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"A Saúde que se faz em Portugal faz-se bem. Há um potencial de desenvolvimento enorme"

Sociedade

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Luís Portela

Ana Baião

Leia ou releia a entrevista a Luís Portela, Chairman da Bial e presidente do Health Cluster Portugal

Luís Portela nasceu no Porto há 65 anos. Neto do fundador da farmacêutica Bial, Álvaro Portela, Luís estava longe de se interessar pela empresa da família. Quis ser frade, mas foi para médico. Ainda exerceu no Hospital de São João, mas a morte prematura do pai fê-lo olhar para a Bial. Endividou-se para comprar a participação dos outros acionistas e, aos 27 anos, assume a liderança da empresa que, hoje em dia, emprega mais de 100 investigadores e está presente em mais de 50 países. Nas vésperas de abandonar a direção do Health Cluster Portugal, o empresário falou com a VISÃO sobre o desenvolvimento do negócio da Saúde no nosso país. E deixa um desejo para o futuro da Ciência: que investigue fenómenos que vão para lá da materialidade.

O que é o cluster da Saúde e qual 
o seu impacto na economia?

O Health Cluster Portugal é uma associação que se desenvolveu a partir do contacto, há 10 anos, entre um pequeno núcleo de pessoas que se conheciam bem, entre as quais estava eu, João Lobo Antunes, Alexandre Quintanilha, Sobrinho Simões, entre outros que se foram juntando. 
E começámos a pensar que não tinha jeito nenhum termos boas instituições de investigação, de cuidados de saúde e até algumas empresas com algum atrevimento, tanto no contexto nacional como internacional, e não se conhecerem. Vivíamos todos de costas voltadas. O Health Cluster constituiu-se no início de 2008 logo com 55 instituições – de investigação, universitárias, empresas, hospitais, startups, etc. Hoje somos 172. 
A ideia base é esta: a Saúde que se faz em Portugal faz-se bem. E tem um potencial de desenvolvimento enorme.

Como assim?

De 2008 para cá, duplicámos as nossas exportações. No ano passado exportámos 1,4 mil milhões de euros, mais do que os vinhos ou a cortiça. O que mais se vende são os medicamentos enquanto produto acabado. Depois os instrumentos e material médico-cirúrgico e, a seguir, os produtos farmacêuticos de base, ou seja, a matéria-prima. Os Estados Unidos da América é o primeiro país para onde o setor exporta, seguido da Alemanha. Mas podemos fazer muito mais.

Qual o caminho para 
o desenvolvimento?

Levando novos produtos e a tecnologia de que dispomos na investigação até ao mercado. Portugal precisa de mais “Biais”, digamos assim. A Bial, nos últimos 20 anos, fez contratos com 115 instituições de investigação. A ciência faz-se em rede. E o nosso cluster tem procurado ligar as empresas à investigação universitária. Temos muito conhecimento acumulado nas universidades e é preciso levá-lo para o mercado.

Onde há grandes oportunidades 
de negócio?

Na área dos medicamentos. Dos dispositivos médicos. Nas soluções de e-health (por exemplo, foi uma empresa portuguesa que informatizou grande parte das farmácias espanholas, a Glintt; e a Alert informatizou hospitais em Espanha, Reino Unido, Brasil, EUA…). E depois, na prestação de cuidados…

Quais são as nossas mais-valias 
no turismo de saúde?

Fizemos um levantamento das áreas em que somos mesmo bons. Porque os cuidados de saúde estão a ser trabalhados pela Índia, pela Tailândia, pela Turquia… São países que estão a tentar destacar-se, têm know how, bons equipamentos e recursos humanos. A Turkish Airlines dá 50% de desconto nos bilhetes a quem for fazer turismo de saúde na Turquia. Nós somos bons na cirurgia às cataratas, angioplastia coronária, artroplastia da anca, colecistectomia, hérnia inguinal e femoral, artroplastia do joelho e prostatectomia. São alguns exemplos de coisas que fazemos muito bem e com preços competitivos à escala global.

E na cirurgia plástica, apesar da grande concorrência a nível mundial?

Também temos bons cirurgiões plásticos. E na medicina dentária, somos muito competitivos e muito bons. São mais exemplos.

Este tipo de turismo engloba 
outros serviços...

Sim, a hotelaria. E outros serviços como ir buscar o paciente ao aeroporto, oferecer-lhe os préstimos de um tradutor, organizar passeios de turismo durante a sua recuperação. Ou seja, as instituições de saúde têm necessidade de fazer protocolos com a hotelaria para oferecer pacotes a preços competitivos. E, com a qualidade de nível europeu que temos, conquistar a confiança de doentes de países com certo poder de compra.

Temos recursos humanos?

Sim, temos excelentes médicos, bons enfermeiros…

Em número suficiente?

Sabe quantos enfermeiros portugueses estão a trabalhar na Alemanha, no Reino Unido e em Espanha? Dez mil. E muito bem formados.

Na área do turismo da saúde, qual 
o papel que o Governo pode ter?

O que temos solicitado à AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal é que quando divulgam Portugal não divulguem só as paisagens bonitas, a cortiça e o vinho do Porto, mas divulguem também a Saúde. Achamos que também deve fazer parte da diplomacia.

E para lá do turismo?

Fala-se pouco nas outras áreas, mas é preciso chamar a atenção. Ao nível da Ciência temos, em Lisboa, o Instituto Gulbenkian de Ciência, o iBET – Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica, o Instituto de Medicina Molecular… No Porto temos o Ipatimup – Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, o IBMC – Instituto de Biologia Molecular e Celular, o INEB – Instituto de Engenharia Biomédica… em Coimbra, o Centro de Neurociências, a AIBILI – Associação para Investigação Biomédica e Inovação em Luz e Imagem… em Braga, o Instituto de Nanotecnologia… Enfim, no País temos um conjunto de muito boas instituições, com um grande número de investigadores, que publicam nos melhores sítios como a Nature ou a Science. São pessoas que têm feito um trabalho notável ao longo dos anos. Hoje, a área das Ciências da Saúde é, de longe, a que mais publica, quando, há 10 anos, estava em terceiro lugar. A produção científica desta área representa 28% do total nacional, à frente das Ciências Exatas e das Engenharias. Mas há mais áreas…

… Como a assistência médica.

Sim, ao nível dos cuidados de saúde temos indicadores que comparam muito bem com o que se passa na Europa. Por exemplo, hoje temos uma esperança média de vida superior à europeia quando, há 30 anos, estávamos muito atrás. Há três décadas, a mortalidade infantil era vergonhosa, terceiro-mundista; foi evoluindo e hoje temos das melhores taxas do mundo. E outros indicadores que comparam muito bem, como o número de profissionais de saúde, de instituições, os equipamentos… mas só ouvimos falar de listas de espera e outros aspetos negativos. Portugal está bem servido, bem dotado.

Há instituições do Serviço Nacional de Saúde no cluster?

Sim, temos instituições públicas como o Hospital de Santa Maria ou o Hospital de São João, que são nossos associados. E outras.

O que fazem as empresas deste setor?

Não se fala muito delas, mas têm um trabalho notável. Das 50 empresas que mais investem em investigação e desenvolvimento (I&D), em Portugal, sete são da área da Saúde, o que representa 18% do investimento total nacional em I&D. A empresa que mais investe em I&D é a PT; a Bial é a segunda (51 milhões de euros em 2013). O grupo José de Mello aparece em sétimo com €19 milhões e a Hovione em 15º com €11,5 milhões. No entanto, deixe-me assinalar que, há 15 anos, havia mais multinacionais deste setor em Portugal.

O que aconteceu?

Estas multinacionais investiam sobretudo em investigação clínica. Mas, ao longos dos anos, os ministérios da Saúde foram conduzindo uma política de obrigarem os médicos a verem muitos doentes, criaram essa pressão e não deram nenhum incentivo para a investigação. Naturalmente, os hospitais foram deixando a investigação e Portugal é dos piores países da Europa no que diz respeito a ensaios clínicos a decorrer. É lamentável e é uma das situações que temos de inverter. Porque é sobretudo mau para o doente que, muitas vezes, não tem acesso às novas soluções terapêuticas, na área da oncologia, por exemplo.

Que resultados tem dado o investimento das empresas portuguesas?

As empresas da Saúde são das que mais patenteiam. No ranking das 25 empresas portuguesas que mais patenteiam, a nível mundial, há 10 deste setor. A Bial ocupa o primeiro lugar e a Hovione (empresa que sintetiza produtos químico-farmacêuticos para depois os vender às multinacionais) é a segunda.

Fala muitas vezes da sua Bial. Sente que a reputação da empresa foi de algum modo afetada com a morte de um voluntário, num ensaio clínico em França?

A morte de um ser humano, que era voluntário no ensaio clínico que decorria em Rennes, abalou-nos profundamente. Todos sabemos que a investigação para proporcionar novas soluções terapêuticas à Humanidade tem riscos deste tipo, mas, quando acontece connosco, ficamos muito abalados. A nossa preocupação foi perceber se tinha havido algum erro que tivesse provocado aquela situação. Até agora confirma-se que não cometemos erros grosseiros e que, por todos os dados recolhidos pela equipa de investigação de Bial e por outras equipas de investigação de produtos da mesma família terapêutica, nada fazia prever uma situação daquele tipo. O processo de investigação está em curso e nós ainda não tivemos acesso aos dados da autópsia do voluntário que faleceu, mas o Ministério Público francês emitiu um comunicado no qual diz que foi descoberta nesse voluntário uma lesão cortical oculta – que ninguém conhecia –, que existia muito antes da realização do ensaio e que explica a situação de morte. Os restantes voluntários que tiveram ações laterais recuperaram e estão a fazer a sua vida normal.

Está de saída do Health Cluster Portugal e também já passou a presidência executiva da Bial ao seu filho. O que lhe reserva o futuro?

Continuo a ser presidente não executivo da Bial, procurando apoiar, com a minha experiência, os mais novos. Vou dois dias por semana à empresa e ocupo-me das grandes linhas. Por outro lado, sou presidente da Fundação Bial. E vou dedicando mais tempo às minhas coisas e à família. Leio mais e escrevo algumas coisas. Estou mais com a minha mulher, com os meus filhos e os meus netos. E note que estou quase a ter o sétimo neto.

Como vê o futuro da Ciência? Que áreas estão por explorar, que preconceitos estão por vencer?

A evolução científica no século XX foi fantástica, mas, na minha opinião, muito focada na materialidade das coisas. O ser humano hoje tem um conhecimento enorme e detalhado do seu corpo físico e do mundo à sua volta. E esta dinâmica vai continuar. Mas, se o esclarecimento material foi fantástico, o espiritual ficou algo para trás. Ou seja, a Ciência não investiu suficientemente na investigação dos fenómenos de áreas como a parapsicologia. Há um conjunto alargado de fenómenos que hoje são cientificamente aceites e que não podem mais ser negados. Penso que a Ciência tem a responsabilidade de os investigar, desmistificando tabus, algumas balelas e situações de exploração da ignorância espiritual das pessoas. Desejo que, no século XXI, a Ciência contribua para o esclarecimento espiritual da Humanidade como no século XX contribuiu para o esclarecimento material. Em Portugal, desejo que a boa ciência que se faz seja melhor aproveitada pelas empresas, de modo a termos mais produtos e serviços inovadores e competitivos à escala global. Será a forma mais apropriada de ser criada a riqueza necessária para pagarmos as nossas dívidas e criarmos uma dinâmica de desenvolvimento económico que permita aos nossos filhos e netos viverem melhor.