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A chave para compreender e curar o Alzheimer pode estar na população da Islândia

Sociedade

© Lucas Jackson / Reuters

Esta população tem características genéticas bastante homogéneas que permitem mapeá-la de uma forma única

Numa das cave do campus da Universidade da Islândia está um frigorífico que guarda 500 mil frascos com amostras de sangue de 150 mil pessoas, quase metade da população do país.

Os investigadores têm vários estudos em mente para este sangue, desde o tratamento do Alzheimer até à compreensão da inteligência humana. É que o segredo pode estar no ADN deste povo.

O isolamento da Islândia, um país remoto e cheio de cascatas e glaciares, e a população reduzida, que pouco aumentou ao longo dos anos, tornaram possível a existência de um fundo genético populacional relativamente homogéneo e pronto para ser estudado.

Este fundo de genes, que é constituído por 90% de puros islandeses levou o neurologista e especialista em genética Kari Stefansson de volta a casa, depois de 20 anos a viver e trabalhar no estrangeiro.

"Não há nenhuma vida na Terra que não seja baseada na informação que reside nessa miraculosa macromolécula a que chamamos ADN", disse Stefansson. Segundo ele, a peça perdida e mais fascinante que nos falta compreender é o cérebro e até essa grande explicação reside na genética.

Quando voltou à Islândia, o investigador fundou a deCODE, uma empresa que realiza estes estudos genéticos, com um objetivo ambicioso: o de mapear o genoma de todo o país.

A equipa da deCODE identificou os genes que têm impacto no desenvolvimento de patologias como o Alzheimer, as doenças do coração e o cancro da mama. A investigação é de tal forma profunda que estes cientistas conseguem, só olhando para o mapa genético de cada pessoa, dizer se aquele individuo gosta de palavras cruzadas ou tem uma mente artística.

O que há de especial com esta população, que se tem mantido relativamente à parte do resto do mundo, é que a maioria dos islandeses consegue identificar a sua linhagem até um só colonizador vinking, fazendo com que, de cada vez que os investigadores identificam uma mutação, seja muito mais fácil sinalizá-la.

O que se descobriu foi "uma variante de um gene raro, encontrado em cerca de 1% da população da Islândia que faz com que os seus portadores tenham uma possibilidade quase total de vir a sofrer de Alzheimer", explicou Stefansson.

Nada garante, no entanto, que esta variante seja uma opção que faça efeito nas populações heterogéneas.

O passo seguinte já foi dado pela Amgen, uma biofarmaceutica, que em 2012 iniciou um projeto para replicar o gene e chegar a um fármaco.

Achave deste projeto é o facto de já se saber que resulta em humanos, como explica Sean Harper, o responsável pela investigação e desenvolvimento da Amgen. E acrescenta: "começamos o nosso trabalho com a certeza de que o nosso target é realmente relevante em humanos, no que toca à fisiologia da doença".

Por fim, a investigação toda tem levantado diversas questões que dizem respeito à confidencialidade dos dados genéticos destes voluntários (as quase 150 mil pessoas que já doaram amostras de sangue). Mas em resposta, Stefansson garantiu que todos os dados do deCODE estão encriptados e têm um caráter anónimo.