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Eric Cantona: “Lisboa foi uma verdadeira descoberta. Continua a ser”

Sociedade

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A viver há pouco tempo em Lisboa, Eric Cantona confessa-se apaixonado pela cidade. O ex-futebolista chama-lhe "o Rio de Janeiro da Europa"

António Bernardo

O ex-futebolista, e agora ator, adora viver na capital portuguesa, a que chama "Rio de Janeiro da Europa". E até tem uma explicação para o atual boom turístico na cidade... Uma conversa que revela o lado solidário da antiga estrela do Manchester United

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

Habitualmente pouco dado a entrevistas, Eric Cantona quebrou essa “regra” para promover o mais recente filme em que participa, Marie et les Naufragés, do realizador Sébastien Betbeder, ante estreado na 17.ª Festa do Cinema Francês, a decorrer até 13 de novembro em várias cidades portuguesas. Além de confessar a sua paixão por Lisboa, sendo particularmente fã da Fundação Gulbenkian, da gastronomia e dos vinhos nacionais, o ex-futebolista revelou à VISÃO o motivo que levou o seu filho de 6 anos a optar por jogar na escola do Sporting.

Completamente avesso às redes sociais – o ator não tem qualquer página oficial – Cantona identificou-se com uma das características da sua personagem neste filme: sofrer de hipersensibilidade eletromagnética, uma espécie de alergia às ondas eletromagnéticas, essenciais para a partilha de informação à distância (por exemplo, através dos telemóveis ou do wi-fi) – recorde a reportagem da VISÃO sobre este tema. E diz-se, também ele, hipersensível, sobretudo à ilusão de liberdade trazida pelas novas tecnologias.

Apesar da hesitação inicial, Eric Cantona acabou por confirmar à VISÃO o seu envolvimento no apoio aos refugiados que chegam a Marselha, a cidade francesa onde nasceu há 50 anos.

O filme Marie et les Naufragés é uma mistura de drama e comédia. Em qual dos géneros se sente mais confortável?

Adoro todos os géneros. Uma das melhores coisas de ser ator é a possibilidade de ser tudo. Se consigo fazer tudo já não sei. Isso são os outros que têm de julgar. Ser ator é propormo-nos a interpretar todas as personagens. Pode ser um risco muito grande uma pessoa lançar-se nesse desafio, mas é um trabalho muito interessante. Eu conseguiria interpretar e compreender personagens que todas as pessoas detestariam. Já fiz interpretações um pouco duras, até ao nível sexual… Sou um soldado e estou pronto para interpretar qualquer personagem. Não tenho nenhuma barreira.

Antoine, a personagem que interpreta, sofre de hipersensibilidade eletromagnética. Já tinha ouvido falar nesta condição?

Não, nunca tinha ouvido falar deste problema, mas acho que eu também sou hipersensível. Não durmo numa caixa protetora como a personagem, mas acho que também sofro um pouco com as tecnologias. Talvez todos sejamos um pouco hipersensíveis. É uma realidade muito recente, mas creio que todos nós vamos sofrer as consequências a longo prazo. Ainda não existem provas, mas é preciso fazer estudos que investiguem esta questão. Sou sensível às ondas eletromagnéticas, mas também sou sensível à mensagem com que são vendidas as novas tecnologias. Dão-nos uma ilusão de liberdade e, na verdade, elas controlam-nos cada vez mais. Também sou hipersensível a isso.

O futebol e o cinema têm algo em comum?

Creio que sim. Há um realizador que é o treinador, há atores que são os jogadores, há uma audiência que é o público. Há muito trabalho… Vejo muitas semelhanças.

Cantona está envolvido no apoio aos refugiados que chegam à Europa, mas não gosta promover o seu lado solidário

Cantona está envolvido no apoio aos refugiados que chegam à Europa, mas não gosta promover o seu lado solidário

António Bernardo

O que o fez mudar-se para Lisboa?

Vim cá com a minha mulher e apaixonamo-nos por esta cidade e por este país. Já conhecia Portugal, mas não conhecia bem Lisboa. Conhecia melhor a região da Figueira da Foz e Portimão. Lisboa foi uma verdadeira descoberta. Continua a ser. É uma cidade inspiradora e com uma energia muito forte. Estou verdadeiramente apaixonado por ela.

Lisboa tem tido um grande crescimento turístico…

Sim, acho que isso está a acontecer desde que eu me mudei para cá. [risos]

Foi uma surpresa a forma como os portugueses vibram com o futebol?

Não. Portugal é um país de dez milhões de habitantes, mas é um grande país no mundo do futebol. Das coisas que mais gosto nos portugueses é do seu calor e do seu orgulho. É um bom povo. Também sou apaixonado pelo Brasil e, em particular, pelo Rio de Janeiro. Para mim, Lisboa é o Rio da Europa. As duas cidades têm uma arquitetura semelhante, o mesmo contraste entre o branco e o negro na calçada e encontramos facilmente praias selvagens por perto. Por isso digo que Lisboa é o Rio da Europa.

A que tem sido mais difícil adaptar-se?

Até agora nada. É como quando estamos apaixonados, ao princípio nunca vemos os defeitos da parceira, só mais tarde damos conta das coisas de que não gostamos tanto... A minha família e eu estamos muito apaixonados por Lisboa e queremos fazer tudo para que assim continue.

Ronaldo contribuiu para o seu filho escolher treinar no Sporting?

Não, a principal razão foi o Sporting ser um grande clube formador. Quando nós pensamos nos melhores jogadores portugueses, Ronaldo, Figo, Nani ou Futre são quatro jogadores formados no Sporting e com personalidades muito fortes. É isso que eu amo no futebol. Aos 14 anos não são os resultados que importam, o mais importante é o desenvolvimento da personalidade e do potencial do jogador. E o prazer do jogo.

Como vê a atual crise dos refugiados? Emprestou uma casa a uma Organização Não Governamental (ONG) francesa para albergar refugiados em Marselha.

[Silêncio]

Não gosta de falar deste assunto?

Não é isso, não me importo de falar sobre este assunto. Falar é uma coisa, agir é outra. Acredito que os atos são mais fortes do que as palavras. Fiz o que tinha a fazer e não vejo necessidade em falar nisso. O que fiz tem algum significado. Talvez possa servir de exemplo.

Veja o trailer do filme Marie et les Naufragés: