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Isabel Mota: A nova senhora Gulbenkian

Sociedade

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Luís Barra

Já lhe chamaram de tudo, de "cara bonita" a "vampe do governo", passando por "senhora milhões". Agora, aos 65 anos, Isabel Mota está prestes a ganhar um novo epíteto. A partir de 3 de maio, passará a ser a "senhora Gulbenkian"

Com que então, ela cortou-se!" Foi com esta frase e uma sonora gargalhada que Pedro Santana Lopes comentava a mensagem que acabavam de lhe mostrar. Isabel Mota (sua colega de governo, ela secretária de Estado do Planeamento e do Desenvolvimento Regional, ele secretário de Estado da Cultura), acabava de avisar uma amiga que, dadas as horas, não compareceria à Festa do Champanhe que dava início à época balnear do T-Club, no Algarve.

Até estava no Algarve. Tinha ido jantar fora e, à meia-noite, olhando para o relógio, achou que era tarde para quem tinha de estar, às nove e meia da manhã, num Conselho de Ministros extraordinário, em Lisboa.

No dia seguinte, Santana Lopes tinha toda uma festa para contar. Isabel Mota, que dificilmente perdia uma boa festa, estava fresca e com o sentimento de dever cumprido, como lhe ensinara o seu pai, oficial da Marinha de Guerra.

Dizia-lhe que, o que quer que fizesse, tinha de fazer bem feito. Da mãe, herdou que a vida era para ser vivida.

Sempre tentou equilibrar os dois ensinamentos.

Às vezes, como nesse dia, teria de escolher.

José Manuel Trigo só convidava amigos, para aquela festa. Mas Isabel Mota conhece meio mundo. Já privou com Desmond Tutu (Nobel da Paz em 1984), Hillary Clinton (candidata à Casa Branca), Bill Gates (fundador da Microsoft).

Foi tu-cá-tu-lá com Jacques Delors e lidou com líderes europeus como Helmut Kohl, Jacques Chirac, John Major ou José María Aznar. Cá dentro, dá-se com presidentes, ministros, secretários de Estado, adjuntos e assessores, banqueiros, bancários, advogados, empresários, gentes das artes, da solidariedade social e do desenvolvimento humano, no ativo ou na reforma.

Isabel Maria de Lucena Vasconcelos Cruz de Almeida Mota, de seu nome completo, teve uma educação tradicional, uma adolescência pacata, passou dois anos em Moçambique (onde o pai foi colocado em missão), numa espécie de "férias prolongadas", contou em 1991 a O Jornal. No Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (atual ISEG), onde estudou Finanças (a que o seu pai chamou "ciências ocultas"), nunca se meteu em grandes aventuras. "Excelente aluna", garante Nunes Liberato (seu colega de faculdade e, mais tarde, de governo), nunca se deixou tentar pela vida mundana da faculdade. Nem foi, sequer, à viagem de finalistas (a Angola e ao Brasil). Afinal, a meio do curso, casava com o namorado de sempre, já engenheiro, e foi mãe de Rodrigo. Seguiram-se Inês, Francisco e António. Sempre foi e não se cansa de dizer que é essa a prioridade da sua vida uma mulher de família. Ainda hoje, com os quatro filhos crescidos (e 11 netos), reúne o rebanho à mesa do almoço de domingo.

Depois da família, estão os amigos.

Coleciona-os. É "extremamente simpática, realmente sã. Não tem um comportamento nas costas diferente do que tem pela frente, não é de 'fazer caixinha' para 'fazer figura'. É muitíssimo leal", desfia Manuela Ferreira Leite.

Hoje são muito amigas, mas quando se conheceram, nos anos 70, era esta chefe de gabinete do ministro das Finanças Cavaco Silva e Isabel Mota, "a alma do Gabinete para a Cooperação Económica Externa" do ministério, como relatou Cavaco nas suas memórias, pareceu-lhe logo "muito trabalhadora, rigorosa, colaborante, destacou-se logo pela sua competência e seriedade." O sorriso largo tê-la-á ajudado sempre.

Mas a sua eficácia, garante Ferreira Leite, veio sobretudo dos seus modos.

La belle Mota, como era tratada em Bruxelas, tornou-se a "senhora milhões" (como também passaram a chama-la) "não por ser dura não dava um grito ou murros na mesa, mas pela simpatia, pela sua persistência e empenho.

Levava a Comissão [Europeia] a perceber bem o que queria." Com os milhões dos fundos estruturais, a secretária de Estado de Valente de Oliveira projetou coisas, em Portugal, que ficaram para a posteridade.

NÚMEROS E SUPERSTIÇÕES

Isabel Mota estava na praia quando recebeu um telefonema de Valente de Oliveira. Silva Peneda tinha sido promovido a ministro do Emprego e era preciso substituí-lo na Secretaria de Estado do Planeamento. Deu-lhe 24 horas para pensar. Mota consultou a família, pesou os prós e os contras continuaria a fazer o que fazia, mas com a possibilidade de ter influência direta no desenvolvimento do País; o grande contra era ter de trazer a família (tinha 36 anos e quatro filhos) de Bruxelas para Lisboa.

Aceitou e viveu plenamente a época em que mais se infraestruturou o País, tornando-o (dizia-se então) mais próximo, mais unido, mais acessível e competitivo. Nas suas memórias, Cavaco Silva fala desses tempos como uma "autêntica revolução". Foi a altura da "construção de autoestradas, itinerários principais, variantes ao centro das cidades e de grandes pontes e obras portuárias e aeroportuárias." Foi retomado o projeto da barragem do Alqueva, negociado o financiamento da segunda travessia do Tejo. Apostou-se na ampliação do aeroporto da Madeira.

Montou-se a fábrica da Autoeuropa, em Palmela.

Conseguiu coisas nunca antes conseguidas.

Um ex-membro do governo, que com ela partilhava os corredores da eurocracia, garante que a Isabel Mota se deve o PEDIP, "o primeiro programa europeu específico para a Indústria", na Europa. E foi uma "peça-chave" no processo de pôr o FEDER (Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional) a financiar o setor da educação "o FEDER só financiava infraestruturas de transportes, de telecomunicações." Chamavam-lhe a "senhora milhões", mesmo se essa parte do trabalho, "a negociação dos envelopes financeiros, a repartição dos fundos entre os países, era com o MNE", recorda fonte envolvida no processo. A parte seguinte, "da gestão dos programas e projetos, para aplicação dos fundos comunitários, era com o Ministério do Planeamento.

Cabia à dupla Valente de Oliveira-Isabel Mota negociar com a Comissão de forma a tornar elegíveis os montantes" atribuídos a Portugal.

"Era uma perita", com um networking invejável, construído no ano e meio que viveu em Bruxelas, em 1986, quando se davam os primeiros passos da integração de Portugal na CEE. Mota tinha-se lançado à descoberta daquele admirável mundo novo, integrando a Representação Permanente de Portugal junto da Comissão Europeia, onde lhe atribuíram o dossiê dos fundos estruturais.

Portanto, quando foi para o governo, em 1987, não era apenas "uma cara bonita", como disse Valente de Oliveira a Cavaco, mas também "muito competente e com boas ligações com a Comissão".

Apesar de conservadora, católica praticante, simpatizante do Sporting, supersticiosa (em Bruxelas, chegou a esperar pelo 14º conviva para se sentar à mesa do restaurante), Isabel Mota sempre andou um pouco à frente do seu tempo. Planeou muitas coisas que só seriam postas de pé com ela já longe das funções.

MILITANTE NÃO PRATICANTE

A um mês das legislativas de 1995, chamavam-lhe resistente. Nenhuma outra mulher, desde o 25 de Abril, tinha ficado tanto tempo em funções. Mas a vida seguiu. No dia em que deixava a secretaria de Estado, recebeu um telefonema do Banco Mundial. Sabiam-na disponível e queriam-na como sua consultora.

Cavaco Silva deixava o governo para António Guterres e o PSD a Fernando Nogueira. Foi aí, na derrota, que Isabel Mota, Luís Palha e Alexandre Relvas foram à São Caetano à Lapa (sede do PSD) e se filiaram. Queriam mostrar compromisso com o projeto em que haviam estado implicados. Relvas e Mota foram mais tarde convidados para a direção de Marcelo Rebelo de Sousa Isabel Mota seria a responsável pelas relações internacionais do PSD, trabalhando com Seixas da Costa, então nos Assuntos Europeus. Almoçavam uma vez por mês. "Funcionou tão bem que um dia Marcelo Rebelo de Sousa quis ir ao meu gabinete imagine, o líder da oposição a ir ao gabinete de um secretário de Estado transmitir o seu apreço como as coisas estavam a correr", recorda o embaixador.

Mas a militância sempre foi discreta.

Durante uns meses, pós-governo, conciliou o Banco Mundial com o lançamento da escola de executivos da Universidade Nova, com que estava entretida quando Rui Vilar a convida para almoçar. Encontraram-se no restaurante Gôndola. O recém-nomeado administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, convidava-a para dirigir um departamento novo, dedicado ao Orçamento, Planeamento e Controlo.

Isabel Mota aceitou. Entrou para a Gulbenkian em 1996. Menos de três anos depois, subia a administradora, afastando-se definitivamente da política, como mandam os estatutos da casa.

Nestes 20 anos, mandou nos serviços centrais no restauro da fundação, o planeamento do novo auditório, fez regressar Gonçalo Ribeiro Telles aos jardins, reorganizou os efetivos. "Em 1996, a fundação tinha quase mil funcionários.

Com Isabel Mota, passou a 500, en douceur", conta quem acompanhou o processo. Depois ganhou outros pelouros: a Saúde, o Desenvolvimento Humano, as relações externas (África, Timor, Paris), lançou a orquestra Geração. Nunca teve a seu cargo a Educação, a Cultura e a Ciência, como há quem faça questão de sublinhar na praça pública. Mas para Manuela Ferreira Leite, que fez de tudo um pouco do Banco de Portugal à universidade, de deputada a ministra da Educação e das Finanças, essa é uma falsa questão. "Não é preciso ser mulher de artes para desempenhar a função. Não está sozinha na administração. Vai ser presidente, com pelouros distribuídos a outros membros da administração.

Está metida nos assuntos, é conhecedora dos dossiês. Se não tivesse sensibilidade, não estaria na Fundação Calouste Gulbenkian." António Pinto Ribeiro, homem das artes, que com ela lidou quando Rui Vilar deixou a fundação e lhe entregou os programas culturais Próximo Futuro e Distância e Proximidade, não duvida: "É uma boa gestora de projetos culturais. Tem sensibilidade, uma enorme curiosidade e uma mente aberta, capaz de dialogar os pontos de vista mais incomuns." Chega à presidência como que numa espécie de "coroação da sua intensa atividade e dedicação à fundação", diz Leonor Beleza, agradada ainda com a oportunidade de colaboração entre as duas fundações (Gulbenkian e Champalimaud, a que preside). Sendo certo que cada um imprime a sua marca, diz, "presumo que dedicará uma atenção mais intensa aos setores sociais." Ainda é cedo. Para já, assumiu três compromissos: "O primeiro, com o futuro", com a fundação a acompanhar os novos tempos, em Portugal e nas comunidades que serve; "o segundo, com os mais vulneráveis", principais beneficiários da atividade da fundação; por fim, "mas não menos importante, com a importância da arte e da cultura que nos dão a sabedoria e constituem os alicerces da tão necessária tolerância nos tempos conturbados em que vivemos".

Diz-se feliz e acredita que "as pessoas felizes não têm história". Mas Isabel Mota, por mais discreta que tente ser, acabou por entrar na História. Dia 3 de maio, torna-se a primeira mulher a dirigir a maior fundação do País.

Artigo publicado na VISÃO 1257 de 20 de março