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Novo tratamento conseguiu curar um terço dos doentes terminais de linfoma

Sociedade

© / Reuters

Os resultados foram extraordinários mas há que ter mais certezas relativamente aos efeitos adversos, explica uma investigadora portuguesa da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa

Os testes recentemente divulgados de uma farmacêutica, a Kite Pharma, a um novo comprimido para o linfoma tiveram resultados incríveis com um terço dos pacientes terminais do estudo sem revelar qualquer sinal da doença ao fim de um único tratamento.

O feedback é muito positivo mas o caminho pela frente é grande ainda. A farmacêutica avisou inclusive que um (baixo) risco de morte pode estar associado ao tratamento porque dois dos 101 pacientes analisados acabaram por morrer. Estes 101 participantes sofrem de linfoma não-hodgkin, o tipo mais frequente de linfoma, e todos os tratamentos que tinham feito até este trial tinham falhado. Tinham uma esperança de seis meses de vida e, cerca de nove meses depois deste tratamento, mais de um terço não tinha qualquer sinal do cancro e mais de metade permaneceu viva, contrariando as piores expectativas.

O tratamento recorre a uma terapia genética que prepara as células sanguíneas dos doentes para atacar o cancro. As células de defesa, muito adormecidas pelo cancro, são retiradas e melhoradas para depois se voltarem a implantar, já com muito mais "energia" para cumprirem a função.

Palavra à especialista

Sobra técnica, Helena Florindo, professora e investigadora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, explicou à VISÃO: "o que se faz é retirar os linfócitos T do doente e, no laboratório, modificam-nos de forma a que na sua superfície tenham recetores (CAR- T ou Chimeric Antigen Receptor T) com proteínas especificas para marcar as células tumorais. Quando as células crescem e já temos cerca de biliões e células prontas para reconhecer os marcadores, voltam a ser administradas com uma injeção."

Para descobrir mais sobre a técnica e os seus benefícios, releia a reportagem da VISÃO de 2015 que ganhou o prémio de jornalismo da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

No total, 82% dos pacientes viram os seus tumores reduzidos para mais de metade do tamanho original em algum momento do estudo.

Um dos pacientes envolvidos, Dimas Padilla, de 43 anos e residente em Orlando, reportou que o tratamento lhe "salvou a vida". "Não sabia como ia contar à minha família" mas depois do tratamento vi o cancro "reduzir como cubos de gelo". Disse, agora que está em remissão completa.

Ao jornal britânico The Independent, Roy Herbst, um especialista independente de oncologia e chefe de medicina no Yale Cancer Centre, mostrou-se surpreendido com o sucesso dos resultados. "Parece extraordinário... extremamente encorajador", disse. Alertou no entanto para o facto de serem necessários novos estudos que revelem se os benefícios do tratamento são duradores ou se o cancro volta. "Mas assinalando que "é, sem duvida, algo que gostaria de ter disponível (para os seus pacientes)".

Relativamente aos dois pacientes do estudo que acabaram por morrer, Helena Florindo adverte para a necessidade de se "compreender primeiro a forma de atuação do tratamento porque pode dar-se o caso de os anti-corpos atuarem não apenas nas células malignas mas também noutras, como as do pâncreas ou do coração e gerarem problemas associados, como algum tipo de diabetes, um dos exemplos que já se verificaram." Por tudo isto, falamos apenas ainda de um medicamento experimental, que só é, para já, administrado em casos terminais. No entanto, a investigadora não deixa de frisar: " Esta técnica tem sempre efeitos adversos mas são sempre muito menos do que o que acontece na quimioterapia. Além disso quando resulta verificam-se casos verdadeiramente impressionantes. Estamos longe de dizer que a imunoterapia nos pode fazer ganhar a luta contra o cancro mas a verdade é que há casos de crianças com leucemia, algumas de meses, que conseguiram remissão total com estes tratamentos, ou doentes que estão vivos há 10 anos e iniciaram o tratamento com uma perspetivas de meses de vida. "

Por fim, Helena Florindo explica que não são só as questões éticas e de aprovação que comprometem o uso desta técnica: "como são terapêuticas genéticas absolutamente personalizadas têm custos muito elevados. Por isso vemos vantagens em trabalhar também para ter vacinas contra determinados cancro, como fazemos em Portugal, porque assim chegamos a um produto acabado e padronizado." Estamos ainda longe, disse, mas a trabalhar nesse sentido.

(Artigo de Carolina Bernardo Pereira)