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O regresso do padre do rock português

Sociedade

'Faces' é o segundo álbum do padre Victor Silva

Sete anos depois do lançamento do primeiro disco, Victor Silva está de volta com um novo álbum em registo pop-rock, "com um toque british", como o próprio revela à VISÃO.

Se está à espera de músicas celestiais, do género ‘põe a mão na mão do teu Senhor’, o melhor é desistir já. E nem é pelas letras, que falam quase todas de amor e de esperança em amanhãs que cantam. É mesmo pela música, que sai do registo canónico habitual, pelo menos para um padre, e do visual, que também não encaixa na imagem a que estamos habituados. O cabelo comprido e desgrenhado é, de resto, o logótipo da sua página pessoal. Victor Silva, 41 anos, foi o primeiro padre português a gravar um videoclip profissional, com o tema Promessas, e teve duas canções escolhidas para banda sonora de uma telenovela. É fã de Pink, The Killers e 30 Seconds to Mars, bandas que ouve no carro em alto e bom som. Victor Silva é sacerdote há 14 anos e, depois de ter andado mais de uma década em missão pelo nordeste transmontano, é agora o líder espiritual das gentes de São João Batista de Avões e São Pedro de Samodães, em Lamego, funções que acumula com as aulas de Religião e Moral no agrupamento de escolas de Castro Daire, concelho de onde é natural, e a música, claro. Agora regressa com um disco gravado e produzido por Nuxo Espinheira, dos Blind Zero e que conta com a participação de Guilherme de Sá, vocalista da banda Brasileira Rosa de Saron.

O CD só estará disponível ao público em fevereiro do próximo ano mas já pode ser ouvido nas principais plataformas digitais desde outubro.

Que disco é este FACES? O que tem ele de diferente do primeiro?

FACES é um álbum com uma sonoridade diferente do PALAVRAS. Tem um registo mais pop-rock, diria até com um toque british, com o qual eu me identifico. Foi escrito durante 3 anos. Escrevi cerca de 30 canções, das quais apenas escolhi onze para fazerem parte deste álbum. FACES fala das questões inerentes ao ser humano, os afetos, o amor, a amizade, as incertezas. Conta um pouco da minha história enquanto homem e enquanto padre e histórias de pessoas anónimas. As onze canções são as FACES que cada um tem em circunstâncias diferentes da vida.

Que tipo de música o influencia? O que costuma ouvir?

A música que escolho varia de acordo com o meu estado de espírito. Neste momento ando a ouvir uma banda portuguesa que se chama 5ª Feira 12. Têm boa sonoridade. As minhas referencias musicais são os ColdPlay, Pink, U2, The Killers, 30 Seconds to Mars e tantas outras bandas que gosto de ouvir bem alto no carro durante as minhas viagens.

Um padre rockeiro pode fazer aumentar o rebanho ou o Pe. Victor vê a música apenas como um prazer e um complemento do sacerdócio?

A música para mim é algo que me completa enquanto ser humano. É algo de que gosto. Gosto de escrever e de compor e gosto de mostrar aos outros aquilo que escrevo. Espero que o rebanho se reúna não pelo padre mas pelo pastor que é Cristo. Ele não falha. Eu falho.

Há nas suas músicas alguma intenção de passar alguma mensagem?

A letra é sempre importante. Mas se a sonoridade não for agradável, a letra perde-se. É importante que haja uma ligação entre o que se canta e o que se toca e a forma como se toca. A mensagem está lá. É difícil mudar o mundo. Mas é ainda mais difícil mudar o nosso mundo. Eu procuro passar uma mensagem positiva.

Como é que acha que as pessoas o veem?

Relativamente aos mais novos é mais fácil porque como lido com eles todos os dias na escola por onde tenho passado. Sei lidar bem com eles porque estou no meio deles e isso facilita. Os mais velhos têm-me surpreendido pela positiva. Acho que gostam mais da minha maneira de ser do que do rock que eu canto. Mas é bom começar a gostar por algum lado.

E a hieraquia da Igreja já lhe fez sentir algum desagrado ou não?

Eu e o meu bispo, D. António Couto, nunca falamos sobre a música. Às vezes lá me diz, ‘então Victor, como vai a música?’, mas só isso. O anterior Bispo de Lamego, D. Jacinto Botelho, acompanhou o meu primeiro álbum e felicitou-me pela coragem e pela ousadia. Porque ter dois temas numa novela da TVI, como eu tive do meu álbum Palavras, poderia ser motivo de crítica. E foi de facto, mas pela positiva. Sinto que vou abrindo portas para que outros projetos apareçam.

Imagina o Papa Francisco a atuar na banda? Que instrumento o veria a tocar?

Isso seria um privilégio muito grande, mas a tocar instrumento musical não sei, mas a bater palmas sim. Sinal que estava a assistir a um concerto meu. Espero em breve poder fazer chegar ao Papa Francisco o álbum FACES. Mesmo antes da vinda dele a Fátima, em 2017.

Já há data para o lançamento do disco em CD?

O disco já pode ser descarregado nas plataformas digitais. Em CD o lançamento vai ser em fevereiro do próximo ano. Nessa altura apresentarei também o segundo videoclip, que será uma enorme surpresa e com uma grande produção.

E já tem datas para concertos?

Estamos a marcar concertos para depois de fevereiro de 2017, depois da apresentação do álbum. Tenho em carteira algumas datas marcadas pelo país e em maio estarei no Canadá.

Para além da música também gosta de futebol e é adepto do Benfica. É daqueles que vibra com os jogos, que vai ao estádio ou que ouve os relatos?

O futebol para mim tem duas vertentes. Em primeiro lugar é um momento de convívio com os amigos, de partilha, de petiscar, de cimentar as relações pessoais e humanas. Depois claro, o meu benfiquismo leva-me para fora de mim quando as coisas não correm bem. Vou ao Estádio da Luz ver jogos e sinto-me em casa, ou não fosse a Catedral. Mas sinto que falta cada vez mais o respeito no desporto, muita falta de desportivismo.