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O dia em que Michael Jackson se escondeu num carrinho do serviço de quartos

Sociedade

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© Reuters Photographer / Reuter

Quando os guarda-costas dos super ricos e famosos contam o que viram – e veem –, nós, mortais comuns, ficamos a abrir e a fechar a boca de espanto. Suites transformadas em sala de operações, mafiosos russos a cravarem casacos de pele, bilionários que comunicam por Post-it – há de tudo nesse mundo

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

São vidas que dariam para vários guiões de filmes série B – só que o secretismo à volta delas manda que pouco se vá sabendo. E, quando se sabe alguma coisa, o mais certo é ninguém acreditar ser verdade.

Nunca fez tanto sentido escrever que a realidade ultrapassa em muito a ficção, conclui-se ao ler que foi uma sorte Michael Jackson ser de pequena estatura, ou nunca o seu guarda-costas teria conseguido tirá-lo de um hotel sem ser visto. A história demora mais a contar do que o tempo que Bill Whitfield, o homem que acompanhou o autor de Thriller nos seus últimos dois anos e meio (mas não estava com ele na noite em que morreu), gastou para tomar a decisão.

“Em três ocasiões, recebemos telefonemas de gerentes de hotéis a avisarem que alguém tinha feito uma chamada ameaçadora”, contou Whitfield ao Guardian. “Então, era preciso sair de lá a meio da noite, e, numa das vezes, escondemo-lo num carrinho do serviço de quartos.”

Bill Whitfield, que há dois anos escreveu, com o seu colega Javon Beard, Remembering the Time: Protecting Michael Jackson in His Final Days, considerava-se amigo do cantor. Era a primeira pessoa e a última com quem ele falava de manhã e à noite. “Ninguém chegava ao Mr. Jackson sem ser através de mim”, garante.

Além de zelar pela sua segurança, Whitfield era a pessoa com quem ele satisfazia os caprichos. O guarda-costas lembra-se de ir fora de horas a livrarias, onde o cantor comprava tudo, de levar os seus filhos a parques temáticos, dos SUV que serviam de engodo para despistar fãs, e dos nomes falsos utilizados nos hotéis (durante algum tempo, usaram Barney Rubble, uma personagem dos desenhos animados Filinstones).

Segundo Whitfield, debaixo da máscara Michael Jackson “era normal como nós”. Podia ser verdade, mas a vida que levava era tudo menos normal. A fama obrigava a que os seus guarda-costas fizessem o pino, se preciso, para o proteger – uma metáfora para deixar claro que a segurança do “principal” (como é conhecido habitualmente o cliente) está sempre primeiro.

No mesmo artigo do Guardian, Shawn Engbrecht, um agente das operações especiais do exército americano que fundou a empresa CASS Global Security, há 18 anos, explica que o segredo é nunca correr riscos. Se um cliente quer ir, por exemplo, a Paris, uns dias antes Engbrecht envia para a capital francesa uma equipa que há de fazer a ligação com agentes locais, preparar percursos, inspecionar o hotel, instalar sensores e câmaras, e montar uma sala de operações numa suite. O “principal” trará sempre consigo um botão de pânico e nunca poderá andar a mais de 8 segundos de distância dos guarda-costas.

Todos os cuidados são poucos, sabe também Iain Robertson, um antigo paraquedista que se tornou guarda-costas e acompanhou bandas de música durante as digressões. Nos anos 2000, estava ele em Moscovo com o músico inglês Marc Almond quando deixou que um grupo de mafiosos russos o transformasse num saco de boxe para a banda poder fugir de uma discoteca. Tudo porque a mulher do chefe dos mafiosos cobiçara o casaco de peles de Almond e o cantor não quis dar-lho.

Ainda mais cómico foi o que aconteceu a Engbrecht com um bilionário excêntrico: só comunicava por Post-it. Ou o papel de ama-seca que já se viu obrigado a desempenhar com clientes. “Tivemos alguns que nos pediram para marcarmos com giz o local onde deviam parar na rua, durante o festival de Cannes.” Contado ninguém acredita.