Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Luso brasileira denuncia xenofobia no Metro do Porto

Sociedade

  • 333

A empresa já pediu desculpa mas nega acusações da cidadã que disse ter perdido o seu título de transporte

Reprodução Facebook

Nasceu no Brasil, mora no Porto e afirma ter sido sempre bem acolhida desde que há quatro anos chegou a esta cidade portuguesa. Pelo menos, até à passada segunda-feira. Cláudia Linck, 30 anos, com dupla nacionalidade brasileira e portuguesa, relatou nesse dia no Facebook um incidente em que terá sido vítima de xenofobia quando viajava no Metro do Porto. “Volte para o seu País”.“Só podia ser brasileira”, foram as acusações que terá ouvido da boca dos fiscais ao serviço da transportadora depois de ter sido abordado por viajar sem título de transporte.

No seu relato, noticiado com destaque pelo site brasileiro Globo, Cláudia Linck, conta como estava já atrasada para uma entrevista de emprego quando, ao ser abordada por um fiscal, percebeu que tinha perdido o cartão Andante (título de transporte recarregável do Metro do Porto), assim como o resto dos seus documentos de identificação, já depois de ter entrado na estação. De seguida, ela e outro passageiro, também sem título de transporte válido, terão sido encaminhados para outro local da estação onde já estaria uma fiscal superior. E terá sido aí a que a situação piorou.

“Ela [a fiscal superior] me olha de cima a baixo. Uma cara de deboche, um risinho querendo sair no canto da boca. Continuo a falar, digo-lhe da entrevista de emprego, da minha disponibilidade, da minha ficha limpa, dos meus planos pro futuro que dependiam daquela entrevista, faço cara de boa moça, faço cara de quem vai explodir, pergunto a ela por que o outro rapaz foi embora. E ela me manda esperar sentada porque chamou a POLÍCIA. ELA CHAMOU A POLÍCIA”, desabafou Cláudia.

“Tudo a partir daí foi errado. Eu dava um passo ao lado e vinha o fiscal me mandar sentar. Eu perguntei a ele o que aconteceria se eu me recusasse a esperar, quais as implicações legais se eu fosse embora. E ele disse 'Experimenta'. Falei que não estava dizendo que ia, mas gostava de saber. De novo: 'Faça pra ver o que lhe acontece'. Um homem 3 vezes a minha largura. Que me mandava sentar, ficar quieta, esperar, não sair da vista dele. Que me mandava ficar calma, já que ele conseguia estar calmo. Comecei a falar mais alto, desespero pegando mesmo, e aí aconteceu. A fiscal 'superior' me olhou com uma cara de nojo e disse coisas do tipo: 'Para de gritar nos meus ouvidos, não estou a gostar de tanto alvoroço, miúda descontrolada, só podia ser brasileira que gosta de barraco, foda-se essa gente... até que culminou com um ALTO E CLARO: VOLTE PARA O SEU PAÍS”.

A revolta de Cláudia vai também contra a atuação da polícia, que terá chegado ao local 40 minutos depois: “Preencheram uns papéis e foram embora. Nem sequer lá foram pra registrar a perda dos meus documentos. NÃO FIZERAM NADA. Só chegaram ali, impuseram sua autoridade E FORAM EMBORA. Só foram lá pra me dizer: minha colega está a fazer seu trabalho. ORA, POIS, SEU POLÍCIA, EU NÃO SABIA QUE JÁ ERA TÃO DESCARADO ASSIM QUE UMA DAS VOSSAS FUNÇÕES ERA PERPETUAR XENOFOBIA E INTOLERÂNCIA".

Metro do Porto pede desculpa mas nega acusações

Contactado pela VISÃO, o diretor de comunicação da Metro do Porto, Jorge Morgado, afirmou que a empresa está a investigar o sucedido e que já dirigiu “um pedido de desculpas antecipado” a Cláudia Linck, “por algo que possa não ter corrido bem”.

Explicando que os serviços de fiscalização são prestados à transportadora, desde há dois anos, por uma empresa externa de segurança, denominada 2045, SA, Jorge Morgado esclareceu que, de acordo com o relatório dos dois fiscais envolvidos no incidente, já na posse da Metro do Porto, “não houve observações racistas ou xenófobas” contra a cidadã luso-brasileira. “Ela estava muito exaltada, muito nervosa, e o agente terá tentado acalmá-la. Mas as acusações de racismo e de xenofobia preocupam-nos e, por isso, independentemente da investigação em curso, a Metro do Porto entendeu pedir desculpas pelo que possa ter acontecido”, acrescentou.

De acordo com a lei, qualquer passageiro sem título de transporte válido incorre numa multa de €120 mas, para que o auto possa ser passado, o passageiro é solicitado a apresentar um documento de identificação. Se não o fizer, os fiscais chamam a PSP para passar o auto na sua presença. Terá sido isso a explicar a diferença no tratamento dispensado ao outro passageiro detetado sem título de transporte que, ao identificar-se e receber o auto de multa, pode abandonar de imediato as instalações da Metro do Porto. Já Cláudia Linck, por ter alegado a perda dos documentos pessoais, foi obrigada a permanecer no local até à chegada dos agentes da polícia.

“A PSP é chamada dezenas de vezes para identificar passageiros sem título de transporte válido e sem documentos. São sempre situações delicadas, com pessoas em situação ilegal que insultam e até agridem os agentes e que, infelizmente, acontecem todos os dias”, explica ainda o responsável da comunicação da Metro do Porto. “Há sempre tensão e admito que possa ocorrer uma situação em que haja menos educação, de parte a parte”.

Além do relato do incidente no Facebook, Cláudia Linck apresentou uma reclamação formal junto da Metro do Porto, que vai agora seguir os trâmites normais. Nesta fase da investigação, “é a versão dela contra a versão dos agentes”, admite Jorge Morgado. A não ser que sejam apresentadas testemunhas ou novas provas, que apontem para outra versão dos factos, à transportadora só resta “lamentar o sucedido”.

Ao site brasileiro Globo, Cláudia confirma ter formalizado o seu protesto, mas não dá o assunto como encerrado: “Parece que só estão a cumprir com um protocolo. Não consigo entender que instituições públicas e privadas nunca possam sair em defesa da vítima, primeiramente. Escrevem sempre "SE for verdade" "SE isso aconteceu". As coisas estão mudando demais, o público, os usuários desses serviços já se importam muito com essas atitudes. O maior conforto veio de ONG's e indivíduos do meio jurídico. A Câmara Municipal nada disse, tampouco a empresa que faz a segurança do metro”. E acrescenta, aliviada, como, apesar do sucedido, conseguiu reagendar a entrevista de emprego para uma nova data.

A VISÃO pediu um comentário à empresa 2045, SA, mas não obteve resposta até à publicação desta notícia.