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A história do ex-sem-abrigo que fugiu de casa em criança e pagou o almoço a Marcelo

Sociedade

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Paulo Fernandes, fotografado pela VISÃO em 2010, à entrada da estação de Santa Apolónia, onde viveu durante 10 anos

LUIS BARRA

Para promover a ideia de "um Portugal mais justo", o Presidente da República almoçou esta sexta-feira em casa de Paulo Fernandes e Filipa Cunha, em Telheiras. O anfitrião de Marcelo largou os pais divorciados "aos 7 ou 8 anos" e viveu quase três décadas ao relento nas ruas de Lisboa. A VISÃO contou a sua história em 2010, em vésperas do casamento, num artigo que agora republicamos

O vício do álcool tolheu-lhe a memória. Faz um enorme esforço para se situar no tempo. Não se lembra de datas. Também não se recorda de nomes. Dos nomes dos que, como ele, vivem cada dia no limite da sobrevivência. Na rua. Esta é a história de um menino que se fez homem nas ruas e vielas de Lisboa. Vinte e sete anos vividos - repete-se - na rua. Em sítios por onde todos passam e desviam o olhar, talvez protegendo-se de uma dor que, afinal, também é deles.

Façamos um forward na narrativa. Paulo Fernandes, 39 anos, é um ex-sem-abrigo que conseguiu desatar o nó com que o destino o quis asfixiar. Agora, a três dias do seu casamento, olha para o futuro. Só para o futuro. Tem casa, trabalho e encontrou a felicidade ao lado de Filipa Cunha, 37 anos, empregada doméstica. De bigode aparado e fato completo vestido, orgulha-se do que conquistou. Mas não esquece os que ainda não saíram dos cartões feitos cama, nas frias pedras da calçada. Por isso, os votos matrimoniais vão ser concretizados perante os seus ex-companheiros e quem o ajudou, durante a festa de Natal da Comunidade Vida e Paz, na capital.

MÃE DE RUA

Paulo Fernandes caiu no abismo demasiado cedo. "Aos 7 ou 8 anos fugi de casa." As palavras são duras. "Fartei-me de ser um estorvo para os meus pais que, depois de se separarem, me empurravam para a casa ora de um ora do outro." Nenhum deles alertou a polícia quando o filho desapareceu. Paulo, que se escondia das autoridades, ficou entregue a si próprio. O fantasma do filho-empecilho haveria de o perseguir durante muitos anos. De o formatar para uma realidade com que aprendeu a viver. A rua.

A primeira noite, de 27 longos anos sem teto, foi passada junto do lisboeta Palácio da Independência. Não se lembra de como lá foi parar. "Andei, andei e fiquei ali." Aí conheceu Ana - "acho que era esse o nome dela" -, uma sem-abrigo cega que fez as vezes da mãe. "Aconchegou-me." Durante algum tempo, o Paulo menino comeu os bolos e as sandes que os donos dos cafés das redondezas lhe davam. Dividia com Ana essas migalhas. Ainda não sabia que havia balneários públicos para tomar banho e trocar de roupa. "Passado um tempo, a Ana morreu." Ao seu lado. Na rua. A voz embarga-se-lhe e os olhos ficam húmidos. "Fiquei sozinho." Não consegue precisar quanto tempo foi aconchegado por Ana. Na rua, os dias são sempre iguais. Apenas passam.

A mãe procurou-o. Encontrou-o. "Ela apoiou-me, mas não me podia levar para casa porque o meu padrasto não deixava." Disse-lhe: "Não te preocupes, mãe, eu hei de lutar." Deambulou pela zona dos Restauradores e acabou por se juntar a um grupo de homens que pernoitava às portas do Coliseu dos Recreios. Tinha "uns 14 anos" e imergiu ainda mais fundo na escuridão, empurrado pelo vício do álcool - que se prolongaria por 13 anos. "Fui influenciado pelos outros. Diziam-me que se bebesse esquecia tudo." E ele queria esquecer. As idas à taberna começavam logo pela manhã. Vinho ou bagaço serviam para estorvar a memória. À noite, o Paulo adolescente e os companheiros juntavam o dinheiro que tinham arranjado a pedir durante o dia - "nunca roubei" - e compravam garrafas de vinho. Decorreram mais alguns anos. A rotina foi sempre a mesma. Amarga. Descobriu, entretanto, os balneários públicos. Passou a tomar banho. A roupa ficava a cargo das carrinhas de associações de solidariedade. "Deitava fora a que tinha e vestia a que me davam." Mas os companheiros viram, na sua juventude, um alvo fácil. "Queriam que eu arranjasse dinheiro para todos beberem." Fugiu. E viu-se sozinho - outra vez.

RESISTENTE 'ENCARTADO'

Vagueou, novamente, pelas ruas. Um pedaço de cartão era suficiente para se aninhar debaixo de uma arcada. "Dormia onde calhava." Até que, por acaso, acercou-se da estação de Santa Apolónia. "Foi onde estive mais tempo, talvez uns dez anos." A rotina, essa, era a mesma. Pedir. Beber. Paulo, já homem, ganhou a simpatia do dono de um restaurante da zona, que lhe dava as sobras de comida. A mãe voltou. Outra vez. "Mas eu estava tão bêbado, quando falei com ela, que não liguei nada ao que disse." Talvez para fantasiar uma ilusão, passou a andar, sempre, de fato e gravata - que pedia nas tais carrinhas. À ajuda das instituições, que por ali passavam para distribuir alimentos e queriam tirá-lo daquela situação, disse sempre "não". A rua entranhara-se-lhe.

Até ao dia em que, há cinco anos e num estado febril grave, foi levado pela Comunidade Vida e Paz (CVP). Esteve internado dois meses, num hospital. "Os médicos diziam que não me safava." Safou-se e iniciou um logo processo de recuperação. Foi para a Quinta da Tomada, da CVP, fez a desintoxicação do álcool e, pela primeira vez em 27 anos, teve um teto para dormir. Aos 34 anos, Paulo Fernandes começou a viver.

Teve a ajuda da Santa Casa da Misericórdia, que lhe alugou um quarto e providenciou alimentação, e foi, aos poucos, adquirindo outros hábitos. Estreou-se a trabalhar na Câmara Municipal de Lisboa - "Queriam que eu fosse um exemplo para outros sem-abrigo. Para os tirar da rua." Mas sofreu uma recaída e voltou à rua e ao álcool. Os amigos da autarquia lisboeta resgataram-no. Recomeçou, outra vez.

Uma pneumonia haveria, então, de lhe dar uma má notícia. Diagnosticaram-lhe o vírus da sida. "Na rua, também havia mulheres e eu estive com elas." Não se deu por vencido. Entretanto, conheceu Filipa Cunha e o romance nasceu. "Só queremos ser felizes", resume ela.

Hoje, Paulo e Filipa vivem numa casa camarária. Ele já não se esconde da polícia, muito pelo contrário. É, como orgulhosamente diz, "diretor adjunto do Boletim Informativo do Sindicato dos Profissionais de Polícia". Melhor era impossível.

Casamento único

O enlace de Paulo e Filipa dava um filme A lua-de-mel já está assegurada. Paulo Fernandes e Filipa Cunha foram presenteados com idas ao Porto, Faro e Madeira. O fato do noivo e o vestido da noiva foram oferecidos pela madrinha de casamento, a fundadora da Comunidade Vida e Paz, irmã Maria Gonçalves. O padrinho é João Taveira, um dos amigos do tempo em que Paulo trabalhou na Câmara de Lisboa e atual presidente da Junta de Freguesia de S. Jorge de Arroios. À festa, que se realiza na cantina da Universidade de Lisboa, no domingo, 19, com ex-companheiros sem-abrigo como convidados, não faltará um enorme bolo oferecido por uma pastelaria. Paulo foi salvo, primeiro, pela determinação de quem o quis ajudar. Mas, sem a sua vontade de sair das trevas, não teria conseguido. "Há salvação!", diz. Encontra-se, agora, numa espécie de antecâmara. Está a começar e a aprender. A viver. Com todos os ses e mas da partilha em sociedade. Sobrecarregado de porquês e incertezas. Porém, já pode dizer "amanhã".