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O meu amor é uma máquina: Quando a inteligência artificial é companhia íntima

Sociedade

Jeff J Mitchell / GettyImages

A Inteligência Artificial está a seduzir cada vez mais gente. Literalmente - ao ponto de ser vista como companheira íntima, alternativa ao contacto humano

Clara Soares

Clara Soares

Artigo publicado na VISÃO 1244 de 5 de janeiro

Jornalista e Psicóloga

Apaixonei-me e vamos casar". Até aqui, nada de novo. A surpresa vem da noiva, uma jovem francesa que nunca gostou de contacto físico e descobriu, aos 19 anos, a sua atração por máquinas com aparência humana. Lilly desenhou o seu parceiro de sonho, imprimiu-o em 3D e deu-lhe nome. Ao jornal britânico Daily Mail afirmou que só espera que o seu país legalize o casamento entre humanos e máquinas para formalizar o "relacionamento" de um ano com o seu Inmmovator. Insólito? Perturbação mental? Ou mais um sinal da diluição da fronteira entre realidade e ficção, a par desse estranho fenómeno que é a fuga da proximidade? Assim acontece entre os japoneses: um em cada quatro homens nos seus trintas ainda é virgem, e praticamente metade (49,3%) dos adultos em idade fértil (entre os 16 e os 49 anos) não mostra interesse em sexo.

Curiosamente, não lhes faltam números e estudos sobre o assunto, que até já tem nome: "síndroma do celibato." Por cansaço, tédio e, até, medo da rejeição, há millennials nipónicos dispostos a pagar mais de três mil euros pela companhia de uma assistente virtual holográfica.

A pequena Azuma Hikari (Gatebox), não difere muito das assistentes pessoais disponíveis no mercado pelas principais gigantes tecnológicas (Apple, Google, Microsoft, Amazon). O apelo do gadget inteligente assenta na imagem antropomórfica e capacidade de simular presença e romantismo, por via das mensagens ("vem cedo para casa", "sinto a tua falta") que geram conforto e aliviam a solidão dos celibatários urbanos.

FALAR PARA O BONECO (COM VOZ)

Programados para responder às necessidades, os utilitários digitais criam a ilusão de uma intimidade fácil, ao sabor das conveniências e gostos de cada um, sem as complicações frustrantes das relações ("ralações"?) analógicas, ou face a face. Em síntese, é como se cada humano tivesse direito à sua companhia genial, contida numa lâmpada mágica de Aladino: "Às suas ordens, senhor(a)." Ou a revolução sonhada, tanto quanto temida, que encontramos em clássicos como Blade Runner (filme inspirado no livro de Philip K. Dick e que regressa aos cinemas em outubro, com desenvolvimentos ocorridos em 2049) ou Her (filme de Spike Jonze, de 2013, sobre a relação as ligações íntimas que as pessoas desenvolvem com os seus sistemas operativos inteligentes, numa sociedade futurista).

E, agora, a pergunta que fazem tantos investigadores, da neurociência à física: se um sistema eletrónico é capaz de processar informação, simular (mesmo que de forma grosseira) emoções e aprender com o utilizador, é de admitir que tem consciência? Se sim, terá personalidade jurídica e direitos legais? O mito de Pinóquio, que ganha vida e personalidade própria (com a ajuda do Grilo Falante) parece estar mais vivo que nunca, embora estejamos só no começo.

Depois dos metro, uber e lumbersexuais, preparem-se os criadores e divulgadores de tendências: vem aí o robossexual.

A proximidade entre as duas 'espécies' foi ventilada nos anos oitenta pelo jogador de xadrez e perito em inteligência artificial David Levy. O título do seu livro, lançado há uma década, serviu de mote para o congresso internacional Love and sex with robots. Na segunda edição, em finais de dezembro, em Londres, o especialista não teve dúvidas: o casamento entre humanos e androides vai ser legal até 2050.

Até lá, os interessados em bots, com fins comerciais, de entretenimento ou amorosos (chatbots, lovebots, lovedroids), dispõem de uma panóplia de tutoriais na web. Na vida de todos os dias, arriscam-se perguntas atrevidas na interação com "a voz" de Siri, Alexa, Google Assistant ou Cortana (um teste indireto às capacidades criativas dos programadores): "Qual é o teu género?" E fica-se na mesma, ou seja, é como o sexo dos anjos. A voz é configurável e a linguagem tem dias. Os utilizadores portugueses contentam-se com o português do Brasil, quando essa opção está disponível. Mesmo assim, a maior parte das respostas é "ao lado". Manuel Dias, responsável de gestão e análise de informação da Microsoft, explica porquê: "Em Portugal ainda não há um ecossistema que integre vários serviços dentro de um assistente virtual, mas no dia em que tal acontecer, metade das interações (com bancos, restaurantes, viagens, concertos) serão automatizadas." À explosão dos bots e assistentes alimentados pela inteligência artificial (IA) nos serviços e no mundo laboral, alia-se a febre da experimentação. Por exemplo, dias antes do Natal, Mark Zuckerberg lançou um vídeo com a demonstração do seu novo "brinquedo" de IA, fruto de um ano de trabalho e ainda em testes. Jarvis (nome do fiel mordomo de Iron Man, da Marvel, e é também um acrónimo para IA) é exímio na técnica (entreter a filha Max, ativar a torradeira, atirar uma camisola lavada, acionar o sistema de home video), mas o que deixou os seguidores rendidos foi mesmo a voz. O CEO do Facebook já tinha experimentado a de Arnold Schwarzenegger "um pouco agressiva", revela a mulher, Priscilla Chan, no vídeo que publicou também sobre a app inteligente.

Morgan Freeman foi "a voz" eleita, e a que todos os fãs de Zuckerberg gostariam de ter ao lado, desde o acordar até ao adormecer (por ser uma voz que humaniza qualquer interação). Mas, e há sempre um mas, parece que Jarvis só responde à voz do dono. Para alguns, pode parecer apenas uma brincadeira. Talvez seja bem mais que isso. Voltando a Manuel Dias, da Microsoft: "a interação natural por voz será o novo normal como é hoje o touch; em dois ou três anos, deixaremos de teclar para falar com máquinas".

NARCISAR POR AÍ

No seu novo livro Reclaiming the Art of Conversation in the Digital Age, a psicóloga e investigadora americana Sherry Turckle, do MIT, refere que, em duas décadas, a empatia entre estudantes universitários caiu 40%, algo que ela atribui à perda de capacidade para interpretar a diversidade de expressões faciais e seus significados. Turkle acrescenta que a visão algorítmica da vida se reflete num maior isolamento. Caso para dizer que nunca estivemos tão ligados aos nossos dispositivos e, por inerência, aos nossos umbigos.

Consequentemente, mais permeáveis a novas "necessidades", atraídos pelo consumo de dispositivos programáveis à medida dos nossos desejos infantis.

O guru da IA David Levy vê nos androides (com inteligência incorporada em corpos sintéticos "amigáveis") eventuais esposos, desenhados para serem "pacientes, confiáveis, generosos e que não se queixam".

Contudo, a amplitude de apetites humanos é grande, bem como a necessidade de estar em controlo, e essa sim, mais difícil de assegurar, como se ilustra, no segundo episódio da série Westworld (da HBO e inspirada no filme de 1973, a partir de romance de Michael Crichton). "Queres perguntar, pergunta", diz ela. "És real?", indaga ele. "Bem, se não consegues dizer, isso importa?" Outra coisa que assombra os contraditórios humanos é a previsibilidade dos seus "companheiros geniais", ao ponto de quererem livrar-se deles, como se pode ver na série Black Mirror (Netflix), uma sátira à nossa relação (quase cega) com a tecnologia.

No episódio Be Right Back, que mereceu já uma análise académica e esteve na base de novos serviços pos mortem no mundo real, uma jovem viúva recorre a um programa de AI que tem um avatar do falecido. Martha interage com ele (também sexualmente) após descarregar dados das suas pegadas nos media sociais. Ash vem a ser uma fonte de dissabores, já que apenas lhe oferece "a melhor versão de si", polida, artificial, e Martha só deseja acabar com ele. Será ético? E que dizer da campanha levada a cabo em Inglaterra e na Suécia contra os robots sexuais, por ameaçarem os trabalhadores do sexo e por receio do impacto dos sistemas artificialmente conscientes nos relacionamentos entre humanos? Ainda não é tarde para pensar nos dilemas da tecnologia, mas é seguramente cedo para presumir que os contactos interpessoais serão substituídos por ela. Sónia Pedro Sebastião, doutorada em ciências da comunicação, apresenta uma hipótese plausível: "O ser humano não 'aprecia' coisas difíceis, por isso é que foge de relacionamentos, e tenho dúvidas que os portugueses, pessoas de afetos, adiram a estas 'febres' para além de um teste de curiosidade."