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México: Oito razões para descobrir o país de todas as emoções

Sociedade

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Kelly Cheng Travel Photography/Getty Images

As praias de Puerto Vallarta e mais sete razões para visitar o México

Em 1962, quando Hollywood aterrou em força em Puerto Vallarta, Julian Ortega tinha apenas 10 anos e dividia o tempo entre a escola e a apanha de cocos, para ajudar a família a juntar mais algum dinheiro. À época, a localidade era pouco mais que uma pequena vila de pescadores e agricultores, encravada entre o mar e as verdejantes montanhas da Sierra Madre. Mas tudo isso iria mudar em breve, tal como a vida do então pequeno Julian. Uma extensa comitiva "gringa" desembarcou no centro da enorme Baía de Banderas, liderada pelo realizador John Houston, que tinha eleito o local para ali rodar a versão cinematográfica de A Noite da Iguana, de Tennessee Williams, protagonizada por duas das maiores figuras de Hollywood: Ava Gardner e Richard Burton. Mas o acontecimento maior estava mesmo por detrás das câmaras: Burton vinha acompanhado por Elizabeth Taylor, com quem mantinha um tórrido romance, desde que no ano anterior se tinham conhecido durante as filmagens de Cleópatra. De um momento para o outro, Puerto Vallarta foi invadida por fotógrafos e repórteres. E quase em simultâneo, numa época em que os paparazzi ainda preservavam a intimidade das "estrelas", transformou-se num dos locais mais apetecíveis do mundo, especialmente a partir do momento em que se soube que tanto John Houston como o casal Burton/Taylor aqui haviam comprado casa, para usufruírem do sossego, da praia e do sol.

CASA COM MEMÓRIA

"Era aqui, a casa de Elizabeth Taylor", aponta Julian Ortega, enquanto subimos desde a ilha do Rio Cuale, que divide o centro histórico da cidade da denominada Zona Romântica, em direção a Gringo Gulch, como passou a ser chamada esta zona, depois de começar a ser invadida pelos novos e endinheirados habitantes, vindos do outro lado da fronteira a mesma onde agora Donald Trump quer construir um muro.

A Casa Kimberly (casakimberly.com), como é conhecida, é hoje um luxuoso boutique-hotel, que faz questão de manter viva a memória desses tempos, como se vê no lado de dentro do portão, onde uma estátua em bronze do famoso casal imortaliza para sempre a paixão aqui vivida entre Elizabeth Taylor e Richard Burton, que durou muito menos na vida real. "Quando se separaram, ele comprou outra casa, numa rua mais acima, para onde vinha com a nova mulher", conta Julian, hoje com 66 anos. Esteve "quase a ser padre", mas o destino trocou-lhe as voltas e foi no turismo que encontrou a sua verdadeira vocação.

Depois de estreado o filme, começaram a vir muitos visitantes e, em 1968, com a elevação a cidade, as autoridades locais apostaram forte no turismo, com a construção de diversas infraestruturas importantes, como o aeroporto internacional. A importância do turismo na vida da cidade é de tal ordem, que até figura no brasão da cidade, onde está desenhado um aperto de mão, símbolo da hospitalidade dos habitantes locais para com os visitantes. Julian começou por ser empregado de mesa e tornou-se guia "há mais de 40 anos". É atualmente um dos guias oficiais do departamento de turismo municipal de Puerto Vallarta (todos os dias há visitas gratuitas pela cidade, às 9h e às 12h), atividade que concilia com outras duas profissões, a de professor de inglês e a de instrutor de mergulho. "Até ator já fui, fiz de carteiro num dos filmes da série Herbie, que também foi aqui filmado", conta divertido.

SELVA E IGUANAS

Avançando morro acima, pelas inclinadas ruas de pedra ladeadas de anoneiras e abacateiros, o reboliço da praia e dos turistas fica cada vez mais difuso, até desaparecer quase por completo, engolido pelo ruidoso silêncio que vem da selva, mesmo por trás das últimas casas. A caminho de um dos miradouros sobre a baía, sob uma abóbada de altas árvores, os ramos parecem mexer-se ainda que não corra aragem. Olhando com mais atenção, percebe-se que os "ramos" são afinal enormes iguanas, que se movem indolentemente, neste seu habitat natural. São inofensivas e fazem parte da cidade, mas não deixam de ser impressionantes, tal como a vista desde lá de cima.

O verde vivo da selva, a plácida imensidão do mar e, no meio, o casario espalhado pela encosta, mais parecem um quadro de Manuel Lepe, o famoso pintor mexicano aqui nascido, que até ao fim da vida desenhou os encantos da sua terra. Muitas das casas foram entretanto transformadas em pequenos e charmosos hotéis com piscinas nos terraços, em modernos restaurantes ou em galerias de arte.

Dos antigos pescadores que, antes da chegada do turismo, fizeram a história de Puerto Vallarta, também já poucos restam. Ou melhor, resta um, de seu nome Fernando Güereña, que em pleno centro de Puerto Vallarta, mesmo junto ao Malecón, o calçadão da cidade, continua não só a vender o peixe do dia, como também o dá a provar, numa improvisada mas muito concorrida lanchonete à beira-mar. "Há ceviche, estufado de espadarte, atum fumado e qualquer um dos peixes do dia, que são grelhados na hora", explica "o espanhol", como também é chamado, devido à tez clara e aos olhos azuis.

AREIA BRANCA EM CENÁRIO VERDE

O passeio continua agora à beira-mar, novamente em direção à Zona Romântica, uma das mais animadas da cidade, especialmente à noite. O destino é a Playa de Los Muertos, uma das mais conhecidas praias do perímetro urbano e também, por isso, uma das mais concorridas. Quem prefere sossego para ir a banhos também tem muito por onde escolher, em especial no lado sul da baía, mais selvagem e desabitado, onde ainda se encontram praias quase virgens, algumas delas apenas acessíveis por barco, como é o caso da Majahuitas, um areal rodeado de palmeiras, perfeita para praticantes de snorkeling. Nas suas imediações podem observar-se inúmeras aves, tartarugas e répteis, bem como golfinhos, raias e baleias corcunda.

O roteiro das praias tem de incluir também a de Yelapa, uma antiga aldeia de pescadores, banhada por um mar calmo e rodeada de natureza, onde ainda é possível tomar banho em cascatas com dezenas de metros.

Mais próxima de Puerto Vallarta fica Mismaloya, rodeada por densa vegetação, e que é uma das praias mais famosas da região, por ter sido um dos cenários principais de A Noite da Iguana.

Regressados das praias, e depois de percorrer o Malecón, o "calçadão" de Puerto Vallarta, era tempo de seguir o conselho de Julian e ir provar um sope, uma quesadilla ou um taco ao El Campanário, um pequeno e muito barato restaurante familiar, situado junto à igreja de Nossa Senhora da Guadalupe, onde locais e visitantes convivem alegremente à volta de um prato de (verdadeira) comida mexicana e de uma cerveja fresca. À despedida, Julian aponta para o topo da rua. E antes de qualquer outra pergunta, conclui: "É onde eu moro, mas a partir de hoje é também a vossa casa". Bem-vindos ao México.

O FRANCÊS MEXICANO

Um dos responsáveis pelo surgimento de Puerto Vallarta no mapa da gastronomia internacional é o chefe de cozinha Thierry Blouet, proprietário do Café des Artistes, atualmente considerado um dos melhores restaurantes mexicanos. Filho de hoteleiros e neto de Max Blouet, que durante 30 anos foi o diretor do exclusivo hotel parisiense George V, este francês nascido em Porto Rico chegou a Puerto Vallarta em 1987, depois de já ter passado por algumas das mais prestigiadas cozinhas do mundo, como a do Le Moulin de Mougins, em Cannes, onde trabalhou com o lendário chefe francês Roger Verger. No Café des Artistes, aberto em 1990 numa mansão colonial espanhola, situada no centro histórico, reinventou por completo a gastronomia mexicana tradicional, mesclando os sabores e produtos locais com as mais requintadas técnicas francesas. Desde há mais de duas décadas organiza também o Festival Gourmet de Puerto Vallarta, que acontece em novembro e traz anualmente à cidade, durante 10 dias, alguns dos mais reconhecidos chefes do mundo.

www.cafedesartistes.com

O PAÍS DE TODAS AS CORES

Pirâmides maias, cidades coloniais, praias de sonho, museus inesquecíveis. Sete ideias para se deixar perder no México

1 - CIDADE DO MÉXICO

Os números enganam: apesar do seus mais de 20 milhões de habitantes, esta é uma cidade que rapidamente consegue despertar o coração do visitante. Basta apenas começar a percorrer as ruas do centro histórico e a provar tequilas nas velhas "cantinas", frequentadas pelos antigos revolucionários. Os motivos de encantamento são variados: o fabuloso Museu de Antropologia, a imensidão da praça Zocalo, os murais de Diego Rivera, a casa-museu de Frida Khalo, a gastronomia variada. A pirâmide de Teotihuacán, símbolo da antiga capital asteca, fica nas redondezas.

2 - TULUM

Areia incrivelmente branca, ruínas com séculos de história, mar com uma cor azul-turquesa que jamais se esquece e uma barreira de coral ali a poucas braçadas. Era impossível pedir mais. Por isso, Tulum é o ponto mais imperdível da maravilhosa costa da Península do Yucatão, que se estende desde Cancun à fronteira com o Belize. E os alojamentos, nesta zona, são para todos os gostos: desde os pequenos resorts de luxo hippy-chic aos novos hostels junto à praia.

3 - PUERTO ESCONDIDO​​​​​​​

Foram os surfistas os primeiros a descobrir a beleza da chamada costa de Oaxaca, alguns quilómetros a sul da imensa Acapulco. Mas Puerto Escondido é muito mais do que apenas uma praia de ondas famosas - ali guardam-se ainda os ecos de um México antigo, um porto de pesca tradicional e, acima de tudo, uma boa base para explorar, nas redondezas, a baía de Huatulco e os bares de praia de Zipolite e Mazunte.

4 - OAXACA

Uma cidade singular que é um autêntico tesouro cultural e arquitetónico, com um centro histórico justamente distinguido pela UNESCO. Mas, acima de tudo, um local com uma atmosfera incrível, onde se pode conhecer o verdadeiro espírito mexicano e as suas tradições mais genuínas, sem a turisficação de outros lugares. A região em redor é imperdível, com as ruínas de Monte Alban, a antiga capital zapoteca, e dezenas de aldeias com um artesanato riquíssimo.

5 - CHICHÉN ITZÁ

O parque arqueológico que é o cartão de visita do México no mundo. Infelizmente, está sempre cheio em qualquer época do ano. Mas ninguém devia morrer sem ter visto primeiro a pirâmide conhecida como El Castillo. Ali qualquer um se sente arqueólogo ou, no mínimo, a sentir despertar um impulso à Indiana Jones.

6 - CABO DE SAN LUCAS

Um dos pontos mais famosos da costa do Pacífico, com uma formação rochosa de rara beleza que se ergue num mar pejado de pelicanos e de leões marinhos. É um dos locais de eleição dos turistas americanos, mas não deixa de ser uma das paisagens mais incríveis para fazer praia, praticar mergulho ou, simplesmente, relaxar.

7 - PALENQUE

Para perceber o que foi a civilização maia não há melhor forma do que ir a Chiapas. A visita começa geralmente por San Cristobal de las Casas, cidade colonial que mantém o ambiente indígena, mas termina sempre nas ruínas de Palenque, onde as pirâmides assomam para lá das copas das árvores, no meio da selva.