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A incrível história de Emília Maria, a "implacável mulher-homem"

Sociedade

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Mulheres Fora da Lei reúne as histórias de grandes criminosas portuguesas. Como a de Emília Maria, que em 1915 se vestiu de homem para atirar a sangue-frio e aqui se reproduz

Anabela Natário

José Lopes Alenquer era operário fabril, no Beato, em Lisboa. Ele e mais duas irmãs. A fábrica funcionava nas cocheiras e os escritórios ocupavam os salões nobres do edifício que é hoje conhecido por Palácio da Mitra, dado o asilo ali instalado em 1933. Por altura do caso dos Alenquer, cinco anos passados sobre a implantação da República, desenvolvia-se ali uma mistura de indústrias.

José e Emília trabalhavam no isolamento de garrafões com corticite, sobretudo. Ele estava com 28 anos e há sete que arranjara emprego na fábrica da Rua do Açúcar. E outro José, o Lavrador, passara-lhe à frente — era mais novo do que ele três anos, tinha menos dois de casa, no entanto, ganhara o cargo de encarregado por compensação ao “seu muito zelo pelo serviço”, como refere 
O Século quando conta, no dia seguinte à tentativa de assassínio, que a operária de uma fábrica se vestiu “de saloio e foi disparar um tiro no encarregado”, o qual, segundo “várias” colegas de Emília, tinha “por hábito exercer certas vinganças sobre o pessoal”.

Quinta-feira, 4 de fevereiro, dia em que os jornais preparavam notícias sobre o novo plano de guerra alemão e os violentos combates nas margens do Vístula, na Europa oriental, o mal-estar entre o encarregado e o operário Alenquer agudizou-se. Andavam ambos a levar o vasilhame para um depósito: Alenquer puxava a carroça e Lavrador controlava as operações. A dada altura, aborrecido com o trabalho pesado e a atitude do chefe, o irmão de Emília recusou continuar.

À época, estava em marcha um movimento contra “o vexame infligido a criaturas humanas, metidas nos varais de uma carroça”, como se via em todo o lado, “a cada passo”. A 31 de janeiro, as “associações de condutores de carroças e empregados menores no comércio e indústria”, reunidas em assembleia magna, tinham aprovado uma moção de descontentamento por a Câmara de Lisboa tardar em optar pela proibição de “tão desumano trabalho”.

Enquanto não era proibido, os donos da fábrica e o encarregado podiam obrigar José Alenquer a obedecer-lhes. O rapaz, porém, não estava pelos ajustes. Naquele dia de chuva intensa, cruzou os braços, José Lavrador participou o facto aos patrões. A ameaça saiu pronta: se não cumprisse as ordens ia para a rua. O operário cedeu, retomou o trabalho, contudo, o caso espalhou-se, chegando pouco depois aos ouvidos de Emília Maria.

Os Alenquer não gostaram de passar a ter um chefe mais novo e, ao que parece, não foram só eles que reagiram mal, só que José foi o primeiro a tomar uma atitude. “Houve uma questão séria, ficando aquele em riscos de ser despedido”, dizia O Século. Emília Maria ficou desesperada. Só as duas manas a trabalhar não conseguiriam sustentar os três que moravam juntos na Rua da Bela Vista ao Grilo.

O País atravessava uma grave crise, dados os condicionamentos da guerra que perturbava o “velho mundo” e só há de terminar em 1918, com oito milhões de mortos, entre os quais mais de dois mil portugueses. Foram tempos duros. Os três irmãos contavam apenas uns com os outros e com o fruto do seu trabalho. “Ele desgraçou-me”, dirá Emília referindo-se ao encarregado, nessa noite, no Governo Civil, depois de a fazerem mudar de roupa, conforme relato do Diário de Notícias.

O salário do operariado oscilava entre os 80 centavos e os dois escudos e quarenta por semana, em Lisboa, porque fora da capital a féria diária era mais baixa. Um mês de trabalho, mesmo pago pelo topo da tabela, mal chegaria para ir arrancar um dente ou comprar um fato nos saldos da Casa do Povo de Alcântara. O preço do pão, cujo aumento provocará uma série de motins, estava a oito e nove centavos, nesta altura em que o Banco Comercial de Lisboa distribuía dividendos de cinco escudos e cinquenta centavos por ação. Segundo as notícias, na quinta-feira, dia 4, Emília, que parecia ser uma rapariga decidida, cheia de genica, pronta para o combate, terá saído da fábrica a correr rumo a casa, a cerca de dez minutos de caminho. Chegou, trocou de roupa, escolhendo um fato do irmão, enterrou um chapéu na cabeça, agarrou num revólver e saiu de novo em direção à Rua do Açúcar. Ali, aguardou que o chefe aparecesse, após terminar a faina na fábrica.

Quando Lavrador passou o portal para a rua, não andou muito mais, Emília saltou-lhe ao caminho, de arma em punho, e desfechou-lhe um tiro. E não terá disparado mais porque a detonação despertou alguns transeuntes que tentaram logo apanhar o agressor. Entretanto, apareceu um polícia e o suspeito foi dominado, não despertando quaisquer desconfianças quanto ao género. Foi uma surpresa quando os capturadores verificaram tratar-se de uma mulher. “Enquanto o ferido seguia para o hospital, a criatura era levada para a esquadra, averiguando-se ali tratar-se de uma irmã do Alenquer, que, para o vingar, se vestiu com um dos seus fatos e foi esperar o Lavrador”, contou O Século.

Não era muito invulgar que mulheres se mascarassem de homens, e vice-versa, para cometer crimes ou por outra razão qualquer. No final do século XIX e início do XX, volta não volta, surgiam notícias de prisões, normalmente intituladas “mulher-homem”. Aconteceu com Maria dos Prazeres presa por se confundir com um homem, logo suspeita de pilha-galinhas. Luísa da Gama Lima foi “capturada” quando trazia ao colo um filho, recém-nascido, para que as autoridades averiguassem “quais os motivos que levaram a mulher a trocar os trajos femininos pelos masculinos”.

No caso de Emília Maria Alenquer, a troca de roupa destinou-se de facto à prática de um crime. Quis vingar o irmão e deu um tiro no chefe, que no próprio dia foi pensado no Hospital de S. José e mandado para casa, porém, horas depois piorou e teve de voltar para ficar internado.

Com as notícias sobre a Grande Guerra, os problemas do quotidiano, a inflação, as quedas do Governo e uns crimes de maior dimensão, fica-se sem saber se o encarregado morreu, sobreviveu ileso ou ficou aleijado, como se dizia no que respeitava a deficiências. Podemos apenas dizer que a acusada ficou presa na cadeia Aljube e os irmãos continuaram a trabalhar na fábrica.