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Cientistas portugueses descobrem proteínas que podem ser usadas em pilhas de combustível

Sociedade

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Esta descoberta pode ser aplica, por exemplo, em automóveis

© Benoit Tessier / Reuters

Equipa do ITQB Nova identificou uma enzima capaz de produzir hidrogénio de forma mais barata. Com a devida aplicação tecnológica, esta proteína pode ser usada na produção de energia limpa

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

A Medicina e até a Tecnologia está cheia de exemplos de imitações do que se passa na natureza. São os antibióticos que copiam o funcionamento de plantas ou fungos, as lentes dos telescópios baseadas no olho de determinado animal. Em geral, as coisas na natureza funcionam de forma mais eficiente. Ou de outro modo, o original é melhor do que a imitação.

Inês Cardoso Pereira, investigadora do ITQB NOVA, em Oeiras, dedica-se a descortinar todos os segredos de uma espécie de bactérias que habita ambientes ricos em enxofre, longe da luz solar, em condições pouco propensas à vida. Perceber como funcionam estes seres pode ser muito últil à nossa vida, de animais que precisam de oxigénio e de luz para sobreviver. Num trabalho publicado no ano passado, a equipa conseguiu preencher algumas lacunas no conhecimento do ciclo do enxofre. O que obrigou a corrigir os livros de estudo.

Agora, os cientistas conseguiram pôr o sistema de produção de hidrogénio destas bactérias - que vivem nos sedimentos marinhos ou até no nosso intestino - ao seu serviço. E fizeram isso como? Usando as proteínas, ou enzimas, das ditas bactérias que funcionam como um fábrica de hidrogénio. Na natureza, o hidrogénio é produzido por proteínas deste tipo, as hidrogenases, que juntam dois protões e dois eletrões para formar uma molécula de hidrogénio. Dito assim, parece simples. E de facto as hidrogenases conseguem fazê-lo em condições suaves, de baixa energia. Quando se tenta reproduzir o processo, de forma tecnológica, são necessárias grandes quantidades de energia, para alimentar uma reação química complexa.

O que a equipa do ITQB NOVA fez foi simplificar o método de produção e extração do hidrogénio, recorrendo às proteínas das bactérias. O que, espera-se, poode tornar mais barato o processo de produção de hidrogénio, considerado uma fonte de energia limpa e uma boa alternativa aos combustíveis fósseis, uma vez que não se liberta dióxido de carbono quando se utliza hidrogénio. Apenas água.

A importância do selénio

Neste trabalho, publicado esta segunda-feira na importante revista científica Nature Chemical Biology, mostra-se ainda que o selénio, um mineral que existe na natureza, nos solos e nos alimentos, tem um papel crucial neste processo. Precisamente por causa da sua função anti-oxidante, ou seja, da sua capacidade de anular os danos provocados pelo oxigénio.

Já há algum tempo que se fala das propriedades deste mineral e do seu poder anti-envelhecimento e anti-cancerígeno, o que tem levado ao desenvolvimento de suplementos alimentares à base de selénio.

No entanto, de acordo com o conhecimento atual, uma alimentação equilibrada, variada e rica em vegetais, onde se incluam os frutos secos, ovos e peixes gordos, é uma fonte mais que suficiente deste mineral. O excesso não só não traz qualquer benefício como pode até ser tóxico.