vários alpinistas internacionais. As suas previsões ajudaram João Garcia a completar a subida de nove das maiores montanhas do mundo

Rui Duarte Silva


Da Guarda para os Himalaias

Podia ser este o slogan para vender uma viagem à medida do sonho de alguém. Mas não é, embora, por paradoxal que possa parecer, tenham uma semelhança: a Guarda é a cidade portuguesa mais alta e, nos Himalaias – a cordilheira que passa por cinco países –, está a montanha mais alta do mundo, o Evereste.

É sentado na sala da sua casa, bem no centro da cidade da Guarda, que Vítor Baía dá indicações meteorológicas para os alpinistas que desafiam as alturas para pôr as bandeiras nos cumes mais elevados.

O homem que começou por ser jogador de futebol – era até guarda-redes como o seu homónimo e, por pouco, não foi mesmo o primeiro Vítor Baía do Porto, já que Pinto da Costa chegou a falar com ele –, que desistiu dos relvados para começar a galgar montanhas e passou, depois, para a instrução de parapente (sempre com uma “primeira” profissão como vendedor de seguros), é uma espécie de guru da meteorologia para alguns dos mais conhecidos alpinistas do mundo.

Foi ele quem “guiou” João Garcia na conquista de nove das 14 montanhas mais altas (8 000 metros) do planeta. Curiosamente, foi com Vítor que o alpinista português pegou pela primeira vez numa corda para escalar 
– um anúncio no Diário de Lisboa, no início dos anos 1980, levou, aos 15 anos, João Garcia, de bicicleta, até à serra da Estrela, onde Vítor se propunha fazer um acampamento com escalada. Nessa altura, estava ainda longe de imaginar que, um dia, a previsão do tempo passaria a ser a sua profissão. Dez nos depois, quando “a meteorologia só metia barretes”, conta, e “precisava de saber se havia vento ou não”, para poder voar de parapente, é que se fez um clique. Viu uma carta meteorológica e o surgimento da internet fez o resto.

Começou a estudar e fez “a aprendizagem ao contrário”, já que se iniciou pela parte prática para, depois, perceber que a teoria fazia todo o sentido.

Três ou quatro sites com imagens de satélite, principalmente o Air Resources Laboratory (site americano) chegam para fazer as previsões para qualquer parte do mundo.

Agora, Vítor Baía, 58 anos, nascido e criado na Guarda, “faz” cerca de 10 expedições por ano. A sua fama foi galgando fronteiras, através do passa palavra dos alpinistas, e são cada vez mais os que o procuram para subir montanhas. Basta-lhe saber as coordenadas do sítio onde estão e se vão subir pelo lado norte ou sul. Depois vai enviando mensagens de 160 carateres através de um site de sms para telemóveis por satélite. “A ‘única’ coisa que querem saber é o ‘dia de cume’, gíria para dizer ‘podem subir hoje que não há problema’”, conta.

A paixão pela meteorologia é tanta que começou a colocar as previsões do tempo para a serra da Estrela no seu Facebook e, há dois anos, fez um site onde dá as indicações para várias regiões do País. O objetivo já está traçado: “Quando chegar as cinco milhões de visualizações” no http://vitorbaiameteo.pt , o que não está longe de acontecer, vai fazer uma aplicação para telemóveis. Por enquanto, continua a ser o “senhor do tempo” na Guarda. Não há quem se cruze com ele que não lhe peça informações. “Quando é que posso calçar as sandálias?”, ouvimos no restaurante. “Aquela senhora só põe a roupa da criança a lavar depois de ver as suas previsões no site”, conta, a rir, a empregada. O quotidiano deste meteorologista autodidata é passado ao computador. “Trabalho 365 dias por ano.” As rotinas são apenas interrompidas quando lhe pedem ações de formação, como as que deu às brigadas de montanha da GNR da serra da Estrela, a vários colaboradores da Brisa (por causa da neve nas terras altas) ou a responder a emails das mais variadas associações que organizam corridas. “Nunca vi tantas minimaratonas e maratonas...”, graceja. 
E, quase no topo da sua lista de pedidos, estão as previsões para o dia do casamento: “Toda a gente quer saber se está sol no grande dia.” Ele responde sempre. Não há nada que lhe dê mais prazer do que a meteorologia.

Jorge Coelho criou a Queijaria Vale da Estrela na sua terra natal, onde passa hoje metade da sua vida. Depois de Espanha, Inglaterra 
e Arábia Saudita, 
vai exportar para 
o Luxemburgo, França e China

Jorge Coelho criou a Queijaria Vale da Estrela na sua terra natal, onde passa hoje metade da sua vida. Depois de Espanha, Inglaterra 
e Arábia Saudita, 
vai exportar para 
o Luxemburgo, França e China

Lucília Monteiro

Ao meu avô Raul

Político dos sete costados, socialista feroz, gestor de uma das maiores empresas de construção (Mota Engil), consultor, comentador na Quadratura do Círculo e, agora, empresário dono de uma queijaria. Aos 62 anos, Jorge Coelho voltou a reviver a infância. Foi com o avô Raul Coelho que aprendeu a dar palmadinhas nos queijos para ver se são bons. Nessa altura, tinha então cinco anos, o avô percorria as casas dos pastores da zona da serra da Estrela à procura de queijos. Comprava os que achava melhores e depois curava-os na sua queijaria, em Contenças, perto de Mangualde. O tratamento que lhe dava, virando e lavando-os todos os dias, até o processo de cura estar feito chama-se affineur (afinador de queijos). Depois vendia-os aos melhores hotéis do País e a grandes retalhistas.

O negócio não teve continuidade familiar mas, há cerca de dois anos, Jorge Coelho pôs-se a pensar que gostava de fazer qualquer coisa pelo desenvolvimento da região onde nasceu. Em nove meses montou a fábrica Queijaria Vale da Estrela, em São Cosmados (Mangualde). Deu emprego a 14 pessoas e, em novembro, saíram dali os primeiros Queijos da Serra DOP. Todos os dias chegam 600 litros de leite de ovelha Bordaleira, a que, depois de analisado, se junta apenas sal e flor de cardo para que coalhe. O amanteigado, o curado com colorau e o requeijão já se vendem nas grandes superfícies, em lojas gourmet e também no exterior. Para já Espanha, Inglaterra e Arábia Saudita, embora Luxemburgo, França e China estejam no mapa a curto prazo.

“É uma homenagem que faço ao meu avô e uma contribuição para que a imagem da queijeira seja dignificada”, diz, enquanto acede a fazer uma visita guiada pela fábrica. Com esta paixão pelo queijo, agora sempre que viaja procura livros sobre queijos para a coleção que iniciou. “O Pacheco Pereira é que me tem ajudado muito nesta parte”, confidencia. Para que a fábrica não feche durante o verão – altura em que as ovelhas não dão leite porque os pastos estão mais secos –, irá começar a produzir compotas de abóbora, mirtilos e maçãs da região. Jorge Coelho divide-se entre Lisboa, onde continua a ser consultor e comentador, e a vida em Mangualde, onde passa três dias por semana. “Tenho de ir a Lisboa ganhar para gastar aqui”, diz, a rir.

Manuel Franco nasceu em Lisboa mas hoje diz-se “serrano”. Será um dos guias mais experientes na serra da Estrela e, apesar de conhecer todos os recantos, não se cansa de os mostrar a quem chega de fora

Manuel Franco nasceu em Lisboa mas hoje diz-se “serrano”. Será um dos guias mais experientes na serra da Estrela e, apesar de conhecer todos os recantos, não se cansa de os mostrar a quem chega de fora

Rui Duarte Silva

O ‘lobo’ da montanha

Louco por escalada, Manuel Franco trocou Lisboa pela serra da Estrela aos 18 anos. Aos 37, é um dos guias de animação turística que melhor conhece o enorme maciço granítico português.

Escuteiro desde os seis anos, praticante de canoagem e de escalada desde a adolescência, cedo percebeu que, tal como o Britango, uma das aves que o leva tantas vezes a pegar nos binóculos, o ar livre era o seu habitat. Quando se candidatou à universidade, nos anos 90, não hesitou em trocar Lisboa pela Covilhã, onde vive atualmente. “Era das poucas coisas que sabia: queria estudar Desporto, ir para um local de baixa densidade e para a montanha, que me atraía desde miúdo.”

A serra não era, para ele, desconhecida. Desde os 12 anos que “convencia o grupo de escuteiros a acampar” na Estrela, duas vezes por ano – no verão a fazer caminhadas e no inverno a fazer montanhismo e corredores de neve. Já estudante da Universidade da Beira Interior, atravessava o Parque Natural desde a Guarda a Loriga “no mínimo tempo possível”, ou saía da Covilhã “e corria para a serra com um amigo”, só com uma garrafa de água e um pacote de bolachas. “O que eu queria era estar ali.”

Acabado o curso, foi no turismo que encontrou o melhor aliado para concretizar a sua grande paixão: “Contribuir para o desenvolvimento das comunidades de montanha.” Atualmente, é animador turístico na empresa A2Z Adventures – além de colaborar com outras entidades da região e de ter passado quatro anos a trabalhar na Estância de Ski – organiza passeios a pé e de bicicleta, mas, sobretudo, experiências “a partir do património”. É que, para Manuel Franco, uma visita turística é mais do que conhecer uma cultura, é perceber o que se ganha dessa cultura para a vida. “O que me trouxe para a serra não foi a visão romântica das aldeias e do pastor, isso descobri só depois de cá estar. O que me apaixonou foi a ligação à natureza que me é incutida desde novo, e reconhecer na serra da Estrela uma diversidade que não encontrava em Lisboa”, explica. “Na realidade, nunca me senti urbano.” Poucas vezes regressa a Lisboa e, quando sai da Covilhã, de mochila às costas, para percorrer as cordilheiras da Europa, é sempre à Estrela que regressa. “Sou serrano, e com orgulho.”

O maestro irlandês Brian MacKay perdeu-se de amores por Ferreira do Zêzere e criou um festival internacional de música clássica e canto lírico na região

O maestro irlandês Brian MacKay perdeu-se de amores por Ferreira do Zêzere e criou um festival internacional de música clássica e canto lírico na região

Imperial com frango assado

Brian MacKay, 55 anos, deixou definitivamente as pints de cerveja irlandesa. Gosta mesmo é das nossas imperiais frescas e… não, não é bacalhau. “Adoro os frangos daqui. Toda a minha família adora o frango assado”, atesta, divertido. A família são a mulher, a cantora lírica de origem brasileira Juliana Mauguer, a filha desta, e os filhos de ambos de 10 anos, 9 e 7 – os três já nascidos em Portugal. E o que faz um maestro irlandês em Ferreira do Zêzere? “Andámos por aí à procura de um sítio com boa qualidade de vida para criar filhos, com paisagens bonitas e água”, conta MacKay. Encontraram, há sete anos, junto ao rio Zêzere, na pequena aldeia de Montes, a casa que queriam e reconstruíram-na à sua medida. O maestro é o diretor artístico do Zêzere Arts, um festival que congeminou com o vereador da cultura, em 2011, e que leva a Tomar, Ferreira do Zêzere e Vila Nova da Barquinha dezenas de músicos, da área clássica e do canto lírico, para, durante 15 dias, fazerem concertos em monumentos nacionais como o Castelo de Almourol ou o Convento de Cristo. “Muitos músicos estão altamente interessados neste festival. Gostam de fazer concertos numa atmosfera mais relaxada.” MacKay encontra, “surpreendentemente”, semelhanças entre Dublin, de onde é natural, e Ferreira do Zêzere. Claro que cá há mais sol, mas o que o fascina é o facto de “a atitude perante o trabalho” ser semelhante, e “a maneira de viver” também. No seu futuro vislumbra muito frango assado, já que não pensa sair de Portugal. A língua mãe dos seus filhos já é o português (embora se fale inglês em casa), e a intenção é desenvolver ainda mais o festival para outras terras vizinhas, fazendo soar noutros monumentos do Interior os acordes de músicos internacionais.

Reportagem publicada na VISÃO 1265 de 25 de maio