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Histórias de solidão e de distância compiladas na Enciclopédia dos Migrantes

Sociedade

Entre setembro e dezembro, a Enciclopédia dos Migrantes vai circular pelas bibliotecas municipais e a partir de janeiro de 2018 fará parte da coleção permanente do Museu da Cidade, de Lisboa

DR

França, Espanha, Portugal e Gibraltar juntos em projeto que reúne 400 cartas, escritas em 74 línguas maternas, com o objetivo de mudar a perspetiva do olhar Ocidental sobre as migrações

Há três anos, Paloma Fernández Sobrinho, uma artista espanhola a morar em França, no bairro Blosne em Rennes, em conjunto com a associação L’âge de la tortue fez um trabalho de investigação e artístico, no qual explorou o conceito de escrever uma carta a quem ficou no seu país de origem. Assim nasce a Enciclopédia dos Migrantes, como um projeto transnacional que reúne uma rede de oito cidades da costa atlântica da Europa (Brest, Rennes, Nantes, Gijón, Porto, Lisboa, Cádis e Gibraltar), locais escolhidos por serem mais marítimos e de transição de migrações. Enquanto no Porto, a parceria foi feita com a Associação de Solidariedade Internacional e a Câmara Municipal, em Lisboa, coube à Associação Renovar Mouraria colaborar no projeto. Há dois anos, Filipa Bolotinha da Renovar Mouraria, começou por escolher 50 migrantes e convidá-los a participar nesta obra. Foi preciso fazer o acompanhamento das pessoas na redação da carta e depois na tradução da língua original para o português corrente. Assim, resultaram relatos íntimos, dirigidos a familiares ou amigos que tivessem ficado no país de origem de cada migrante. Contaram o que quiseram, mas muitos acabaram por fazer o balanço do seu percurso. “Uma das preocupações do projeto é ter histórias o mais diversas possíveis e não ser uma representação miserabilista da emigração e estereotipada”, explica Filipa Bolotinha. Para isso, deram alguns exemplos de cartas já escritas, incluindo a de Paloma Fernández Sobrinho, direcionada à avó que já morreu e reflete o facto de ela não ter conseguido ir ao seu funeral, pedindo desculpa por isso.

Filipa teve o cuidado de explicar que era uma forma de partilhar a sua história, juntar-se a outras 399 pessoas, e que o conjunto destas histórias podem mesmo contribuir para que a maneira como se olha para as migrações na Europa mude. “Eles tinham o poder de contribuir para uma mudança na perspetiva do olhar comum sobre as migrações”, acrescenta. E mais do que expostos estas pessoas “sentiram-se honradas” com o convite, mesmo que tenham desvalorizado a sua história, dizendo que não tinham nada de interessante para contar.

Das histórias contadas nas cartas surgem outras histórias, como a de um rapaz que conseguiu encontrar o irmão que não sabia onde estava ou de uma rapariga que fez as pazes com os pais com quem estava zangada. “Claramente, escrever a carta foi um momento de reflexão e muitas vezes foi o fechar de um ciclo, retornar ao passado, aceitando-o. Para alguns foi uma despedida que não tinha sido feita ou uma reconciliação”, exemplifica Filipa Bolotinha. “Este projeto tem a unicidade de criar impactos micro locais muito importantes na vida de cada um, mas também de criar impactos globais, porque é muito mais do que uma simples recolha de cartas.”

Estas não são todas histórias tristes, nem com finais dramáticos. “O que está na origem deste projeto é olhar para a migração de uma perspetiva diferente. Parte da solidão e da distância”, explica Filipa. A condição do migrante é que vive longe do sítio onde nasceu e onde tem as suas raízes. Esse foi o ponto de partida, que é transversal a qualquer migrante, independentemente, da sua condição económica e da sua motivação para migrar. No total dos 400 testemunhos há pouco mais do que cem nacionalidades representadas, só em Lisboa nas 50 cartas há cerca de 25 nacionalidades diferentes. A ideia era falar com pessoas que tinham vindo para Portugal porque procuravam melhores condições económicas, mas também pessoas que tinham vindo porque o país até era uma oportunidade profissional na sua área de trabalho. Na sua pesquisa, Filipa Bolotinha lembrou-se de várias pessoas com histórias e características diferentes.

CLIQUE NOS NOMES E LEIA AS CARTAS

Leader Yu, um rapaz chinês, nascido na Colômbia porque a família tinha fugido à revolução chinesa. Fala muito bem português e já deu aulas de mandarim na Renovar Mouraria.

Kopila Dil Karki, uma rapariga nepalesa que tem uma loja de artesanato nepalês na Rua do Benformoso, veio para Portugal porque conheceu o Francisco da Mouraria no Nepal e apaixonaram-se.

Diana Tarus, veio da Moldávia para Lisboa sozinha com três filhos, mas tem uma grande preocupação em trazer as duas irmãs que ficaram na sua terra.

Elizângela Silva, uma brasileira que chegou sozinha com um filho e têm uma relação muito bonita.

Mourad Ghanem, um argelino-francês, colega de profissão de Filipa na área de gestão de projetos, mora em Portugal há muitos anos e é muito político.

Vijeesh Rajan, um indiano que, há um ano, foi à Índia casar e estava a tentar trazer a mulher para Portugal, que entretanto já chegou.

Filomena Farinha, uma portuguesa nascida em Angola com sotaque brasileiro, porque depois do 25 de Abril foi morar para o Brasil.