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Depois dos incêndios: O "mal" de estar vivo

Sociedade

Lucília Monteiro

A culpa do sobrevivente é um problema sério que exige primeiros socorros psicológicos. O que está a ser feito depois de tudo o fogo levar?

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

Como se renasce das cinzas e se segue em frente? Para lá do pânico e das ajudas possíveis, fica o vazio dos que tentaram e não conseguiram salvar quem estava perto. Para eles, impotentes e enlutados, a culpa não morre solteira. Sejam familiares próximos ou profissionais de ajuda em cenário de emergência, têm pela frente um vazio para digerir, assombrado por memórias traumáticas e sentimentos de impotência. No rescaldo da catástrofe, o mal-estar incapacitante atormenta dias e noites. “Porque não fui eu que lá fiquei?” “Se eu tivesse feito de outra maneira isto não acontecia”.

Passar pelo inimaginável é uma coisa. Outra é carregar uma responsabilização excessiva e culpar-se por ter ficado a salvo mas ter falhado um salvamento. Chama-se a isto o Síndrome do Sobrevivente, expressão cunhada há quase um século, por um psicanalista alemão que conseguiu fugir de um campo de concentração. Bem conhecido dos profissionais de saúde que trabalham em contextos de emergência (atentados, acidentes graves, desastres naturais), este mecanismo de defesa faz parte da perturbação de stresse pós-traumático e explica-se de forma simples: responsabilizar-se e culpar-se (punir-se) por algo que não se conseguiu fazer ou por pelo que se fez mas foi insuficiente para impedir o desfecho fatal transmite uma falsa sensação de controlo, que é preferível ao desespero puro e duro, ao desamparo associado ao trauma. Carregar a culpa torna-se, assim, uma forma de encontrar sentido, ainda que temporariamente, onde ele não existe.

Quem garante apoio psicológico?

Para quem sobreviveu ao inferno onde perdeu os seus e todos os bens que tinha, de pouco serve saber o que falhou e quem falhou, desde a Autoridade Nacional da Proteção Civil e o INEM ao governo. No rescaldo da tragédia de Pedrógão Grande, que causou 64 mortos, 160 feridos e danos de toda a ordem que ainda estão a ser apurados e- espera-se que sejam analisados pelo executivo nos próximos dias - os lamentos incidem na falta de apoio psicológico às vítimas e aos profissionais e voluntários que estiveram no terreno a combater as chamas e a prestar auxílio. Segundo a Ordem dos Psicólogos (OPP), que dispõe de uma bolsa de mil profissionais formados em crise e catástrofe, foram apenas solicitados "20 profissionais para intervir na estabilização emocional das pessoas afetadas, prestar primeiros socorros psicológicos no terreno [só entre os dias 20 e 23] e assegurar o encaminhamento em fases posteriores”.

Concluído o trabalho das equipas de emergência (da Cruz Vermelha aos fuzileiros da Armada Portuguesa) segue-se uma nova fase: a do encaminhamento e acompanhamento no médio prazo. Serão legítimos os receios de que estas pessoas sejam esquecidas? O nosso país é dos que, na Europa, tem um nível elevado de perturbações psicológicas e problemas de acesso às psicoterapias, sobretudo no sistema de saúde público. Basta lembrar que no auge da tragédia, no passado dia 23, havia mais de 800 pedidos de apoio psicológico, para profissionais de ajuda incluídos. E que no agrupamento de centros de saúde (ACES) do Pinhal Interior Norte, que cobre os concelhos afetados pelo incêndio, só existe um psicólogo.

“Não desistam”

A Direção Geral de Saúde acaba de lançar, em conjunto com a OPP, o guia “Como lidar com um desastre natural”. O documento que vai ser distribuído em centros de saúde, escolas e estabelecimentos comerciais, apresenta orientações a seguir em função das faixas etárias e apresenta informações úteis sobre como pais, cuidadores e a comunidade podem proceder em situações de crise e catástrofe. A par desta iniciativa, Francisco George fez saber que as 14 unidades de saúde dos três concelhos mais afetados (Figueiró dos Vinhos, Pedrógão Grande e Castanheira de Pera) estão a elaborar
um plano local que contempla o reforço de psicólogos e de médicos psiquiatras. O diretor geral de saúde adverte para os perigos da automedicação e esclarece: “É completamente desaconselhado tomar psicofármacos que tenham em casa por iniciativa própria”. Lembrando que apenas os médicos psiquiatras podem prescrever, mediante um diagnóstico, e nos casos mais graves, Francisco George adianta que o apoio psicológico após a fase de emergência - acompanhamento com sessões de psicoterapia - serve para “reviver o trauma sem tanto stresse”. E lança o apelo: “Não desistam, mobilizem energias para construir e seguir em frente.”

Há vida além do trauma

Conheça os sinais de stresse de quem sobrevive ao trauma e o que pode fazer

Sintomas:

- Confusão mental
- Sentimento de insegurança
- Hipervigilância ou apatia
- Desligamento dos outros
- Culpa injustificada e intensa

Como lidar com a culpa (e a angústia) por estar vivo (e outros não)

- Admitir a perda sem responsabilizar-se por ela
- Permitir-se sentir dor e tristeza associados ao luto
- Honrar e celebrar o legado de quem não sobreviveu
- Cuidar de si (inclui permitir-se ter apoio profissional)
- Valorizar o facto de estar vivo e ser útil a quem fica

Consulte o Guia "Como Lidar Com Um Desastre Natural"