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14 percursos de sonho para descobrir Portugal a pé

Sociedade

Luís Quinta

Trilhos, passadiços, caminhadas, rotas grandes e pequenas. Descubra paisagens únicas em percursos a pé e também um outro tipo de oferta turística, mais local e sustentável

Uns são fáceis, com poucos quilómetros, e outros longos, que demoram vários dias a percorrer. Mas há uma característica comum em todos estes trilhos: permitem descobrir, de uma forma única, algumas das mais belas paisagens de Portugal.

Primeiros passos - Nível baixo

1 - ECOPISTA DO RIO MINHO
Valença – Monção

Ponto de partida: Casa da Linha, Ponte Seca (Valença)
Ponto de chegada: Lugar da Barca, Lodeira (Monção)
Distância: 17 km

Inaugurado em 2004, foi um dos primeiros percursos, a nível nacional, a aproveitar uma antiga linha férrea para fins turísticos. Dois anos depois, foi considerada a quarta melhor ecopista da Europa, graças a um percurso sempre junto ao rio Minho, permitindo visitar diversos monumentos e locais de interesse histórico e cultural, como o Museu Ferroviário e o Centro de Interpretação da Ecopista, em Valença, o Mosteiro Beneditino de Ganfei, o Cemitério Medieval e o Cruzeiro do Adro Velho, a Torre de Menagem de Lapela, os antigos postos aduaneiros e a porta de Salvaterra, por onde se entra para o centro histórico de Monção. Para lá de proporcionar vistas únicas sobre o rio, a ecopista passa ainda por locais de grande interesse paisagístico e ambiental.

2 - PASSADIÇOS DO PAIVA
Arouca

Ponto de Partida e chegada: Espiunca
Distância: 17 km

Passadiços do Paiva

Passadiços do Paiva

Ao todo, são 17 quilómetros (ida e volta) de passadiços de madeira, a serpentear por árvores e rochas, por vezes suspensos em falésias ou sobre pequenos desfiladeiros, sempre ao longo da margem esquerda do Paiva, considerado o rio mais selvagem de Portugal. Tem início na aldeia de Espiunca, junto à praia fluvial, e o troço inicial é em linha reta e quase plano, o que permite apreciar a paisagem sem grande esforço. Mais ou menos a meio, fica a praia fluvial do Vau, acessível através de uma ponte suspensa. Prossegue-se então para o troço mais espetacular do percurso, que contorna a grande garganta do Paiva e após a qual é necessário vencer cerca de 500 degraus, até a um miradouro, a quase 300 metros de altitude, com vista panorâmica sobre toda a região. A partir daqui é sempre a descer, até à praia do Areinho, onde muitos voltam novamente para trás, até ao ponto de partida.

3 - ROTA DOS FÓSSEIS
Idanha-a-Nova

Ponto de partida e de chegada: 
Largo da igreja de Penha Garcia
Distância: 3 km

Ao olhar, desde a muralha do velho castelo de Penha Garcia, para as escarpadas arribas circundantes, dificilmente imaginará que, em tempos, todo este território esteve submerso por um mar pouco profundo. A prova está lá em baixo, no vale, nos fósseis com cerca de 500 milhões de anos. O percurso segue o desfiladeiro escavado pelo rio Pônsul, que cai em pequenas cascatas, até acalmar numa convidativa piscina fluvial com deck de madeira sobre o vale. Esta pequena rota assume-se assim como uma viagem no tempo, até aos primórdios da vida, ao longo de um dos principais tesouros do Geopark Naturtejo, que tem atraído até esta pequena aldeia beirã, entre muitos outros visitantes, paleontólogos e cientistas de todo o mundo.

4 - PARQUE LINEAR 
RIBEIRINHO 
DO ESTUÁRIO DO TEJO
Vila Franca de Xira

Ponto de partida e chegada: 
Parque Linear Ribeirinho
Distância: 5,5 km

Até há pouco tempo, esta área era uma lixeira. Tudo mudou com a construção de dois parques urbanos ribeirinhos, que incluem mais de 
5 000 metros de trilhos pedonais e cicláveis entre a ribeira da Verdelha, em Alverca, e o cais setecentista da Póvoa de Santa Iria. O centro nevrálgico de toda esta enorme área de lazer é o Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo. Daqui parte o Trilho do Tejo, um percurso pedonal de madeira, suspenso sobre estacas, que acompanha, ao longo de 700 metros, a margem do rio em direção a nascente. No sentido oposto, o Trilho da Póvoa conduz ao Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria, uma área de sete hectares, com zonas de lazer e o núcleo museológico dedicado às tradições avieiras.

Elevar a experiência - Nível médio

5 - OLHOS DE ÁGUA DO ALVIELA
Alcanena

Ponto de partida e de chegada: Olhos de Água do Alviela
Distância: 2 km

Situada na orla do Maciço Calcário Estremenho, a nascente que dá nome a este percurso é uma das mais importantes de Portugal. Aqui, na base de uma escarpa, nasce o rio Alviela, num local conhecido por Olhos de Água, donde, desde 1880, é feito o abastecimento de água para Lisboa. A água, originária da chuva, infiltra-se no Planalto de Santo António e é conduzida até este local por uma complexa rede de galerias subterrâneas. O trilho percorre parte da ribeira dos Amiais, um pequeno afluente do Alviela, que a dada altura desaparece no meio da rocha, continuando o seu curso num leito subterrâneo (observável através de uma janela cársica) até reaparecer à superfície, algumas centenas de metros à frente. Ao longo do trajeto são ainda visíveis grutas, há muito abandonadas pela água, que hoje servem de abrigo a cerca de uma dezena de espécies protegidas de morcegos, razão pela qual o acesso às mesmas está interdito.

6 - FISGAS DO ERMELO
Vila Real

Ponto de partida e de chegada: Ermelo
Distância: 12 km

Fisgas do Ermelo

Fisgas do Ermelo

VASCO CELIO/STILLS

No ponto de encontro entre Douro, Minho e Trás-os-Montes, este trilho reúne o melhor destas três regiões, num pequeno paraíso natural situado entre os concelhos de Mondim de Basto e de Vila Real, conhecido como serra do Alvão. Trata-se de um cenário natural único, que pode ser explorado e apreciado através deste percurso, com início na aldeia de Ermelo, uma das mais antigas de Portugal. Sempre junto às margens do Olo, acompanha-se a mudança da paisagem, cada vez mais selvagem, à medida que o rio prossegue o seu caminho através de apertadas gargantas, até se precipitar, montanha abaixo, de uma altura de cerca de 400 metros, nas Fisgas do Ermelo, numa das maiores quedas de água da Europa.

7 - TRILHOS DO CONHAL
Nisa

Ponto de partida e de chegada: Arneiro
Distância: 11 km

Uma aldeia piscatória no Norte do Alto Alentejo, com barcos e redes de pesca nas ruas, não é a imagem mais usual, mas é deste improvável cenário que parte um dos mais belos trilhos do País. O ponto de partida fica situado mesmo no centro da localidade de Arneiro, também conhecida pela imensa escombreira de seixos rolados, resultante da exploração do ouro de aluvião pelos romanos o "conhal", que dá nome ao trilho. O caminho percorre em seguida parte da serra de São Miguel, continuando depois até ao topo sul do monumento natural das Portas de Ródão, onde se pode apreciar, bem de perto, o majestoso voo dos muitos grifos que ali nidificam.

O regresso à aldeia faz-se por uma íngreme descida de rocha, que requer atenção redobrada até se atingir, de novo, "a terra firme" dos montes de seixos.

De regresso ao Arneiro, é agora tempo de conhecer outro dos patrimónios deste Tejo alentejano: as sopas de peixe do rio.

8 - MONGE
Sintra

Ponto de partida e de chegada: Convento dos Capuchos
Distância: 4,5 km

Com partida do Convento de Santa Cruz dos Capuchos, fundado no século XVI por frades franciscanos, que aqui queriam viver em "estreita relação com a natureza", esta é uma rota marcada pela exuberância da vegetação, em especial nas exóticas matas de cedros do Buçaco, salpicadas por carvalhos, medronheiros e urzes. Sempre a subir, chega-se ao marco geodésico, onde a deslumbrante vista impõe uma paragem mais demorada nos dias limpos consegue-se avistar a linha de costa quase até ao cabo Espichel.

Um pouco mais à frente, num dos cumes mais altos da serra, chega--se ao lugar de Tholos do Monge, uma sepultura coletiva pré-histórica orientada a norte.

9 - PERCURSO PEDESTRE DE MARVÃO
Marvão

Ponto de partida e de chegada: Portagem
Distância: 8 km

A caminhada tem início, encosta acima, pela antiga estrada romana, protegida por uma abóbada de sobreiros, carvalhos e castanheiros que deixam passar apenas alguns raios de sol, até terminar perto da igreja e do antigo convento da Senhora da Estrela, a padroeira da vila de Portagem. Ao longe, avista-se o Alto de São Mamede, ponto mais elevado da serra com o mesmo nome, junto a Portalegre. Ali mesmo ao lado, fica a entrada para a vila amuralhada de Marvão, cuja visita pode ficar adiada para mais tarde, pois o percurso ainda nem vai a meio e há que aproveitar a descida até Abegoa e para Fonte Souto. O caminho de terra batida volta entretanto a encontrar a calçada medieval, sinal de que já falta pouco para voltar para junto do rio Sever.

10 - PERCURSO DOS 7 VALES SUSPENSOS
Lagoa

Ponto de partida: Praia de Vale Centeanes
Ponto de chegada: Praia da Marinha
Distância: 5,5 km

Num dos troços de costa mais belos do Algarve, este percurso evolui ao longo de uma linha quase contínua de arribas, ligando a Praia de Vale Centeanes à Praia da Marinha.

Esculpidas ao longo de milhões de anos, as arribas são o elemento dominante desta paisagem. Num passado distante, cada um destes vales esteve associado à foz de uma linha de água, dando origem aos denominados "vales suspensos".

O caminho faz-se por alguns trilhos previamente existentes, onde foram criadas guardas de proteção nas zonas de risco e introduzidos miradouros com verdadeiras vistas panorâmicas sobre as arribas. Ao longo do percurso, o visitante tem ainda cerca de duas dezenas de painéis informativos, de diferentes tipos, com explicações sobre a geologia, a fauna e a vegetação local.

Provas de resistência - Nível alto

11 - TRILHO DA SERRA AMARELA
Ponte da Barca

Ponto de partida e de chegada: Ermida
Distância: 35 km

Com uma cota máxima superior a 1300 metros, a serra Amarela é um dos maiores relevos montanhosos do Parque Nacional da Peneda Gerês, num agreste território granítico, dominado por matos secos de urzes, tojos e giestas, aqui e ali salpicado de carvalhais e manchas de azevinho, que serve de habitat a mais de 200 espécies de vertebrados (como a cabra-montês, o corço e o lobo), além de inúmeras espécies de aves e répteis. É este território único, habitado desde o Neolítico, que esta Grande Rota pretende dar a conhecer. Com início e fim no lugar da Ermida, este percurso desdobra-se por quatro etapas, sendo necessário cerca de dois dias para o completar. A primeira começa por percorrer o Vale de Carcerelha, entre urzais, tojais e giestais.

Já a segunda tem como ponto de partida o lugar de Cutelo e prolonga-se até Vilarinho da Furna, numa etapa marcada pela mudança de paisagem.

A terceira parte do percurso começa junto à barragem de Vilarinho, construída na viragem da década de 60 para a de 70 e que submergiu por completo a aldeia de Vilarinho da Furna. Avança depois por um território típico de montanha até à Louriça, o ponto mais alto da serra Amarela, a 1361 metros de altitude e de onde parte a última etapa, que marca o regresso ao ponto de partida.

12 - ROTA DA GARGANTA DO LORIGA
Seia

Ponto de partida: Salgadeiras (ao km 27 da EN338)
Ponto de chegada: Loriga
Distância: 9 km

No topo do planalto central da serra da Estrela, este percurso linear percorre o vale da Ribeira da Nave, ligando esta garganta até à vila de Loriga, numa descida de mais de mil metros de altitude através de uma impressionante paisagem, esculpida há mais de 10 mil anos por um glaciar com mais de 6 quilómetros de comprimento. A ação modeladora do gelo, que se acumulava no alto da serra e escoava depois pelo vale, criou aqui uma morfologia glaciar típica, composta por uma sucessão de quatro depressões, designadas localmente por covões. Na primeira parte do percurso, o caminhante é surpreendido por uma típica zona húmida de montanha, com prados de altitude, juncais, turfeiras e vegetação flutuante. Avança-se depois por um passadiço metálico suspenso sobre o espelho de água da barragem, até que, já rodeados de zimbros e urzes, se chega ao topo do Covão do Meio, onde a sede pode ser saciada com a água fresca e pura do riacho que, um pouco mais à frente, cai em cascata junto ao paredão da represa. O passeio continua depois através de antigos trilhos de pastores e caçadores, com passagem por prados verdes e lagoas naturais. Já perto do final, é também obrigatória uma paragem mais demorada na praia fluvial da Ribeira de Loriga, conhecida pela sua sucessão de cascatas de água cristalina.

13 - CAMINHO DO XISTO DA LOUSÃ
Lousã Rota das Aldeias

Ponto de partida e de chegada: Castelo da Lousã
Distância: 6 km

O castelo da Lousã é o ponto de partida para uma jornada pela serra e pelas aldeias do Talasnal e Casal Novo. A primeira parte do caminho, em alcatrão e a descer, conduz a uma aprazível praia fluvial, encimada pela ermida de Nossa Senhora da Piedade, cada vez mais distante, à medida que se sobe a encosta primeiro por um trilho escavado na rocha, com uma vista deslumbrante sobre o desfiladeiro, e depois, mais a pique, por um carreiro entre os pinheiros.

Com uma altitude máxima superior a 1200 metros, a serra da Lousã é conhecida pelos seus quase intocados espaços naturais, onde é possível avistar corços, veados e javalis. Hoje, as típicas aldeias de xisto, apesar de recuperadas, estão praticamente desabitadas. Entretanto, o caminho de terra batida dá agora lugar a um pequeno trilho, que serpenteia pela floresta a paisagem é deslumbrante, mas o terreno acidentado obriga a atenção redobrada. Do alto, avista-se já o Talasnal, que ao fim de semana recupera a vida de outrora. É agora tempo de voltar a descer, até à antiga Central Hidroelétrica da Ermida, uma peça de arqueologia industrial que em tempos serviu para iluminar a vila da Lousã. Passadas as águas da Ribeira de São João, que aqui corre em cascata, a estrada volta a alargar e, ao longe, já se vê novamente o castelo.

14 - ROTA VICENTINA
Santiago do Cacém

Ponto de partida: Santiago do Cacém
Ponto de chegada: Cabo de São Vicente
Distância: 340 km

Almograve

Almograve

Esta grande rota permite conhecer, ao pormenor e de forma sustentada, toda a riqueza cultural, paisagística e social de um dos mais bem preservados troços costeiros da Europa. Com mais de 300 quilómetros de extensão, cruza os concelhos de Santiago do Cacém, Sines, Odemira, Aljezur e Vila do Bispo, estando dividida em dois percursos: o Caminho Histórico (pelo interior) e o Trilho dos Pescadores (pelo litoral), que se cruzam em Porto Covo e Odeceixe. O Trilho dos Pescadores inclui 4 etapas, que ligam Porto Covo ao cabo de São Vicente, sempre junto ao mar, por entre falésias, enseadas e praias desertas, através dos trilhos usados há gerações para aceder aos pesqueiros. Por sua vez, o Caminho Histórico percorre um itinerário rural, passando por uma paisagem de montado, serra e vales.

Conta com um total de 13 etapas e está integrado na Grande Rota Europeia, que liga Sagres a São Petersburgo, na Rússia. Para quem só conhece o litoral, a riqueza da paisagem é surpreendente, revelando locais como o Pego das Pias, onde a Ribeira do Torgal passa por um estreito desfiladeiro, formando um lago com uma enorme pedra no centro. Ou, no caminho entre São Luís e o Cercal, a Rocha de Água de Alto, uma queda de água com mais de 30 metros, situada no sopé na serra do Cercal.

Portugal passo a passo

A vida dos jornalistas de imprensa conta-se, na maior parte dos casos, através dos artigos que cada um vai publicando, fruto de horas e horas de conversas com as mais variadas fontes e protagonistas. No caso do jornalista Miguel Judas a sua vida tem de ser contada também através dos muitos quilómetros que ele tem percorrido a pé em Portugal.

Desde que começou a colaborar com a VISÃO, há mais de 15 anos, o Miguel já assinou dezenas de reportagens sobre o que o nosso país tem de melhor em termos de riqueza natural e de lazer. Para isso, passo a passo, percorreu trilhos junto à costa, escalou montanhas, embrenhou-se em florestas, seguiu cursos de água, passou anos a tentar descobrir as melhores praias, os segredos dos parques naturais e os recantos onde melhor se pode estar em comunhão com a natureza. 
É esse seu conhecimento acumulado ao longo de vários anos que lhe permite poder escrever, com autoridade, o tema de capa desta edição e ainda recomendar os 14 melhores trilhos pedestres para descobrir Portugal. Não foi uma tarefa fácil, é preciso reconhecê-lo. O Miguel Judas vai lançar, dentro de poucas semanas, com a editora Saída de Emergência, um livro com os 200 melhores percursos pedestres em Portugal e, portanto, a sua maior dificuldade foi a de restringir a sua escolha a apenas pouco mais de uma dúzia de caminhos. Mas de uma coisa o leitor pode ter a certeza: esta foi uma escolha feita com conhecimento de causa. E que, portanto, pode ser muito útil para os dias de primavera que se avizinham.