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A Adega do Olho pode morrer enquanto o turismo esfrega o dito

Sociedade

LUCILIA MONTEIRO

O prédio onde mora uma das últimas tabernas centenárias do Porto foi vendido a investidores estrangeiros. Desenham-se programas e legislação para proteger estes lugares de tradição, mas chegarão a tempo?

Fica numa rua melancólica, de seu nome Afonso Martins Alho, entalada entre a das Flores e Mouzinho da Silveira, no coração do Porto mais antigo. Nos primórdios, a Adega do Olho, cujo batismo é um mistério por desvendar, era geografia almoçadeira dos pobres e remediados, cantina do operariado e de quotidianos aziagos. Hoje é o território onde a pressão turística e urbanística mais se faz sentir: primeiro foi-se a vizinhança e agora já mal resistem as lojas e lugares de tradição gastronómica ou outra. Na casa centenária, esta segunda-feira, 27, havia arroz à portuguesa e badejo. À sobremesa, rabanadas a desafiar todos os pecados e mais um. As tripas, de tão famosas e saborosas, tornaram-se afeto servido através de gerações, às quintas e sábados. Vêm famílias com crianças pela mão, casais e até turistas, de bem longe, para acabar a lamber os beiços tal e qual o comum dos mortais. Tudo vai à mesa em travessas fartas e preços de velhos tempos, quase arqueológicos (3,5 euros a meia dose). Na casa, ecoa a pronúncia cerrada do senhor Sousa, de bigode farfalhudo à Vasco Santana, do Pátio das Cantigas, ora bitaitando sobre o Benfica-Porto que aí vem, ora amanteigando o sorriso à medida que a desconfiança é deixada na beira do prato. “Calma, isto chega para todos!”, vai dizendo a quem se acabou de sentar e tem pressa.

Ali, os almoços atraem o Porto sem classes, do banqueiro ao bancário, do industrial ao empregado de balcão. O Jornal de Notícias circula de mão em mão, as canecas de tinto aterram sem parança nas mesas simples, qual aeroporto congestionado. A Adega do Olho acolhe memórias com dezenas de anos, emolduradas para freguês ver.

Tudo isto, porém, pode ter os dias contados.

Num abrir e fechar de olhos

O alerta foi dado pelo geógrafo Rio Fernandes nas redes sociais este domingo e Agostinho Silva, o proprietário, confirmou os maus presságios assim que o repórter se abeirou do balcão. “O prédio já foi vendido pelo senhorio a uma imobiliária estrangeira e disseram-nos que isto vai entrar em obras. Gostava de continuar aqui e manter as portas abertas, mas parece-me complicado”, referiu o homem que, há quase 30 anos, dá a cara por um dos últimos exemplares das genuínas tascas portuenses, de frituras e cozeduras de encher o bandulho e forrar a memória.

“Os bons velhos lugares do convívio do Porto”, como os batizou o historiador Hélder Pacheco no seu último livro sobre adegas, tabernas e casas de pasto, vivem dias de aflição. “Houve uma valorização da parte antiga da cidade e existe uma grande pressão urbanística e turística para a abertura de sítios novos, mas temos de saber preservar o simbólico além das pedras”, refere Rio Fernandes, um dos elementos do grupo de trabalho que, sob o chapéu da Câmara do Porto e no âmbito do programa Porto de Tradição, está a desenvolver um conjunto de critérios e medidas para evitar o definhamento de, pelo menos, 85 estabelecimentos históricos na cidade, de adegas a mercearias, passando por barbearias e lojas de atoalhados. “A cidade vive um momento de especulação imobiliária fora do comum”, reconhece, por outro lado, o presidente da Associação de Comerciantes do Porto. “Temos sido bastante agressivos nessa matéria. A lei do arrendamento comercial só veio piorar a situação e estamos a assistir a um conjunto de despejos nunca visto, sem que haja, pelo menos, um processo legislativo independente e autónomo que proteja o património material e imaterial das lojas históricas e permita aos seus proprietários respirar ou, pelo menos, proteger o que criaram”, alerta Nuno Camilo. Neste momento, o líder da organização de comerciantes deposita alguma esperança nas propostas legislativas do PS, do PCP e de “Os Verdes”, em discussão na Assembleia da República, que desencadeará um conjunto de medidas e incentivos para proteger as lojas e entidades com interesse histórico e cultural. “O valor de uma marca, do produto e de um conceito tem de ser protegido e é nesse sentido que se deverá caminhar para preservar a identidade dos estabelecimentos que fizeram a memória e a história do Porto. Era bom que a lei do arrendamento comercial também mudasse, mas aí já tenho mais dúvidas”, refere Nuno Camilo.

LUCILIA MONTEIRO

Monumentos imateriais

Criado há mais de três anos, o Grupo dos Amigos das Adegas e Tascos do Porto, cuja intervenção cívica tem sido elogiada por diversas entidades e personalidades portuenses, também recebeu a notícia do eventual desaparecimento da Adega do Olho com pesar. “Não é caso único e reflete este momento do Porto, onde os lugares carregados de memórias, símbolos vivos da história da cidade, travam um combate de David contra Golias por causa da pressão turística”, assinala Manuel Vitorino, da direção daquele grupo. “Pela nossa parte, temos alertado para a necessidade de encontrar formas de proteger estes lugares emblemáticos, de aliar progresso, tradição e modernidade. Não pode valer tudo”, defende Manuel Vitorino.

Enquanto vai dando trocos, limpando copos ou recebendo as travessas quentinhas provenientes da cozinha que seguirão, num ápice, para as mesas, Agostinho Silva não perde tempo com lamúrias. Para ele, sobram os factos. “Por mim, não desistia e mantinha este lugar onde tenho uma parte da minha vida”, assume, aos 57 anos. “Mas a verdade é esta: o prédio foi vendido, virão as obras e não sei se a seguir vem um hotel, um restaurante ou outra coisa qualquer. A minha vontade conta pouco nesta fase. Mudar a Adega do Olho para outro sítio é que não faz sentido”, admite. “Aqui é que está a sua história”, desabafa.

“Mais do que instituição ou coletividade, mais do que associação recreativa ou imóvel de interesse público”, a histórica Adega do Olho é, no dizer impresso de Hélder Pacheco, um “verdadeiro monumento” da cidade, pleno de sentimento, lugar “tripeiríssimo, autêntico e profundo. Como comida feita em casa”, escreveu. Conseguirá este santuário do velho burgo ser protegido de “maus-olhados”, “rutilâncias anodizadas”, “cosmopolitismos hamburgueiros” ou “novos-riquismos eurocráticos”?

Passa das duas da tarde.

O senhor Sousa abeira-se da mesa, recebe os 7,15 euros da refeição (pão, sopa, arroz à portuguesa, caneca de vinho pequena, rabanada e café) e agradece. Puxando o cliente pelo braço, acompanha-o à porta, a cochichar, soturno como o tempo invernoso que se vislumbra lá fora: “Olhe pró que lhe digo, meu amigo”, confidencia. “Por este andar, qualquer dia vamos todos morar para um hostel ou para um banco”.