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Sibéria: A cratera que não para de crescer

Sociedade

Image: Research Institute of Applied Ecology of the North/Alexander Gabyshev

Especialistas consideram que o crescimento da cratera Batagaika é um indicador alarmante do aquecimento global

Chama-se Batagaika, tem um quilómetro de comprimento e 86 metros de profundidade e estima-se que vai continuar a crescer. Os cientistas dão 200 mil anos a esta cratera russa considerada, pelos habitantes locais mais assustadiços, uma "porta para o inferno", como conta a BBC, que, por isso, tentam manter-se longe dela.

Por ser tão antiga e por apresentar camadas de sedimentos formados há tantos anos, os cientistas têm-se interessado em conhecê-la melhor. É o caso de um grupo de investigadores da Universidade de Cambridge, que, ao monitorizar a cratera, descobriu que, através das camada, se podem tirar algumas conclusões interessantes sobre as mudanças climáticas que ocorreram ao longo do tempo.

Nos 200 mil anos de existência da Batagaika, o clima terrestre foi-se alterando, repetidamente, entre períodos interglaciais relativamente quentes e períodos glaciais mais frios, nos quais foram aparecendo muitas folhas geladas. Este historial geológico possível de analisar através da cratera não é comum e, apesar de ainda não terem conseguido estabelecer um cronologia das fases, Julian Murton, um dos autores do estudo, diz que é possível interpretar o passado climático e ambiental daquela zona da Sibéria. Mas não só.

Há 125 mil anos, a Terra atravessava um período interglacial, no qual a temperatura era uns graus acima da que é hoje. "Se conseguirmos perceber como era o ecossistema antes, teremos mais conhecimento sobre a forma como o ambiente se adaptará ao aquecimento climático", revela o investigador à BBC.

A cratera tem também sido monitorizada pelo Instituto Alfred Wegener, em Potsdam, na Alemanha, que utilizou imagens de satélite para calcular o crescimento médio da Batagaika, ao longo dos últimos anos. Os resultados mostram que, nesta década, a cratera cresceu uma média de 10 metros por ano e, em anos mais quentes, o aumento chegou mesmo aos 30 metros.

Mas este crescimento tem consequências preocupantes. Muitos depósitos de gelo do pergelissolo estão agora a ser expostos e, à medida que descongelam, uma maior quantidade de carbono é exposta a micróbios, que o consomem, produzindo dióxido de carbono e metano, dois dos principais causadores do efeito estufa.

"O aquecimento acelera o aquecimento e, no futuro, poderemos ver mais estruturas como a cratera de Batagaika", diz Frank Günther, investigador do instituto alemão. Até agora, não foi encontrada nenhuma forma de parar o seu crescimento.