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Maurícias: A estrela do Índico

Sociedade

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Ellen Rooney / Getty Images

As ilhas a que os portugueses chegaram há cinco séculos têm muito mais do que sol e praia para oferecer. Saiba quais os parques, museus e muitos outros sítios que vale a pena conhecer

Ainda antes de por o pé a bordo, o comandante Aldo avisa que é suposto toda a gente descalçar-se e colocar tudo quanto é sapatilhas, sandálias e chinelos dentro de um contentor de plástico. Há quem torça o nariz mas os passageiros acabam por obedecer, sem exceções. A seguir, um breve discurso de apresentação, ao qual não faltam as dicas da praxe sobre procedimentos e regras de segurança. O catamaran Le Pacha zarpa então para o mar alto. Aldo agarra-se ao leme e os seus dois auxiliares, Olivier e Jean Nöel, começam a oferecer bebidas a quem estiver interessado.

Ainda não são dez da manhã mas um grupo de alemãs não se faz rogado.

A linha de costa afasta-se à mesma velocidade com que o céu ganha tons de cinzento. Olivier diz que pode ser sinal de borrasca. A confirmação chega numa dúzia de minutos. Aldo vai buscar o impermeável e o chapéu que lhe conferem um ar de velho lobo do mar, em versão tropical.

A chuva e o vento abatem-se sobre a embarcação e as vagas de metro e meio começam a assustar a maioria dos 23 passageiros. Alguns não conseguem evitar e recolhem aos lavabos, onde apelam a São Gregório. Outros reforçam a dose de álcool em particular a alemã de pose extrovertida que, já encharcada, aproveita para se despir mais um pouco e exibir as tatuagens dos pés ao pescoço.

A sabedoria popular ensina que a bonança sucede sempre à tempestade e, após hora e meia de viagem, a embarcação acaba por fundear tranquilamente numa pequena baía entre a ilha da Prata e o ilhéu Gabriel ambos desabitados. As águas azul-turquesa, os peixes coloridos a ziguezaguearem pelos corais, a areia branca, a paisagem virgem e demais imagens de postal ilustrado fazem com que a maioria dos turistas reconheça que vale a pena apanhar um valente susto para chegar a este local.

DESTINO DE GENTE ILUSTRE

Um local que permanece quase igual como o terá encontrado Diogo Fernandes Pereira. Este aventureiro de Setúbal terá sido o primeiro europeu a navegar até estas paragens quando, em 1507, ele e os seus homens "descobriram" uma série de ilhas a leste de Madagáscar, em pleno coração do oceano Índico. As maiores e mais conhecidas são Santa Apolónia (depois rebatizada Reunião pelos franceses) e Cirne, agora conhecida por Maurice, Mauritius ou Maurícias.

É esta última que nos interessa. Com dois mil quilómetros quadrados de superfície 63 de comprimento por 47 de largura continua a ser um destino especial. Antes da chegada dos portugueses era já conhecida dos marinheiros árabes mas a sua localização fez com que nunca tivesse vivalma, a não ser dodós a famosa ave incapaz de voar que podia ter um metro de altura e acabaria por extinguir-se em meados do século XVI, quando os holandeses já levavam perto de sete décadas de colonização da ilha a que deram o nome do seu príncipe Maurício de Orange-Nassau.

Em 1715, os franceses passam a controlar este território até ao dia em que soldados britânicos, durante as guerras napoleónicas, decidem aqui desembarcar e o conquistam num episódio retratado num dos livros de Jean-Marie Gustave Le Clézio, o Nobel da Literatura de 2008.

Mais de 90 por cento dos turistas que procuram as Maurícias, que se tornou independente em 1968 e uma república em 1992, não o fazem por causa da história ou da literatura. O importante, segundo os estudos de opinião do governo local, é usufruírem do sol e das praias de sonho.

A maioria dos passageiros do Le Pacha e dos outros iates e catamarãs seguem-lhes o exemplo.

Tendo em conta esta paisagem e as águas transparentes e quentes do Índico ninguém os deveria criticar. No entanto, está na hora de deixar para trás o ilhéu Gabriel, passar bem perto do Cabo Infeliz (Malheureux) e regressar à Grande Baía onde esta aventura começou.

Estamos no extremo norte da ilha por onde também já andaram Charles Darwin e Charles Baudelaire. E que, em 1896, desconcertou igualmente Mark Twain: "Primeiro criaram-se as Maurícias e só depois o Paraíso. E o Paraíso foi criado à imagem das Maurícias". Uma expressão que qualquer um poderia subscrever nesses tempos, se se tratasse de alguém bem na vida. Algo com que a maioria da população jamais concordaria porque trabalhar nas plantações de cana de açúcar, principal motor da ilha até há pouco mais de três décadas, não o permitia. Tanto os britânicos como os franceses recorreram a mão de obra escrava levada de Madagáscar e do continen- te africano. Os poucos escravos que conseguiam escapar refugiavam-se no sudoeste da ilha, na península Brabant, onde fica a montanha Le Morne. Nas grutas e escarpas aí existentes nasceu a república dos marrons, ou quilombos, onde viviam as famílias libertadas.

Este local foi declarado pela UNESCO, em 2008, património da Humanidade e é hoje uma das zonas mais luxuosas e procuradas da ilha.

Mercado de Port Louis

Mercado de Port Louis

PARAÍSO FISCAL E GASTRONÓMICO

Na capital, Port Louis, reside praticamente dez por cento da população do país. Os edifícios de arquitetura colonial são cada vez menos e os arranha--céus começam a alterar por completo a paisagem da cidade fundada há quase 300 anos. O Teatro Nacional, o Parlamento e a estátua da rainha Vitória, a residência do primeiro-ministro e as velhas mansões ao longo do percurso cultural Malcolm de Chazal, ou junto ao antigo Company Gardens, têm de conviver com as sedes de betão armado de grandes instituições financeiras.

Onde isso se nota ainda melhor é na zona do porto, com o centro comercial Caudan Waterfront a partilhar espaço com as torres que alojam as marcas do dinheiro. Mais do que um sinal de progresso é também a prova de que as Maurícias são um paraíso fiscal muitas vezes descrito como a Suíça do Índico, onde existem escritórios de 23 bancos internacionais, 967 fundos de investimento e 450 estruturas de capital de risco estatísticas oficiais do próprio Executivo. Terá sido algures por aqui que o antigo presidente do BES Angola, Álvaro Sobrinho, montou os seus negócios e teceu alianças políticas que estão a deixar as Maurícias em alvoroço.

Seja como for, o porto merece sempre uma visita especial. Em primeiro lugar porque é preciso visitar os mercados da carne, do peixe, da fruta e das especiarias. Onde os cheiros e as cores são uma mescla do que se poderia encontrar em Bombaim ou Dar es Salam. Os guias turísticos sugerem ainda que se passe pelo Museu dos Correios e pelo Blue Penny, o qual alberga uma das mais antigas coleções de selos do mundo. Mas esta zona esconde um outro tesouro histórico, também eleito como património da Humanidade , o Aapravasi Ghat. Trata-se do velho cais por onde passaram mais 500 mil trabalhadores que vieram para as Maurícias depois de 1834, data em que o fim da escravatura deu lugar à "Grande Experiência". A maioria eram indivíduos recrutados na Índia que iriam depois ser explorados nas plantações de cana de açúcar. Mas esses novos servos incluíam também chineses e até madeirenses, uma saga pouco conhecida e que os panfletos turísticos ignoram quase sempre.

Os traumas do passado não têm de ensombrar as férias a ninguém e é justo sublinhar que as Maurícias são uma jovem democracia que nunca conheceu um golpe de estado e onde existe um nível de vida superior ao de qualquer outro país africano. A cana do açúcar deu lugar a uma economia diversificada onde os serviços, os têxteis e o turismo marcam pontos e fazem crescer o PIB a ritmos anuais acima dos 3,5%. E onde a indústria hoteleira se reinventa de forma permanente.

Não é por acaso que a oferta agrada a todos os gostos e feitios, sem que para isso seja necessário arruinar o orçamento. No entanto, em abono da verdade, convém saber que não há milagres caso pretenda instalar-se em suítes paradisíacas e frequentar restaurantes cujas ementas foram preparadas por chefes ilustres como Alain Ducassé, Ferrán Adriá, Filippo Abisso ou Cyril Lignac.

A VISÃO viajou a convite da Soltrópico e da Turkish Airways.

SABIA QUE...

- As Maurícias têm os melhores indicadores de qualidade de vida do continente africano.

- O país tem uma população de quase 1,4 milhões de habitantes e perto de dois terços têm ascendência indiana

- A Presidente da República, Ameenah Gurib-Fakim, é uma bióloga muçulmana

- O turismo já representa mais de 12 por cento do PIB e dá emprego a mais de 50 mil pessoas

- Na última década centenas de milionários instalaram-se na ilha onde uma mansão à beira mar pode custar mais de 4 milhões de euros

- Para não se confinar ao sol e mar, a indústria hoteleira aposta nas atividades ecológicas, na cultura, na gastronomia e nos festivais

- O maior parque de aventuras da ilha, Casela Park, tem centenas de espécies de animais selvagens mas não aceite o convite para interagir com os grandes felinos estão drogados

- Para quem vai às Maurícias é obrigatório visitar o Museu do Açúcar e uma das casas coloniais onde se produz rum, baunilha e chá

COMO IR....

Não existem voos diretos de Portugal para as Maurícias.

A Soltrópico é uma das operadoras nacionais que, via Istambul, tem diferentes pacotes e programas para o país cujo brasão inclui um dodó e se descreve como "estrela e chave do Índico".

Os preços começam nos €1443

Artigo publicado na VISÃO 1260 de 27 de abril