Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Porque continuamos a acreditar em notícias falsas

Sociedade

DR

Os factos não mudam a forma como pensamos. Porquê? A resposta está na Teoria da Evolução

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Não há duas oportunidades para causar uma boa primeira impressão. E também é sabido que mesmo as pessoas mais racionais do mundo, tomam decisões irracionais. Diz o senso comum e mostraram experiências conceituadas, feitas já na década de 70, na Universidade de Stanford. Mas como é que chegamos até aqui?

Num novo livro, O Enigma da Razão, os cientistas cognitivos Hugo Mercier e Dan Sperber respondem a esta questão. Tal como o bipedismo ou a visão a três dimensões, a razão é um resultado da Evolução. Surgiu nas savanas africanas e é preciso não perder isto de vista quando se analisa a forma como nós humanos vemos o mundo.

A grande vantagem dos humanos, relativamente aos restantes animais, é a nossa capacidade de cooperar. Mas a vida em grupo é difícil de manter. E foi para a facilitar que apareceu o pensamento lógico. Não para resolver o Teorema de Pitágoras ou compreender a experiência do Gato de Schroedinger.

“A razão é uma adaptação aos seres hipersociais em que os humanos se tornaram, como resultado da evolução. Ideias feitas que parecem estranhas ou patetas de um ponto de vista dos intelectuais, revelam-se vantajosas quando vistas numa perspetiva da interação social", escreve-se na New Yorker, numa crítica ao livro.

Esta necessidade de pertença, de fazer parte do grupo, também acaba por justificar a tendência para aceitar informação que venha ao encontro das suas ideias, rejeitando informação que as contradiga. Um fenómeno conhecido como o viés da confirmação.

No livro, os cientistas ilustram a diferença entre humanos e animais: Um rato que acreditasse em algo tão falso como "não há gatos" teria os dias contados. No entanto, entre os humanos há quem defenda ideias tão prejudiciais à sobrevivência da espécie como a anti-vacinação. "Tem de haver uma função adaptativa. E só pode ter a ver com a hipersociabilidade do Homem". No tempo das cavernas, era muito mais vantajoso ganhar uma discussão do que pensar da forma mais racional.

Fornecer informação rigorosa às pessoas parece não ajudar. Pura e simplesmente, as pessoas ignoram-nas. Apelar às suas emoções parece resultar melhor. Mas fazê-lo é obviamente anti-ético, com a promoção de boa ciência. "O desafio que prevalece", escrevem os autores, "é descobrir a forma de chegar às tendências que levam às falsas crenças científicas." E aos factos alternativos e afins.