Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

"Nunca estivemos tão ausentes e superficiais"

Sociedade

  • 333

Amy Cuddy, já considerada "uma das 50 mulheres que estão a mudar o mundo”, explica, em entrevista à VISÃO, como gestos simples podem ajudar qualquer um a sentir-se poderoso e confiante em situações de stresse. Por exemplo, numa entrevista de emprego. LEIA A ENTREVISTA E VEJA A PALESTRA QUE MUDOU A VIDA DELA

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

Tudo começou há quatro anos quando, inspirada na sua experiência pessoal, a professora e investigadora americana da Universidade de Harvard decidiu falar sobre um tema que diz respeito a todos: presença. Ou como a linguagem corporal condiciona a perceção de poder pessoal e porque é que esse conhecimento deve ser partilhado e beneficiar as pessoas que têm menos recursos e estatuto. Depois da sua TED Talk, nada ficou como antes (pode ver o vídeo no final da entrevista). Presença: Aprenda a Impor-se aos Grandes Desafios (Actual, 326 págs., €19,90) esteve dez semanas no top dos mais vendidos na lista do The New York Times e 6 meses na lista dos 100 livros mais vendidos no site da Amazon.

Para a organização americana sem fins lucrativos Association for Psychological Science, Amy Cuddy é “uma estrela em ascensão” e, segundo o Business Insider, “uma das 50 mulheres que estão a mudar o mundo”. Numa manhã em que tinha uma agenda cheia, em Boston, onde vive, a autora partilhou com a VISÃO o que a ciência demonstra e pode ser aplicado ao quotidiano a respeito das vantagens de sermos mais autênticos e conscientes do nosso próprio valor: a possibilidade de nos sentiremos mais plenos e capazes de inspirar outros, e eles a nós.

Estamos todos ligados, mas estaremos realmente presentes?

Na verdade, nunca estivemos tão ausentes e superficiais. A nossa presença não se mede pela frequência nas redes sociais nem pelo conteúdo das mensagens que enviamos.

O que significa estar presente?

É estar disponível, de corpo e mente. Ser capaz, sobretudo em momentos de stresse, como numa entrevista de emprego ou num primeiro encontro amoroso, de se manter na situação sem a perceção de ameaça nem ansiedade. Ao aceder ao nosso Eu mais autêntico e mostrá-lo inteiro, sem reservas, conseguimos ouvir o outro e relacionarmo-nos com ele plenamente, no momento.

Porque é que os conselhos do tipo “fica calmo” ou “mantém-te no presente e respira” raramente funcionam, quando mais precisamos que assim seja?

Quando nos sentimos ameaçados ficamos hiperconscientes e é muito difícil sair do registo primitivo. Mensagens como “fica calmo!” amplificam o sentimento de ansiedade que já temos. Um dia decidi investigar se a linguagem do corpo pode influenciar a mente como esta afeta o corpo e confirmei que sim, que é possível.

Pode explicar melhor essa ligação?

Se o corpo assumir uma postura dominante, o cérebro recebe a mensagem “não estás a ser ameaçado” ou “estás seguro”, e é possível sentir-se poderoso e confiante.

Imaginou que o traumatismo craniano que sofreu em jovem iria mudar tanto a sua vida?

Nunca. Aos 19 anos a vida orienta-se para o futuro. Depois do acidente de viação, quando eu e as minhas amigas viajávamos de Missoula, em Montana, para Boulder, no Colorado, tudo mudou. A recuperação foi longa. Fiquei para trás nos estudos e nas minhas ambições.

O que mudou depois disso? A sua maneira de estar? De ver o mundo?

No início, sentia-me incompreendida pelos outros, que não percebiam o impacto que a lesão teve em mim. As limitações cognitivas que sofri faziam-me sentir que aquela pessoa não era eu. Muito tempo depois de ter saído do internamento hospitalar, acabei o curso e tornei-me uma pessoa diferente. Retomar o contacto com os outros foi o mais difícil de tudo.

Depois da sua palestra, entrevistou pessoas para o livro e, entre elas, a atriz Julianne Moore​, que lhe disse ser impossível estar presente quando ninguém nos vê. O que quer dizer com isso?

Se queremos ter relacionamentos significativos mas sentimos que os outros não conseguem ver-nos como realmente somos, é complicado chegar até eles também. Mudar a linguagem corporal e ter uma imagem melhor não é tudo. O essencial é construir relacionamentos genuínos, sustentáveis e assentes na confiança mútua. Quando somos confrontados com circunstâncias em que nos sentimos impotentes, ou não vistos, é muito difícil encontrar a nossa voz e trazê-la à superfície.

Cita várias vezes o poeta Walt Whitman. Ele foi uma fonte de inspiração para si?

Sim, quando afirma que convencemos pela nossa presença. Acredito nisso plenamente, pela minha experiência. Não é estar de corpo presente, é envolver-se psicologicamente com quem se está. O conteúdo da mensagem pode nem ser relevante, mas a atitude sim. As pessoas olham para si e acreditam em quem você é, pela forma como lhes transmite aquilo em que acredita e que a entusiasma. Naturalmente, as pessoas acabam por prestar mais atenção ao que lhes disser.

Isso aplica-se a toda a gente ou mais a uns do que a outros?

Um comunicador sabe que precisa de estar psicologicamente presente para ser persuasivo e gerar confiança. Sabe que tem de mostrar quem é realmente, enquanto pessoa, e transmitir a sua mensagem com entusiasmo e convicção, para que os outros se abram à sua ideia.

Quer dizer que essa naturalidade se treina, que pode ser aprendida? Os braços abertos em V, a cabeça levantada, o tronco alinhado e a postura descontraída, que produzem o efeito oposto do de alguém que se apresenta de forma contraída, com membros cruzados e mãos na cara ou no pescoço, indicadores de submissão?

Quero deixar aqui bem claro: não pretendo sugerir às pessoas que exibam estas posturas numa reunião de trabalho! O único benefício de divulgar estes dados, cientificamente estudados, é o de permitir que uma pessoa se convença a si mesma – não outros – de que tem o seu próprio poder pessoal. Com demasiada frequência, colocamos grande parte da nossa atenção nos outros, naquilo que podem pensar acerca de nós, e em gerir essa impressão que podemos estar, ou não, a conseguir transmitir-lhes. É a nós mesmos que temos de impressionar e gerir essa impressão!

Contudo, as sessões de coaching para políticos e executivos continuam a ser populares, ainda que alguns deles sejam amplamente criticados, tanto por analistas como pelo público em geral, que vê nisso uma forma de encenação.

Percebo o que quer dizer. Esse treino resulta numa linguagem corporal coreografada que não é tão convincente assim, porque soa a falso e nada natural. Defendo que uma pessoa aprenda a sentir-se confiante e confiável, sem necessidade de cultivar traços dominantes ou uma postura alfa. Aquilo que muitos políticos fazem quando recorrem ao treino da linguagem corporal gera um efeito semelhante ao das pessoas que mentem. Todos nós já mentimos em algum momento, em crianças ou adultos, e o que acontece nessas alturas é que as palavras que dizemos não estão sincronizadas com os gestos e movimentos do corpo. É essa desarmonia que leva os outros a perceber que não estamos a contar toda a verdade.

Analistas como Paul Krugman recomendam que os políticos e decisores deem maior relevo aos programas de ação do que ao modo como se expõem ao eleitorado ou aos cidadãos. Subscreve?

Desconheço a posição de Paul Krugman a este respeito. Apenas posso afirmar que decisões tão importantes como a do voto não podem ser única e exclusivamente baseadas nas pistas veiculadas pela linguagem corporal. Se é disto que está a falar, de prestar mais atenção ao conteúdo da mensagem do que ao meio em que é transmitida, sim, o caminho é esse. A comunicação não verbal tem muito peso na comunicação, mas é apenas uma parte do todo, não se substitui a ele.

Teve convites dos media para analisar os perfis dos candidatos presidenciais?

Sim, respondi a alguns no início desta campanha, mas acabei por declinar essa possibilidade. Afinal, estaria a trivializar a importância destas eleições. A diferença entre estes dois candidatos é tão forte que a linguagem corporal não é, definitivamente, a discussão que devemos ter no momento. Importa identificar o conteúdo relevante nos discursos de Hillary Clinton e Donald Trump. Devemos estar atentos aos momentos de sincronismo entre o que eles dizem e como dizem para perceber quais os assuntos que eles levam mesmo a sério, que é a sua verdadeira prioridade. Porque todos fazem muitas promessas, mas sabemos como funciona o Congresso e a forma como se faz política na América. Não é por se prometer que se cumpre, depois. Devemos estar atentos e detetar momentos de honestidade genuína.

Presume-se que os políticos nunca falam verdade. E não apenas na América.

Não é que não falem verdade, mas exageram as verdades de modo a fazerem promessas que realmente não vão poder cumprir. Por regra, qualquer eleitor deve prestar atenção à combinação entre o que os políticos dizem e o grau de paixão e de convicção com que o fazem, porque todos acabam por ter de cobrir diversos assuntos na campanha eleitoral, mas nem todos os assuntos lhes dizem realmente algo. Portanto, é essencial perceber qual é mesmo a onda deles, se forem eleitos.

Nas suas palestras e escrita dedica especial atenção a um tema que parece estar em voga: a síndrome do impostor. Ou a sensação de que se é uma fraude, sobretudo se se é competente. A que se deve?

É um problema humano, geralmente associado às mulheres. Porém, as inúmeras investigações que cito sobre este tema demonstram que não é assim. Depois de ter falado publicamente disto e de como me afetou a mim durante tanto tempo, percebi que era algo comum a muita gente e que precisava de vir à superfície. Porém, muitos preferem fazê-lo ainda de forma privada, via email por exemplo, já que recebi vários testemunhos dessa forma, tanto de mulheres como de homens.

Sentir-se uma fraude, alguém que não merece ter sucesso, resulta numa falta de presença ou é por não conseguir estar presente que alguém se sente falso?

A experiência do impostor é mais normal do que se pensa e resulta de nos apegarmos a padrões tão elevados de desempenho que se tornam irrealistas. Seguimos o que os nossos amigos e colegas publicam nas redes sociais e passamos o tempo a comparar quem tem mais momentos felizes e perfeitos, mesmo que nenhum de nós se sinta assim tão feliz e perfeito. As expetativas para o sucesso são tão elevadas que ficamos com a impressão de não estar à altura e de sermos impostores. E questionamo-nos: “O que se passa de errado comigo?”

Há diferenças de género na forma de viver a experiência do impostor?

Os homens estão tão expostos a isso como as mulheres. A cultura que temos premeia a excelência e não o desfrute. Por isso temos a impressão de que os outros têm mais sucesso do que nós e são mais felizes do que realmente são.

A falta de poder pode ser tão ou mais crítica do que o excesso dele?

São muito poucas as pessoas com excesso de poder. Contrariamente ao que se pensa, os estudos nesta área mostraram que o poder em si não corrompe e, efetivamente, permite que cada um se revele como é. Se considerarmos a quantidade esmagadora de gente que se vê privada de recursos básicos e, até, sem nação ou Estado a que possam chamar seu, percebemos o quão difícil é recuperar dessa situação de impotência e desamparo.

Isto aplica-se, por exemplo, à crise dos migrantes, uma maioria que não tem voz?

As pesquisas que relacionaram migrações e perceção de poder sugerem que a hostilidade face à diferença aumenta, sobretudo nos homens, quando eles sentem não ter poder e, por isso mesmo, encaram o outro como uma ameaça à sua segurança. Penso que a situação de absoluta impotência que os refugiados sentem os empurra para atribuir a culpa a um grupo externo, a quem imputar responsabilidades. É como estar num cenário de soma zero: ninguém ganha.

Voltando à perspetiva individual e à fisiologia do poder, é possível que alguns de nós sejam naturalmente mais propensos a ter poder do que outros?

A perceção de poder pessoal traduz-se em elevados níveis de testosterona e baixos níveis de cortisol, que está presente na resposta de stresse. Se se sentir impotente, com a perceção de ameaça, a probabilidade de ter mais níveis de cortisol é maior e a tendência é ver nos outros ameaças ou inimigos potenciais, com os quais não é possível cooperar.

Qual o segredo para lidar com o stresse associado à constante exposição, uma vez que é uma figura pública?

Passo muito tempo em aviões, a viajar pelo mundo e a dar palestras e tiro prazer disso. Porém, preservo bastante a minha vida privada e faço questão de, pelo menos uma vez por semana, ter um jantar em família, com o meu marido e os meus filhos. Esses momentos lembram-me da pessoa que eu sou e aquilo que valorizo. E é graças a esses momentos que me sinto centrada e mantenho sempre os pés na terra.

VEJA A PALESTRA QUE MUDOU A VIDA DE AMY CUDDY: