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Como uma homenagem aos sírios mortos na guerra pôs um artista sob proteção policial

Sociedade

Uma instalação com três autocarros colocados na vertical, no centro de Dresden, na Alemanha, levou um grupo de extrema-direita a insultar e a ameaçar o autor de origem síria

Manaf Halbouni, 32 anos, é filho de pai sírio e mãe alemã. Nasceu em Damasco, na Síria, mas desde há nove anos que vive em Dresden, na Alemanha, onde estão as raízes maternas. Manaf, que estudou escultura na Universidade de Belas Artes local, nunca esqueceu as suas origens. E o eclodir da guerra civil na Síria, em 2011, redobrou-lhe as preocupações.

Em dezembro, o artista viu uma fotografia de Alepo – uma das cidades mais martirizadas pela guerra – que o deixou a pensar. Nessa fotografia viam-se vários autocarros, colocados na vertical, que os habitantes de Alepo assim tinham posto como forma de barricada, para se protegerem das constantes rajadas de metralhadora. “A imagem comoveu-me”, disse a uma rádio alemã. A comoção deu lugar à ação e, esta semana, inaugurou uma instalação com três autocarros colocados na vertical na principal praça de Dresden. Não cobrou nada pelo trabalho e teve a ajuda de dois mecenas e da própria autarquia para conceber o projeto.

“Isto não é uma cópia direta daquela barreira de autocarros em Alepo, mas sim um memorial, que recorda a guerra e as expulsões e que pretende promover a Paz”, frisou Manaf. Desde 2011, mais de 400 mil pessoas morreram na guerra civil síria e cerca de 4,5 milhões abandonaram o país.

Mas a instalação do artista germano-sírio causou protestos de grupos de extrema-direita e ele está, agora, sob proteção policial depois de ter recebido ameaças de morte através das redes sociais.

Aliás, durante a inauguração da obra, a que Manaf chamou Monument, na segunda-feira, vários membros de direita radical tentaram boicotar o momento e os autocarros passaram a ser vigiados pela polícia dia e noite. E assim vão continuar até 3 de abril, data em que serão retirados.

Um dos grupos mais ativos na condenação daquilo que consideram uma ofensa à cidade por causa do denominado Massacre de Desdren – bombardeamento, durante a II Guerra Mundial, em que morreram 25 mil pessoas – são os Pegida (acrónimo alemão para Europeus Patrióticos contra a Islamização do Ocidente), que gritaram palavras de ordem com alusões nazis. Os Pegida são um movimento anti-imigração e anti-islão fundado em Dresden, em 2014.

Aproveitando a polémica, o partido populista Alternativa para a Alemanha (AfD) fez uma comunicado para atacar “um migrante desenraizado” que quer “contribuir para a reorientação da Europa” para que esta fique “sob domínio árabe”. A autarquia local e os representantes da Saxónia (estado federal onde se encontra a cidade de Dresden) apoiaram a obra de Manaf Halbouni.