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Bem-vindos a casa dos maiores youtubers portugueses

Sociedade

Marcos Borga

Sirkazzio, Gato Galáctico, D4rkFrame, Wuant, Ovelha Nigga, Windoh e Nuno Moura estão a morar juntos desde o início de abril, numa moradia de luxo. Os sete juntaram-se para trabalhar mais e melhor. Pelo caminho, divertem-se. E ganham dinheiro como nunca

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

“Ó mãe, o Wuant foi morar com outros youtubers para uma casa de um milhão de euros.” Há artigos que começam assim, com uma frase. Ou melhor, com uma interrogação. Porque se o miúdo estava surpreendido com a novidade, a mãe, que sabia que o ídolo do filho tem apenas 21 anos, saiu-se com um incrédulo: “Achas que é verdade?”.

E foi a partir desta dica, dada por um miúdo de 9 anos, que a VISÃO seguiu ao encontro de Pedro Silveira e Miguel Raposo, sócios da BeInfluence, que agenciam dezenas de youtubers portugueses. Confirmava-se a notícia: no início de abril, Wuant saíra da casa dos pais, em Aveiro, e fora viver com Sirkazzio, D4rkFrame, Ovelha Nigga, Gato Galáctico, Windoh e Nuno Moura, todos com vinte e poucos anos, numa moradia com piscina em Alcochete. Mas havia mais.

Como a maioria tinha largado recentemente o gaming e apostado em vlogs no YouTube de entretenimento, experiências e estilo de vida, a mudança de casa dera gás aos diários em formato de vídeo. E, de um dia para o outro, os sete amigos começavam a aparecer também nos canais de YouTube uns dos outros. “É um Big Brother”, comparara Pedro Silveira, ao telefone.

Estava decidido: íamos conhecer a casa dos youtubers e perceber o que os levara a quererem morar juntos durante um ano. Pelo caminho, havíamos de medir o pulso ao fenómeno e ao negócio.

São quase onze da manhã quando paramos ao pé do restaurante Alfoz, junto ao Tejo. A partir daqui seguimos o carro dos agentes porque a rua não aparece no Google Maps. A casa fica a uns minutos do centro de Alcochete, numa zona de moradias de três andares, todas com grandes vidraças, terraços desencontrados e muros altos. À frente ainda há muito terreno livre, um prado verde, árvores, passarinhos.

Quando chegamos, uma das primeiras coisas que nos contam é que os fãs da zona já descobriram a morada. Nuno Moura, o ocupante do único quarto no rés do chão, não tem outro remédio senão fazer de mau da fita. “É um bocado chunga mandar as pessoas embora”, dirá, com uma careta, “mas temos de produzir e assim não conseguimos.”

Por agora não se vê vivalma na rua. Mas à tarde, quando os sete saírem a desoras para almoçar, um miúdo de 14 anos há de deixar na entrada um recado cheio de elogios. Não sonhava que a casa acabava de viver um susto coletivo que começara com Windoh (Diogo Figueiras) a cortar-se num braço ao fazer girar uma das suas facas do jogo Counter Strike: Global Offensive.

Quando Windoh entrou aflito no quarto do Nuno Moura já estava quase a perder os sentidos. O amigo ainda pensou que era só mais uma partida, mas havia um rasto de sangue na sala e alguém ligara para o 112. Os quinze minutos que os bombeiros de Alcochete demoraram a chegar de um serviço no Barreiro pareceram tão longos que o agente Miguel Raposo saiu disparado de carro ao encontro da ambulância, não fosse eles andarem perdidos. “Aquilo está complicado”, disse, antes de arrancar. No quarto, a tensão era enorme – Diogo acabara de vomitar.

A sirene e a correria dos dois bombeiros emprestaram um ar ainda mais dramático à cena, mas um minuto depois ouviam-se gargalhadas. O corte era minúsculo, nem precisava de pontos, explicaram, com um aviso: “Uns centímetros abaixo e morria em três minutos, não havia nada a fazer.”

O almoço havia por isso de ser à hora do lanche, com selfies e pedidos de autógrafos no final. Uns adolescentes tinham ficado à espera que os youtubers saíssem do restaurante. Estavam que não se aguentavam de excitação.

“Parece que estamos de férias”

Voltemos ao início. Às onze e picos, a casa está a meio gás. Já todos se levantaram, mas alguns ainda andam entre os quartos e a cozinha, a despacharem o pequeno-almoço com uns cereais ou um batido. Tratam-se pelos nicks, a não ser o Gato Galáctico (Ronaldo) e o Ovelha Nigga, que se chama Miguel e é Pi para os amigos e família porque em miúdo aparecia sempre que a mãe chamava a Pipoca, a cadela.

Na véspera, trabalharam até tarde e hoje têm de gravar mais uns planos para começarem a editar. A maioria tenta publicar um vídeo novo dia sim, dia não, e só a edição chega a levar oito horas. É a rotina do costume, com a diferença de que passaram a poder contar com a ajuda uns dos outros.Dali a pouco, D4rkFrame vai estar a filmar Windoh junto à piscina, com as gargalhadas em pano de fundo de quem anda nas imediações. E Wuant, cansado de estar fechado no quarto em frente ao computador, pega numa bola e desafia dois para jogarem à rabia lá fora. “Fartamo-nos de trabalhar, mas parece que estamos de férias”, dirá Ovelha Nigga, a brincar com o seu pente azul.

Os dois agentes aproveitam a visita à casa para deixar umas embalagens e fazer um briefing rápido. A marca pagou para aparecer nos vídeos dos youtubers, dando-lhes liberdade total. “No canal de um dos quatro mais relevantes em termos de subscritores, um vídeo exclusivo pode ir aos 6 mil euros mais IVA”, conta Miguel Raposo, e nós não disfarçamos a surpresa. Mas quando ouvimos que os canais de Wuant, D4rkframe, Feromonas (o único dos quatro grandes portugueses que não está na casa) e SirKazzio têm entre 1,6 milhões e 4,2 milhões de subscritores, e que muitos dos seus vídeos ultrapassam um milhão de visualizações, tudo faz sentido.

O negócio é proporcional ao fenómeno, e só quem está distraído ou não tem filhos com menos de 20 anos é que ainda não se apercebeu da sua dimensão. Os youtubers são os heróis das gerações mais novas, que, como eles, cresceram a jogar videojogos e substituíram a televisão pela internet.

Uma casinha dentro do quarto

Faça-se um parêntesis para escrever que nesta casa em Alcochete os televisores servem apenas como grandes ecrãs ligados aos computadores, e para lembrar que abaixo dos 25 anos perdem-se horas nas redes sociais e nos videojogos, veem-se séries na internet e vídeos no YouTube.

“Os youtubers são os maiores influenciadores dos miúdos neste momento, as novas figuras públicas”, diz Pedro Silveira, que tem 41 anos e agenciou pela primeira vez youtubers há quase quatro.

As marcas já começam a dar por isso, e não é só no YouTube. Um anunciante que queira ver o seu produto no Instagram de um dos youtubers do Top 10 paga 3 mil euros por post. Um preço justo, dizem na BeInfluence. Qualquer fotografia do Sirkazzio ou do D4rkframe (que têm mais de 820 mil seguidores) ganha mil likes ao fim de uns minutos.
Além dos contratos com os anunciantes, a agência trata das presenças dos youtubers em eventos e das “ações especiais”, que tanto pode ser a inauguração de uma loja, uma campanha publicitária (há dois anos, o Feromonas foi a cara de um leite com chocolate) ou um livro (Wuant lançou O Início em janeiro).

Mas esse é o lado mais comercial da relação entre agentes e agenciados. Depois há o resto, e o resto pode ser “tudo”, nota Pedro Silveira, que tem quatro filhos, entre os 7 e os 15 anos – e a mulher já lhe pediu para conhecer os novos sete.

Quando Wuant, Sirkazzio, D4rkFrame, Ovelha Nigga, Gato Galáctico, Windoh e Nuno Moura anunciaram que queriam ir morar juntos para perto de Lisboa, os agentes ofereceram-se para os ajudar a procurar casa. Ainda visitaram moradias em Cascais e Sintra, mas como Pedro vive em Palmela e Miguel na Charneca da Caparica, convenceram-nos a optar pela Margem Sul. Era mais prático para todos e ficavam na mesma a vinte minutos de carro da capital.

Foram os dois que descansaram a proprietária – podia arrendar-lhes à vontade por um ano porque os miúdos iam ser capazes de assegurar a renda a horas. O YouTube paga-lhes diretamente pelo número de visualizações dos vídeos; e aos maiores isso significa 3 mil a 4 mil euros por mês.

Nem de propósito, ouve-se a campainha da porta e entra em cena Maria dos Anjos, uma mulher que conhece bem os cantos à casa porque já aqui trabalhou antes. “Podem tratar-me por avó”, diz a empregada doméstica, muito baixinha no meio dos sete matulões. Os agentes é que a contactaram. No primeiro domingo, D4rkFrame juntou as tropas na sala, dividiu as tarefas e meia-hora depois a casa estava “bem limpa mesmo”, conta. “Mas estávamos habituados a que fossem as nossas mães a tratar de tudo e trabalhamos tanto que nos não sobra tempo.”

Aos 23 anos, António Ramos, aka D4rkFrame, já não é nenhum menino da mamã, embora seja o mais novo de quatro irmãos e tenha sido o último a sair de casa. Andava há mais de um ano a remoer a ideia e foi ele quem reuniu os amigos que achou capazes de se envolverem numa comunidade, sem os pais. “Os sete foram escolhidos a dedo”, diz. “Vêm da área artística, têm a mente aberta, são compreensivos e nenhum é mal-humorado.”

De todos, o seu amigo mais antigo é Pi, que conheceu no 10º ano, quando ambos optaram por um curso de desenho digital 3D, na Escola Profissional Val do Rio, em Oeiras. A ideia era ser game designer, mas como a mãe não lhe podia pagar cursos no estrangeiro apostou num canal de videojogos. “Já pensava ‘Isto vai dar-me lucro’, achava que tinha uma veia artística para explorar.”

E tinha, mas a sua carreira ia ficando pelo caminho – gritava muito por causa dos jogos de terror e os vizinhos queixavam-se. Em vez de desistir, comprou uma casa de arrumos para o jardim que montou no quarto e forrou por dentro com lã de rocha, para poder gritar sem incomodar ninguém.

Mas era tão pequena que quase não se conseguia mexer lá dentro. “A casinha foi uma bola de neve”, compara. Dali a pouco estava a alugar um estúdio, um ano depois cansava-se da rotina e de estar sozinho e desafiava Pi para trabalhar com ele. Juntos cresceram muito. D4rkFrame ajudou a construir a imagem do Ovelha Nigga e mudou a temática do seu próprio canal.

Dezoito horas ao computador

Ao fim de quatro anos nos videojogos, está a fazer “tudo aquilo que ninguém faz”: já testou uma pistola térmica, tentou fazer uma pipoca com um laser, esmagou um iPhone. “Há quatro meses que faço experiências e desafios, numa de entertainer puro e duro.” O vídeo que lhe deu a certeza de que estava no caminho certo foi aquele em que cortou uma torre de chocolate com uma faca quente – passou dos 7 ou 8 mil novos subscritores por dia para 50 mil. Hoje, D4rkFrame tem 1,7 milhões de subscritores.

O seu percurso é semelhante aos dos outros youtubers da casa. Quase todos começaram com canais de gaming e há uns meses tornaram-se vloggers com outros conteúdos porque perceberam que era isso que os fãs queriam. A exceção é o Gato Galáctico, nick do brasileiro Ronaldo de Azevedo, de 26 anos, que sempre fez ilustração.

Formado em Arte Multimédia e em Animação, Ronaldo ainda trabalhou quatro anos para publicidade e cinema. Só abriu um canal quando desistiu de tentar entrar na Pixar. Foi em 2013 e a sua primeira personagem, o Cueio, teve logo sucesso.

Agora, faz os sketches “Coisas Com Carinhas” e chega a ter 20 milhões de visualizações por mês. Para publicar um vídeo por semana, paga a ilustradores que moram no mesmo Brasil que deixou há ano e meio por causa da violência.

Ronaldo só vê vantagens na sua mudança de Guimarães (onde fez um mestrado em Animação) para Alcochete. “Estava cansado de trabalhar sozinho, e aqui, entre outros youtubers, sinto-me inspirado para trabalhar mais.”

Estão todos a trabalhar mais e melhor, já tinha dito Paulo Borges, aka Wuant, antes de se enfiar novamente no quarto para acabar de editar um vídeo sobre uma porta (e tem graça). “Ajudamo-nos, fazemos brainstorms, acabamos por ser uma equipa.” E estão todos mais felizes, há de dizer Windoh. “Ser youtuber é cansativo, ninguém faz ideia, mas aqui divertimo-nos muito a gravar.”

Claustrofobia é uma palavra que não entra no léxico de nenhum dos sete. “Passei anos em casa, fechado no meu quarto. Houve alturas em que ficava dezoito horas seguidas ao computador”, conta SirKazzio, com um sotaque cantado que os milhares de fãs brasileiros reconhecem como seu.

Não é. Anthony Sousa nasceu na Venezuela. Já em Portugal, licenciou-se em Gestão de Turismo, mas no último ano do curso percebeu que o YouTube podia ser uma profissão e focou-se a 100% no seu canal. Morar com outros youtubers era um desejo antigo.

O mais difícil, concordam os sete, é conciliar a ida para Alcochete com a vida pessoal. As mães ainda telefonam com frequência, algumas namoradas fizeram beicinho e as festas estão proibidas. “É uma casa de trabalho”, dissera Pedro Silveira, logo no primeiro contacto. “Eles sabiam disso e a experiência tem sido excelente – já estão a potenciar-se uns aos outros.”

Pode ser que um dia, cada um tenha mesmo a sua casa de um milhão de euros.